Skip to content

Category: Crônica

Escrever é dois-pontos

Escrever é estar quase dormindo, quase mesmo, naquela fronteira entre o despertar e o sono que nada mais é do que uma versão cotidiana da fronteira entre a vida e a morte, só que mais barulhenta por causa do cachorro do vizinho, ter uma ideia, uma coisinha à toa que atravessa sua visão de olhos fechados, se vira para você e manda beijinho antes de se transformar num monstro, uma ideia que nem é tão bonita assim, você pensa, enquanto ela lhe mostra os seios e diz vem, seu safado, vem me comer todinha, rir um risinho entre o infantil…

Share
Comments closed

Ódio (um autoflagelo por escrito)

  Até eu, que não odeio ninguém, e não odeio mesmo, nestes tempos conturbados me pego odiando. Há alguma coisa no ar, não sei se o chumbo acumulado na atmosfera desde o início da Revolução Industrial ou sutis forças gravitacionais de Júpiter e Saturno ou ainda invisíveis íncubos e súcubos. Há algo de tenso, de carregado, de satânico, de mortal. E, quando dou por mim, assim no meio do dia, sob a água quente do banho, no conforto da minha vida segura e tão estoica quanto possível, estou odiando. Em minha defesa posso dizer que meu ódio é estéril. E…

Share
Comments closed

A frase

— Eu… Eu matei. Esfaqueei. O amor. Da. Minha vida. Sangue. Meu Deus, o que foi que eu fiz? Venha! Venha! Acho que não. Morto. Muito sangue. Jesus, quem vai limpar todo esse sangue? Me prenda, me prenda. Venha! Vou deixar a porta aberta. Quando os policiais chegaram, encontraram Rebeca ajoelhada ao lado do corpo do marido. Raul olhava para o teto com os olhos esbugalhados e um sorriso agora eterno, o peito mortalmente ferido por instrumento perfurocortante, como dizem os peritos. — Por quê, meu Deus?! Por quê? — se perguntava a assassina viúva. Era teatro. Rebeca sabia muito…

Share
Comments closed

Cinco horas para ser pai

Eu tento me lembrar de como eram as manhãs anteriores àquele dia 12 de agosto de 2008, mas não consigo. Porque elas eram todas uma mesma manhã. Eu acordava, tomava um banho demorado e um café apressado, ligava a televisão num telejornal qualquer e começava a traduzir. E traduzia até a noite, parando aqui e ali para ter “deliciosas” dúvidas metafísicas. E os dias se sucediam assim, até que alguma dessas dúvidas me passava uma rasteira e eu caía prostrado na cama. Naquela terça-feira não foi muito diferente. Acordei cansado de uma noite mal dormida, apesar do ansiolítico poderoso que…

Share
Comments closed
Let's talk