Dorme, Caim, e descansa!

Quando o homem acorda Caim, é só uma questão de tempo até encontrar seu Abel. E, na era dos sucessos minuciosamente registrados nas redes sociais, mais evidente do que nunca parece a preferência de Deus por alguns de seus filhos. O Caim contemporâneo fica descaralhado da vida, joga o celular na parede, clama por justiça e tenta entender a lógica divina. A conclusão óbvia é a de que deve haver algo de errado com as oferendas. Não há.

Ao invejar Abel – qualquer Abel –, Caim constrói sempre uma versão idealizada do irmão. É como se Abel tivesse sido devolvido ao Paraíso. Veja o sorriso dele na foto e os amigos e os abraços e a certeza pairando no ar de que Abel é essencialmente melhor em tudo, sem falar no sorriso de quem só aduba pensamentos bons, de quem, ao nascer, recebeu do anjo a marca da virtude. Veja a certeza com que ele pisa, a segurança com que olha, ou melhor, admira o futuro.

A ideia equivocada que Caim faz de Abel é uma fantasia com a qual ele terá de conviver quando for condenado a errar (no sentido de “ser errante”, mas não só) eternamente. Não só é seu maior engano como também seu verdadeiro castigo. Caim, por algum motivo imune à misericórdia divina, para sempre verá seu irmão como O Mais Agraciado.

Coisa que Abel evidentemente não é. Eis o problema da narrativa bíblica: falta ao personagem Abel um irmão ainda mais afortunado do que ele, o Mais Agraciado Ainda, Agraciado pra Caralho Mesmo, alguém para Abel invejar, se ressentir, duvidar do seu próprio valor e do valor de suas oferendas a Deus – mas alguém para Abel não matar.

Assim talvez Caim seja* capaz de perceber que Abel está longe do Paraíso e que a predileção divina é sempre relativa. Aliás, não há exatamente predileção. O que existe é assim uma distribuição desigual de Graças e desgraças, umas dádivas aqui, uns revezes ali, uma conta bancária que não conhece o vermelho e um câncer de pulmão.

Sem inveja, e sim com compaixão (e com paixão), Caim pode aproveitar esse calor insuportável e se encostar preguiçosamente numa árvore a fim de pensar nos sacrifícios que Abel teve de fazer para conquistar essa predileção fantasiosa. Inclusive e principalmente o sacrifício de não poder se encostar preguiçosamente numa árvore para pensar.

Simplesmente porque nossa vida – essa rotina aqui e ali entremeada por tragédias, essa sucessão de pensamentos que nos faz duvidar da Graça, essa porção de tempo em que, de olhos arregalados, nos perguntamos se tudo não passa de um pesadelo –, nossa vida, imperfeita e conturbada como é, é sempre o sonho de alguém.

 


  • Não deveria explicar, mas explico mesmo assim que não, não errei o tempo verbal.
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C. Q. D.

O fracasso é libertador. Ah, se é. E, levando em conta que a literatura brasileira contemporânea (e nem tão contemporânea assim) é um inegável fracasso de público e crítica, mais aquele do que essa, fico pasmo que nós (escritores, leitores e os raros que são as duas coisas), fracassados dessa Grande Nação Ágrafa, não tenhamos nos jogado no infinito bungee jumping que é a liberdade*.

Porque, amigo, me permita a sinceridade: ninguém lê. Prova disso é você mesmo, que chegou até aqui, torceu o nariz ao prever, sabe-se lá por quê, que meu texto ficaria nesse ramerrame ressentido de escritor nacional fracassado e evidentemente desistiu, perdendo, assim, a oportunidade única e exclusivíssima de alcançar a mesma e brilhante conclusão que alcancei agora há pouco e que aqui exponho num arroubo de generosidade e num espasmo de ironia.

Retomando: disse que ninguém lê e que nós, os envolvidos nesse ectoplasma pegajoso que é a literatura brasileira, somos vítimas (ou beneficiários) de um fracasso libertador. E depois eu fiz uma provocação para você voltar ao texto e se você está lendo isso significa que voltou. Agora tenho certeza de que você está temendo um novo “retomando” no parágrafo seguinte. Mas não. Prometo que vou continuar o raciocínio. Desde que você continue lendo.

Pois. Para provar que o fracasso é libertador, ouso aqui escrever qualquer bobagem e até mesmo qualquer coisa realmente – pretensamente! – genial, certo de que ninguém me lerá para além do primeiro parágrafo. (Se você me lesse, se alguém me lesse, se alguém lesse alguém, saberia que há pouco tempo fiz este mesmo experimento cometendo propositadamente um erro de ortografia, mas ninguém foi além do segundo parágrafo também naquela ocasião. E não adianta ficar procurando erro de ortografia neste texto também. Sem xance).

Mas sério. Por que não aproveitamos o teatro nu para um grande bacanal criativo no palco? Por que ainda estamos tentando seduzir os não-leitores com nossas histórias cheias de começos, meios e fins e temas sócio-educativos e referências eruditas e pops e cults e trocadilhos elaboradíssimos e etc.? Por que não damos vazão de uma vez por todas à criatividade on crack? E – meu Deus! – por que não conseguimos nos libertar deste compromisso com o fracasso?

Me surpreende que a literatura brasileira contemporânea (até agora não sei se é um clã, um sindicato, uma religião ou uma sociedade secreta) não tenha produzido, depois de tantos anos de fracasso, isto é, de liberdade, uma única obra realmente livre. Livre do compromisso com o clã, da lealdade ao sindicato, da fidelidade à religião e da camaradagem da sociedade secreta. Livre de qualquer necessidade de reconhecimento, porque só se reconhece o que existe e só existe o que se reconhece. (Eu avisei que ia escrever uma coisa real e pretensamente genial. Mas, como você não está lendo mesmo…).

Onde estão os personagens realmente desprovidos de superego? Onde estão as tramas envolvendo copropedonecrofilia? Onde estão aqueles parágrafos que passam raspando em todas as apologias previstas no Código Penal? Onde está a autoimolação do verdadeiro artista?

Se você tivesse chegado até aqui, talvez fosse capaz de ouvir e até seguir meu conselho (que é um autoconselho, diga-se de passagem): aproveita, amigo. Ou, como dizem os viados (ah, a liberdade de escrever sem ser chamado de homofóbico!): se joga! Ninguém está vendo mesmo. Ninguém. Não, nem sua mãe (apesar de ela jurar que leu e você jurar que acredita na evidente mentira da velha). Então o que o (me) impede de dar uma de Zé Celso? **

Termino este texto que já se prepara para o grande mergulho nele, no Oblívio, com uma dúvida e uma certeza. A dúvida é se alguém realmente chegou até o fim do texto e está esperando assim uma última frase arrebatadora. A este Leitor Improvável, peço desculpas. A certeza é a de que não***.

 


  • Alguns se jogaram e se enforcaram, mas essa é outra história (que ninguém vai ler).

** Na remotíssima hipótese de você ter chegado até aqui e na hipótese quase certa de que a referência lhe escapa no momento, Zé Celso é um diretor de teatro famoso por, digamos, abrir as nádegas e escancarar o cu para a plateia. (Ou era, na hipótese ainda mais remota de você estar lendo isso depois da morte dele).

*** “Se você tinha certeza de que não seria lido, por que se deu ao trabalho de escrever?”

Porque não tenho escolha.

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Ora, direis, ouvir estrelas!

Hoje em dia tudo se avalia. Você pede uma pizza e cinco minutos depois recebe o e-mail do aplicativo pedindo que se dê estrelinhas para o atendimento, a embalagem, o sabor e, se calhar, até a roupa do entregador. Você vai à farmácia comprar uma simples aspirina e lá está a maquininha pedindo, implorando e às vezes mandando que você avalie o atendimento com as tais estrelinhas – mesmo que você não tenha sido atendido por ninguém em sua sofrida busca por um remédio que aliviasse a dor de cabeça.

As estrelas (invariavelmente de um a cinco, mas às vezes de um a dez) governam nossa vida contemporânea. Aos poucos, elas determinam todas as suas escolhas. De repente você percebe que deixou de comprar e ler aquele livro – aquele! – porque a ele falta a chancela das estrelas. Ou deixou de assistir a um filme ou de comer num restaurante. Percebe até mesmo que deixou de ler este texto que agora escrevo porque, bom, porque meus textos anteriores não foram aprovados pela grande divindade Cinco Estrelas.

Nos últimos tempos, contudo, aprendi que as avaliações quase sempre revelam muito mais sobre o estrelador do que sobre o estrelado. Afinal, como justificar essa compulsão por avaliar tudo e, assim, tornar-se um pequeno algoz das reputações alheias? Como não perceber o prazer perverso contido na estrelinha solitária que parece transformar o motorista do Uber num vagabundo, o pizzaiolo num porco e o escritor num fracassado?

Digamos, por exemplo, que você pegou um Uber caindo aos pedaços, com um motorista que não sabe ler placas de trânsito direito (avançou na preferencial sem nem olhar!) e com o ar-condicionado supostamente quebrado sob um sol de quarenta graus (vinte e cinco, para os curitibanos). Você entra no carro e já dá aquela bufada de ódio. E, a cada freada do motorista, sente crescer dentro de você aquela raivinha de criança mimada quando as coisas não saem exatamente do jeito que ela quer. Finalmente o carro chega ao destino e, sem hesitar, você vai logo avaliando mal o motorista. Só dá uma estrelinha porque é impossível dar estrelas negativas.

Na improvável hipótese de alguém perguntar, você dirá que deu uma estrela ao motorista (ou, como querem os novinhos, à experiência) para que os problemas não se repitam. Isto é, para transformar o mundo num lugar melhor, sem motoristas perdidos e com ares-condicionados que funcionam. Da mesma forma, você avalia mal uma pizzaria para que outras pessoas não tenham a mesma intoxicação alimentar que você e avalia mal um livro para que outras pessoas não percam o mesmo tempo que você perdeu lendo aquela porcaria. Em resumo, você é tão-somente um abnegado juiz do cotidiano, compartilhando experiências ruins – e bem de vez em quando algumas boas – a fim de transformar vidas. Ou algum blá-blá-blá do gênero.

Mas me deixe plantar a semente da dúvida nessa sua cabecinha tão cheia de virtudes. Já parou para pensar que talvez o motorista do Uber seja um… jornalista recém-desempregado que nunca dirigiu profissionalmente e que não teve dinheiro para trocar o gás do ar-condicionado na semana passada? (Vai ver ele nem sabe que precisa trocar o gás do ar). Ou que a intoxicação alimentar talvez tenha sido causada pela macarronada que você comeu no restaurante a quilo na hora do almoço, e não pela pizza que entregaram com cinco minutos de atraso? Ou ainda que o livro que você o-di-ou simplesmente o pegou num dia ruim?

No primeiro caso, eu lhe daria uma estrela por sua falta de compreensão; no segundo, uma estrela por suas preferências alimentares suspeitas; no terceiro, uma estrela por sua incapacidade intelectual de passar por cima dos problemas cotidianos a fim de mergulhar na experiência estética proposta pelo autor. Ou coisa assim.

Fico me perguntando que “mundo melhor” é esse que as pessoas imaginam estar construindo dando uma ou cinco estrelas para tudo o que fazem. Não, o motorista do Uber não vai aprender a se localizar bem na cidade de uma hora para a outra (e talvez não tenha dinheiro para consertar o ar-condicionado). Não, o pizzaiolo não vai se lembrar de lavar a mão depois de ir ao banheiro só porque você, Zé, disse ter sofrido uma intoxicação alimentar. E não, o escritor não lhe pedirá desculpas só porque você não gostou das mal traçadas lá dele.

Até por isso nos últimos tempos tenho usado um sistema de avaliação reverso (patente pendente). Se a experiência é excelente, isto é, se o Uber me trouxe em casa são, salvo e devidamente refrigerado, se a pizza não me causou uma diarreia e se cheguei ao fim do livro plenamente satisfeito, não hesito em avaliar com uma estrelinha esfarrapada, daquelas que nem brilham direito, se calhar até faltando uma perninha. Afinal, foram experiências que não me ensinaram nada, que cumpriram seu propósito sem me transformar. Agora, se tudo deu errado…

Neste meu sistema reverso merecem cinco estrelas somente experiências traumáticas (ou transformadoras, dependendo do dia): sobrevivi não só ao ar-condicionado defeituoso do Uber como também a um capotamento; fui ao hospital tomar soro depois de comer uma pizza estragada e me apaixonei pela enfermeira; ou li um livro tão, tão, tão mal escrito que ao final dele só pude concluir uma coisa: escrevo melhor do que esse sujeito aí.

E aí? Quantas estrelas meu sistema reverso merece?

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A bondade

 

Lá pelas tantas ela interrompe a programação normal, se vira para mim e, com toda a ingenuidade de seus olhos castanhos, me pergunta:

“Você já fez alguma bondade na vida?”

Abro um sorrisão de dentes tortos, certo de que vou encontrar no sótão da memória cem mil exemplos a provar, de uma vez por todas, que sou aquilo que penso ser: uma pessoa inquestionavelmente boa e, se calhar, destinada a todas as benesses do Paraíso. Mas os segundos avançam e… nada.

Tento dar uma de espertalhão e, enquanto abro histericamente todas as caixas que podem conter um precioso ato de bondade (tem que estar aqui em algum lugar, porra!), proponho que se defina “bondade” – o que não é tão fácil assim. Depois de muita conversa e algumas risadas, chegamos a uma definição mais ou menos óbvia: bondade é um gesto puramente altruísta, algo que você faz pelo bem em si, sem receber nada em troca, nem mesmo (e sobretudo!) aquela autogratificação do dever cumprido.

Assim munido deste mapa, lá vou eu mais uma vez abrir caminho pelas teias de aranha e revirar caixas. Minhas lembranças estão um caos e em algum momento eu preciso organizar isso daqui. Talvez em ordem alfabética.

Os minutos passam. Nada. Mas será possível chegar aos quarenta anos sem ter cometido nenhum ato de bondade?! Pior: isso faz de mim uma pessoa má?

Penso em todas as verdades que já disse. Mas elas não servem como exemplo de bondade. Porque algumas verdades feriram sem querer e outras verdades foram ditas para ferir mesmo. Além do mais, tem a coisa da autogratificação. Ninguém disse ou diz a verdade sem receber em troca uma boa dose de serotonina pela demonstração de honestidade e coragem.

Penso nas mulheres que amei ou gostei ou só desejei e, bom, ninguém ama, gosta ou deseja uma mulher (ou homem – nada contra!) sem receber amor, gostura (!) ou desejo em troca. Nem mesmo o amor de um pai por um filho é realmente altruísta, porque a gente quer ser admirado e, em última análise, lembrado depois que o caixão baixar à cova.

Daí bate o desespero e começo a pensar em todas as coisas estupidamente boas que já fiz na vida. Doar sangue, por exemplo. Ou será que doo sangue só para ter direito à meia-entrada no cinema? Ajudar um cego a atravessar a rua. Abraçar alguém num velório. Ligar para alguém só para perguntar como a pessoa está ou para pedir desculpas. Dar bom dia a um estranho na rua.

Como tudo o que encontro tem um porém, desisto. O assunto morre e vamos dormir. Antes de dar início à Sinfonia do Ronco em Fá Maior, me convenço por um segundo de que, embora não seja uma pessoa má (ninguém acha que é), tampouco sou uma pessoa boa, no sentido de “alguém que cometeu um ato de pura bondade”. Que bosta.

Até que o superego parece deixar a chibata de lado, me chama para um canto e me diz que não é nada disso, otário! A conclusão a que chego antes do sono é um consolo, embora eu siga firme no propósito de, num futuro bem próximo, talvez hoje mesmo, cometer o tal ato de Bondade, nem que seja para esfregar na cara dela (brincadeira!).

“Posso não conseguir me lembrar assim de nenhum gesto épico de bondade. Mas tenho certeza de que, se você sair por aí perguntando a quem me conhece, todo mundo vai poder citar um gesto, uma palavra, uma atitude minha que, no mínimo, se assemelhe a isso daí que entendemos como bondade”.

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A maratona dos quilômetros insondáveis

Cheguei até aqui. Nem sei como. Nos últimos quilômetros estava completamente quebrado. As pernas não respondiam mais, me faltava o ar. Quando avistei a subida lá no quilômetro trinta e três, me desesperei. Quase desisti. Mas aqui estou. Cheguei.

No começo, confesso, não estava muito a fim. Nem sei como fui parar na linha de largada. Uma sensação de desafio, talvez? Ou era simplesmente meu “dever”? Sei lá. Só sei que soou o tiro de largada e eu não contive o choro. Dizem. Não lembro.

Os primeiros quilômetros foram uma espécie de transe. Não me lembro de muita coisa. Era só seguir em frente. Um passo depois do outro, os primeiros. Não tinha segredo. Nunca tem. As coisas ficam mais difíceis quando a gente começa a perceber o que está fazendo. Comigo isso aconteceu cedo. Cedo demais. Mas segui em frente, até porque nem sabia que dava para desistir.

Lá pelo quilômetro doze, tropecei pela primeira vez. Ralei os joelhos – do corpo e da alma. Se me levantei é porque havia algo de determinação em mim. Ou de teimosia. Ou pior ainda: de certeza. Sim, foi essa certeza que me levou pelos quilômetros seguintes.

Tropecei mais. No dezoito, no vinte e um, no vinte e cinco. E a certeza começou a se dissipar. Senti dores na planta dos pés – ouvi alguém dizer que tenho o pé chato. Mas não só. Olhava adiante e não via linha de chegada alguma. Linha alguma. Só mais pessoas correndo. E um barulho insuportável. Havia quem torcesse, mas também quem xingasse.

No quilômetro trinta, lembro bem que uma mãozinha negra me estendeu uma água. Era do que eu precisava. Joguei água na cabeça, no peito, nos pés doloridos. Me encharquei todo da água e da mão muito pequena. E, mesmo perdendo posições, segui.

No quilômetro trinta e três, porém, perdi as forças. Não sei se tropecei ou se me tropeçaram. Ralei muito mais do que o joelho. Olhei para os lados e, certo de que ninguém dava por mim, cogitei desistir. Algo me diz que até desisti por uns segundos. Mas segui. Sem saber por quê. Sem ter outro objetivo que não continuar. Segui como que por inércia.

No quilômetro trinta e nova, ganhei outra garrafinha d´água. É nela que me banho agora, no quilômetro quarenta. Água boa. Me encharco e a deixo evaporar lentamente. É como se meus poros todos se abrissem num aspirar profundo. Sigo em frente. Mais um passo. E outro.

Rumo ao fim desta maratona dos quilômetros insondáveis.

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