Skip to content

Category: Crônica

Meu Walden

Comprei uma caixa de abelhas. Linda, toda branquinha, cheia daqueles compartimentos que em breve estarão pululando de vida. No momento ela está no meio da sala, desmontada, e assim permanecerá até que alguém com mais destreza no manejo de uma chave de fenda me ajude. Ainda hoje pretendo comprar um traje próprio para apicultura. Daqueles que fazem você parecer um astronauta. Custa baratinho nas Americanas. Minha única dúvida é quanto ao tamanho. Meu otimismo me leva a cogitar um traje pequeno; a prudência me faz pensar num traje médio; mas a realidade me impõe um traje grande mesmo. Extra grande está fora de cogitação – por enquanto. Ontem mesmo mandei várias cartas – cartas, meus amigos, aquela coisa velha com envelope e selo e a…

Share

Tipo agora, digamos assim

A ironia é um verdadeiro milagre. É o mais próximo que chegamos da telepatia. E, como todo milagre, há os abençoados e os desgraçados, tanto emissores quanto receptores – ou, no caso, não-receptores. Para que uma ironia seja produzida numa ponta e decodificada na outra, é necessário um encadeamento específico de elementos. Primeiro, é preciso que tanto emissor quanto receptor esteja numa mesma “frequência de inteligência”. A ironia raramente se realiza entre inteligências muito díspares. Tipo agora, digamos assim. E, aqui, já se nota o dedo de Deus: repare que os envolvidos da tal “dinâmica irônica” não precisam nem estar no mesmo limite do segmento espaço-tempo para que a ironia se realize. Um intelecto que virou pó há duzentos anos ainda é capaz de gerar…

Share

No banho com Thoreau

  Li Thoreau pela primeira vez quando se deve lê-lo: na adolescência. Como cheguei a ele, não lembro. Na aridez daqueles anos de fome intelectual, eu lia tudo o que me aparecia na frente. Hoje gosto de pensar no milagre que é um menino, vivendo numa província subtropical, se deparar com as sinapses registradas em papel de um homem que viveu há dois séculos. O impacto daquela primeira leitura foi brutal. Em meus delírios juvenis, sonhava em viver da terra, na paz da solidão sábia, numa cabana ao lado de um laguinho (um tanque de peixes) ali em Almirante Tamandaré. A fantasia durou uns dois anos. Mas, reconheço, aquela foi uma leitura imatura, superficial e impulsiva. Thoreau não era (não é) um defensor do eremitismo…

Share

Ainda assim, ainda assim

Outro dia fui a um enterro no Cemitério Municipal. Quero dizer, parecia um enterro. Bem verdade que tinha um caixãoe um corpo cercado por flores e rendas, coroas de vários tamanhos e em número nunca suficiente, e os devidos enlutados sentados em cadeiras precárias. Quando caiu a noite, apareceu um tal de Crisóstomo, que um amigo meu disse ser o agente funerário. Ele chegou, fez uma cara feia, sacou do bolso um isqueiro Zippo e, sem hesitar, acendeu os quatro sírios que cercavam o defunto. Imediatamente me virei para a pessoa ao meu lado. Era uma mulher linda e eu bem que estava precisando de uma desculpa qualquer para puxar conversa com ela. E, se você está se perguntando que tipo de pessoa tenta arranjar…

Share

Gazeta, mon amour (também uma confissão)

  A Gazeta do Povo vai encerrar suas atividades. Tá, eles vão manter a edição eletrônica, mas, para mim, o fim do jornal impresso, soltando tinta, é a morte do jornal. O que nunca confessei a ninguém, mas confesso agora, é que a Gazeta do Povo foi o grande amor não-realizado da minha vida profissional. Por consequência, o fim do periódico meio que consolida a morte de uma parte importante de mim. A Gazeta do Povo sempre esteve presente na minha vida. Lembro-me de me levantar bem cedo no domingo, o gramado coberto pela geada, e subir uma baita ladeira no Bairro Alto a fim de comprar o jornal numa mercearia do bairro. E voltar para casa com aquele volumão, todo orgulhoso de ser um…

Share