Skip to content

Category: Crônica

Elogio da Alienação

  Um dos piores legados do petismo é a politização exagerada das pessoas. Não aguento mais – e sei que você também não. Hoje em dia, fala-se de política o tempo todo – e não só na Internet, como podem pensar alguns. Acabei de pegar um ônibus e lá estavam duas velhinhas discutindo o impeachment, as manifestações populares, a esquerda e a direita. Há vinte anos, provavelmente estariam trocando moldes de costura ou analisando o comportamento da mocinha da novela das oito. É deprimente. E olha que sou do tempo em que os professores reclamavam da baixa politização da população. Meus professores diziam que o Brasil só melhoraria, sairia da crise (qualquer crise) e viraria um país do Primeiro Mundo quando as pessoas deixassem de…

Share

Obituário urgente

O Brasil não se comove mesmo com suas perdas maiores. O Retiro dos Artistas, hoje, viveu um pôr-do-sol de luto, mas ninguém parece ter dado muita bola, a não ser os funcionários do lar, que reclamaram do trabalho extra em véspera de feriado. O morador do quarto 263, na ala norte, era quieto. Passava os dias olhando as paredes forradas de fotografias que eram a sua memória, a memória de alguém que freqüentou os melhores e também os piores círculos do teatro, da televisão e do cinema durante quase um século mas que, mesmo assim, morreu velho e incapacitado. Ninguém trabalhou mais do que o mitológico Grande Elenco (? – 2003) para a consolidação da dramaturgia nacional. Grande Elenco era um menino tímido quando surgiu…

Share

O ladrão que por acaso era santo

E tal e coisa e tinha este ladrão. Um homem para lá de inteligente que em certo momento da vida achava que era Papai Noel. Sério. Foi na adolescência. O cara simplesmente surtou enquanto via os hormônios tomarem conta do seu corpo. Ele estava sentando a um canto, pensando numa menina que vira no ponto de ônibus e que revirara sua cabecinha oca e assim, sem mais nem menos, pensou que era o Papai-Noel. Só porque a mocinha não olhara para ela. Não se pode, porém, culpá-la: ele era feio como o demônio. Ou como a Frida Kahlo. O leitor escolhe a comparação que mais lhe aprouver. Sessão de psicanálise para cá, sessão de psicanálise para lá, uns eletrochoques, umas injeções de glicose e o…

Share

Dissertação do não-beijo

ou Teoria geral da natureza do homem ou ainda Um nome: o seu Vamos chamá-lo de Sr. P.. Assim, com uma só letra, o suficiente para que ele, o Sr. P., não seja nem um anônimo nem seja confundido comigo, apesar de termos as mesmas iniciais. Afinal, o Sr. P. é muito diferente de mim — diria até que é o oposto. A não ser pelo detalhe de não sermos lá muito felizes em nossas vidas sentimentais, o que, diga-se de passagem, é a coisa mais comum do mundo. Pois eu encontrei o Sr. P. ontem e ele estava alegríssimo, dizendo que finalmente terminara aquele poema épico sobre a árvore que deu origem à cruz usada na primeira missa realizada no Brasil. Como podem ver,…

Share