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C. Q. D.

O fracasso é libertador. Ah, se é. E, levando em conta que a literatura brasileira contemporânea (e nem tão contemporânea assim) é um inegável fracasso de público e crítica, mais aquele do que essa, fico pasmo que nós (escritores, leitores e os raros que são as duas coisas), fracassados dessa Grande Nação Ágrafa, não tenhamos nos jogado no infinito bungee jumping que é a liberdade*.

Porque, amigo, me permita a sinceridade: ninguém lê. Prova disso é você mesmo, que chegou até aqui, torceu o nariz ao prever, sabe-se lá por quê, que meu texto ficaria nesse ramerrame ressentido de escritor nacional fracassado e evidentemente desistiu, perdendo, assim, a oportunidade única e exclusivíssima de alcançar a mesma e brilhante conclusão que alcancei agora há pouco e que aqui exponho num arroubo de generosidade e num espasmo de ironia.

Retomando: disse que ninguém lê e que nós, os envolvidos nesse ectoplasma pegajoso que é a literatura brasileira, somos vítimas (ou beneficiários) de um fracasso libertador. E depois eu fiz uma provocação para você voltar ao texto e se você está lendo isso significa que voltou. Agora tenho certeza de que você está temendo um novo “retomando” no parágrafo seguinte. Mas não. Prometo que vou continuar o raciocínio. Desde que você continue lendo.

Pois. Para provar que o fracasso é libertador, ouso aqui escrever qualquer bobagem e até mesmo qualquer coisa realmente – pretensamente! – genial, certo de que ninguém me lerá para além do primeiro parágrafo. (Se você me lesse, se alguém me lesse, se alguém lesse alguém, saberia que há pouco tempo fiz este mesmo experimento cometendo propositadamente um erro de ortografia, mas ninguém foi além do segundo parágrafo também naquela ocasião. E não adianta ficar procurando erro de ortografia neste texto também. Sem xance).

Mas sério. Por que não aproveitamos o teatro nu para um grande bacanal criativo no palco? Por que ainda estamos tentando seduzir os não-leitores com nossas histórias cheias de começos, meios e fins e temas sócio-educativos e referências eruditas e pops e cults e trocadilhos elaboradíssimos e etc.? Por que não damos vazão de uma vez por todas à criatividade on crack? E – meu Deus! – por que não conseguimos nos libertar deste compromisso com o fracasso?

Me surpreende que a literatura brasileira contemporânea (até agora não sei se é um clã, um sindicato, uma religião ou uma sociedade secreta) não tenha produzido, depois de tantos anos de fracasso, isto é, de liberdade, uma única obra realmente livre. Livre do compromisso com o clã, da lealdade ao sindicato, da fidelidade à religião e da camaradagem da sociedade secreta. Livre de qualquer necessidade de reconhecimento, porque só se reconhece o que existe e só existe o que se reconhece. (Eu avisei que ia escrever uma coisa real e pretensamente genial. Mas, como você não está lendo mesmo…).

Onde estão os personagens realmente desprovidos de superego? Onde estão as tramas envolvendo copropedonecrofilia? Onde estão aqueles parágrafos que passam raspando em todas as apologias previstas no Código Penal? Onde está a autoimolação do verdadeiro artista?

Se você tivesse chegado até aqui, talvez fosse capaz de ouvir e até seguir meu conselho (que é um autoconselho, diga-se de passagem): aproveita, amigo. Ou, como dizem os viados (ah, a liberdade de escrever sem ser chamado de homofóbico!): se joga! Ninguém está vendo mesmo. Ninguém. Não, nem sua mãe (apesar de ela jurar que leu e você jurar que acredita na evidente mentira da velha). Então o que o (me) impede de dar uma de Zé Celso? **

Termino este texto que já se prepara para o grande mergulho nele, no Oblívio, com uma dúvida e uma certeza. A dúvida é se alguém realmente chegou até o fim do texto e está esperando assim uma última frase arrebatadora. A este Leitor Improvável, peço desculpas. A certeza é a de que não***.

 


  • Alguns se jogaram e se enforcaram, mas essa é outra história (que ninguém vai ler).

** Na remotíssima hipótese de você ter chegado até aqui e na hipótese quase certa de que a referência lhe escapa no momento, Zé Celso é um diretor de teatro famoso por, digamos, abrir as nádegas e escancarar o cu para a plateia. (Ou era, na hipótese ainda mais remota de você estar lendo isso depois da morte dele).

*** “Se você tinha certeza de que não seria lido, por que se deu ao trabalho de escrever?”

Porque não tenho escolha.

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