“Aspismo”

A inteligência brasileira sofre do que Carlos Drummond de Andrade chamou de “aspismo” e Otto Lara Resende chamou de “nomismo”. Há tempos constato, como disse Clarice Lispector, “isso”. Os intelectuais, profissionais e diletantes, não conseguem organizar qualquer tipo de raciocínio sem recorrer à “validação patética das aspas”, como já dizia José Saramago.

Talvez seja consequência do que José Paulo Paes, em seu elogiado e desconhecido ensaio “Aqui Não, Mermão”, definiu como “cultura do fichamento”. Sabe como é: neguinho perdeu o prazer da leitura pela leitura e, página após página, incapaz de formular uma ideia original, “vai colecionando frases e mais frases que, entre aspas, cabem em qualquer texto banal sobre assunto igualmente banal e dá a eles, texto e autor, respectivamente substância, ainda que falsa, e erudição, também falsa” (Caio Fernando Abreu, in “Estudos Sobre Teu Delicioso Falo”).

Longe de demonstrar, como sugeria Camões, “embasamento teórico ou qualquer porra do gênero”, o aspismo/nomismo é sintoma de uma inequívoca insegurança. E também de uma boa dose do que Machado de Assis qualificou como “babaquice”. Não se trata daquela coisa que Isaac Newton falou lá – e falou mesmo! – de ver mais longe por estar sobre o ombro de gigantes; em geral, é tão-somente uma tentativa patética de demonstrar erudição, de mostrar aos outros que se leu “coisa pra caralho”, como disse Nietzsche.

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Um humilde estudo da arrogância

Existem palavras simples que a gente usa sem atentar para o significado exato dela. “Arrogância”, por exemplo. Hoje me chamaram de arrogante (não pela primeira vez) e lá fui eu, num exercício humilde de autocrítica, pesquisar o significado de “arrogância” para entender o que sou.

O que li me surpreendeu.

Me informa um dicionário qualquer aí (Google) que arrogância é a “qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez”.

São muitos os problemas dessa definição.

Para começar, há a questão da suposta superioridade. Suposta aos olhos de quem? Do Outro, claro. Que, por motivos óbvios (alguém arrogante diria que “por suposta inferioridade moral, social, intelectual, etc”), pode muito bem sofrer de uma terrível falta de auto-estima.

A definição, por sinal, parte de um princípio igualitário que me parece perigoso. Ao “criticar” a ideia de uma superioridade (moral, intelectual, social e de comportamento), a definição de arrogância pressupõe a existência de um “meio ideal”, isto é, de um nível qualquer no qual todas as pessoas são igual e idealmente virtuosas. Qualquer coisa acima deste meio ideal seria, portanto, sinal inequívoco do grave crime de arrogância.

A arrogância parece também ser definida somente a partir de uma ação. Porque, veja bem!, o arrogante é aquele que “assume atitude prepotente ou de desprezo em relação aos outros”. Ora, mas e se a pessoa que se arvora a tal superioridade moral, intelectual, social e de comportamento ficar quietinha no seu canto? Ela deixa de ser arrogante? Ou a arrogância é assim como uma piada interna?

E aqui, mais uma vez, vale a pena humildemente estudar o Outro, isto é, aquele que parece identificar a arrogância na voz passiva. Meu amigo, será que você não deveria ter um pouco de orgulho próprio, de altivez, de “confiança no próprio taco”? Deixe de ser inseguro, menino!

Depois tem aquela parte lá do “orgulho ostensivo”. Ah, você quer me convencer de que o orgulho mudo, velado, é mais nobre e admirável? Isto é, aquele que se considera superior em silêncio deixa de ser arrogante?

Tudo isso para dizer que fui chamado de arrogante por aí. O que, evidentemente, me incomodou bastante. O suficiente para eu escrever este texto. Eu queria “pedir desculpas” dizendo que minha arrogância é sobretudo irônica, mas daí pensei que vão dizer que estou me considerando intelectualmente superior por pressupor que o Outro não entende ironia.

Não. Não desprezo aqueles que considero moral, intelectual e socialmente inferiores a mim. Ao contrário, vejo-os com extremo interesse, me perguntando constantemente como conseguem viver neste vácuo moral, nestas trevas intelectuais e nesta pobreza social.

(E agora, veja só que desgraça, estou me achando arrogante por supor que ninguém vai entender a ironia – inclusive autoironia – do parágrafo acima).

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Melena Contra o Mundo

Para Adlai Lustosa

 

No campo de quadribol da Academia Brasileira de Letras, Reri Potternilson dos Santos sobe ao púlpito para fazer seu discurso de posse. Ele assumia cheio de orgulho a cadeira número 291, anteriormente ocupada pelo dramaturgo e rapper XPTO – que, num gesto de rebeldia, deu um tiro na cabeça para provar que não era imortal coisa nenhuma. Reri, além de campeão mundial de quadribol, era um poeta celebrado pelo uso inovador de emojis, sobretudo a conturbada berinjela.

A plateia, formada essencialmente por octo e nonagenários, aplaude com toda a força que lhes é possível. Orgulham-se, aqueles senhores, de terem liderado a revolução tecnológica e cultural que possibilitou a chegada de um Reri (e, antes dele, do revolucionário XPTO) ao inegável posto de Maior Escritor do Brasil e Adjacências. Sobretudo das Adjacências.

Lá no fundo, porém, um homem não aplaude. Romulindo de Araújo & Costa & Silva & Alcântara & Etc. é inimigo mortal de Reri Potternilson. Mortal mesmo. Se ele chegasse a menos de dois metros do novo acadêmico, sentia falta de ar, o coração disparava e a glote fechava. O problema é que Romulindo está escrevendo um romance (também chamado de “textãozão”) sobre um homem que tem alergia a outro homem e que busca se matar simplesmente se aproximando da fonte alergênica. Romance autobiográfico (autoficção) mesmo.

Reri Potternilson agradesse a prezença di todoz e dá início a um discurso que mistura longos e constrangedores silêncios (artísticos), palavrões, gírias de um passado glorioso, quando as pessoas todas ouviam sertanejo universitário pós-graduado, e um pouco de baba. Certo, muita baba. Já no final do palavrório, ele faz o que todos esperam: tira uma varinha mágica do bolso do fardão, aponta-a na direção de uma coruja branca e recita as palavras mágicas. Aquelas que não se deve pronunciar nunca. De jeito nenhum.

Faz-se um silêncio evidentemente sepulcral entre os convivas. Dá para sentir a tensão no ar. Até Romulindo prende a respiração (ou talvez a glote dele tenha se fechado – jamais saberemos). O tempo parece parar.

Depois de uns quinze minutos sem que nada aconteça, a plateia irrompe num aplauso estrondoso. Reri Potternilson sorri diante da materialização de sua obra de arte. Ele queria apenas que houvesse um emoji para descrever aquela sensação que é de vitória. Bom, outro emoji que não aquele da bandeirinha quadriculada. Ou o da mãozinha fazendo “V”.

A alegria de Reri Potternilson, porém, acaba quando, do meio da plateia intelectual, surge ela, Melena di Melena & Melena. Alta, metade branca e metade negra, 51% do cabelo crespo e 49% liso e, reza a lenda, detentora de um astronômico QI (70), Melena di Melena & Melena (procurem no Google) ganhou notoriedade nos últimos tempos (dias) por seus poemas neo-ultraconcretos-ortodoxos feitos com o mais refinado pelo axilar. Verdadeiras obras-primas, como observou o renomado crítico Genyal Fecalis.

Num movimento mais lânguido do que lascivo (e vice-versa), Melena enfia a mão nodosa dentro do sutiã e de lá tira um pedaço de papel e um aparelhinho que parece um detonador. Mas que bem podia ser apenas um pez dispenser – nunca se sabe! Com a voz rouca que lhe é característica (e que arrepiou os pelinhos da nuca de Reri Potternilson, vale acrescentar), Melena lê as palavras que a imortalizariam (mas que críticos ranhetas como Genyal Fecalis diriam ter sido tiradas de um biscoito da sorte, veja só!): “Oito, dezessete, vinte e três, vinte e sete, trinta e nove, cinquenta”. E aperta o botão.

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D.

Na faculdade, eu era completamente apaixonado por uma menina muito magra e loira, a despeito da boca fina demais e do nariz estranhamente rechonchudo naquele rosto anguloso. Hoje sei que, a despeito do clichê, ou melhor, justamente por causa do clichê, o que me encantou nela foi a boina que usava numa aula do Hélio Puglielli.

Passei quatro anos atrás da moça, sem sucesso. Depois da faculdade, ela se mudou para a Itália. Insistente ou persistente, não sei, continuei tentando conquistá-la por e-mail, que era como os homens das cavernas se comunicavam. Deu certo. Assim que ela voltou ao Brasil, começamos a namorar.

Mas era um relacionamento fadado ao fracasso. Ela era evangélica atuante; eu… Bom, eu sempre fui uma confusão espiritual e naquela época não era diferente. Para um menino de 22 anos, porém, a diferença religiosa não tem nada a ver com um conflito espiritual. É a parte moral que entra em conflito com os hormônios em ebulição.

A moça, entre beijos mais ardentes, entre lençóis amarrotados, insistia em me evangelizar. Havia um estranho componente erótico nisso. Ela falava de céu e inferno bem reais depois do amor e eu me sentia deliciosamente pecador (com o perdão da rima) – um pecador abençoado pela presença dela.

Um dia, ela me convidou para uma festa com os amigos da igreja. Fui, claro. Gente chata, mas havia bebida e, naquela época, bebida resolvia praticamente todos os meus problemas de sociabilidade. Bebi e conversei e bebi e conversei e não me lembro de ter feito absolutamente nada de errado além de beber e conversar.

O problema é que o simples fato de eu estar bebendo parecia incomodar alguns. Ou melhor, algum. Em certo momento, um menino com cara de idiota (mentira, nem lembro da aparência dele na época) me puxou pelo braço, diante de todo mundo, e começou a falar alto demais sobre Deus e Jesus e bebida e inferno. Eu, que sou uma pessoa calma, fiquei ouvindo. Até o momento em que deixei de ouvir.

Uma das mãos segurava o copo de uísque; a outra se fechava num soco improvável. O menino (imberbe até hoje) soltando perdigotos cheios lá da virtude dele, enquanto eu estudava o cenário. Um soco naquela cara seria dramaticamente lindo, mas romanticamente desastroso. Meu namoro com a moça não era dos melhores, mas naquele momento eu queria que ela fosse a mãe dos meus filhos. Acho.

Não bati no sujeitinho. Deixei que ele terminasse a ladainha, voltei para o sofá e fiquei ali, admirando a moça que era infinitamente melhor quando habitava só meus sonhos, não a realidade.

Lembro do episódio e do menino (a quem chamarei apenas de “D.”) sempre que o vejo na televisão, o sotaque carregado demais, o narcisismo messiânico, o rosto imberbe, o humor sem graça, os olhinhos encantados com a própria virtude, guiando a turba em sua cruzada contra a corrupção.

E, com algum arrependimento, concluo: aquele soco que nunca dei e ele nunca levou teria feito bem a ambos. Quem sabe ele não estaria tão certo de si mesmo. Quem sabe a moça, aquela, estaria aqui ao meu lado agora: gorda e chata e amargurada. Mas ainda usando aquela boina.

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