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Author: Paulo Polzonoff Jr.

Redação Nota 1000 no Enem 2017

Eis um exemplo de redação nota 1000 no Enem 2017 que viola todos os direitos humanos possíveis.   Surdez é uma abominação   Antes de mais nada, convém dizer que surdo nem é gente. Hitler, em toda a sua sapiência vilipendiada ao longo da história, sabia muito bem disso. O programa de extermínio de deficientes, entre eles os surdos, foi uma das coisas mais belas do saudoso Reich. Educar surdos, portanto, é uma inutilidade. Apesar de ser muito engraçado. Morro de rir ao ver aquelas pessoas fazendo sinais e fingindo que estão se comunicando com os surdos. Rio ainda mais ao ver grupos de surdos nas esquinas, tentando falar entre si. Parecem retardados – mas retardados, ainda que deploráveis, têm a vantagem de não serem…

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Liberdades

  Não há regra, decreto ou ordem que impeça a generosidade. E, no entanto, sem que haja impedimento qualquer, todos os dias homens acordam incapazes de olhar para os lados, sem se perguntar como podem ajudar ou ser úteis para o desgraçado que implora por ajuda. Agem assim porque são livres, mas não se dão conta. E, ao mesmo tempo, porque são escravos de si mesmos, de suas inseguranças e vaidade. A Graça divina sobre eles não se abateu. Eles irradiam sombras. Não há regra, decreto ou ordem que impeça a compaixão. E, no entanto, sem que haja promessa de prisão ou tortura, todos os dias homens passam ao largo de seus semelhantes, incapazes de um compadecimento genuíno. Talvez até julguem os pobres-diabos que lhe…

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Canários

  Largue a metafísica, Paulo! Vai lavar a louça, bater uma laje. Experimente a dor do cartorário, que não é dor, é só ritmo, é o carimbo tocando o samba cotidiano da vida. Se lhe sobra sofrimento pelo que não sabe e pelo que insiste em sonhar no quarto escuro e pela esperança que escorre entre os dejetos do que um dia antes foi um banquete feliz, vai ver o sofrimento da cancerosa e nela admira o débil sorriso de quem ainda espera, de quem olha para o céu azul e não pensa que é alma enclausura em corpo frágil, de quem tem fé em coisas simples e óbvias, de quem acredita em rosadas frases feitas, de que vai dormir sem atinar para a metástase…

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“Aspismo”

A inteligência brasileira sofre do que Carlos Drummond de Andrade chamou de “aspismo” e Otto Lara Resende chamou de “nomismo”. Há tempos constato, como disse Clarice Lispector, “isso”. Os intelectuais, profissionais e diletantes, não conseguem organizar qualquer tipo de raciocínio sem recorrer à “validação patética das aspas”, como já dizia José Saramago. Talvez seja consequência do que José Paulo Paes, em seu elogiado e desconhecido ensaio “Aqui Não, Mermão”, definiu como “cultura do fichamento”. Sabe como é: neguinho perdeu o prazer da leitura pela leitura e, página após página, incapaz de formular uma ideia original, “vai colecionando frases e mais frases que, entre aspas, cabem em qualquer texto banal sobre assunto igualmente banal e dá a eles, texto e autor, respectivamente substância, ainda que falsa,…

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Um humilde estudo da arrogância

Existem palavras simples que a gente usa sem atentar para o significado exato dela. “Arrogância”, por exemplo. Hoje me chamaram de arrogante (não pela primeira vez) e lá fui eu, num exercício humilde de autocrítica, pesquisar o significado de “arrogância” para entender o que sou. O que li me surpreendeu. Me informa um dicionário qualquer aí (Google) que arrogância é a “qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez”. São muitos os problemas dessa definição. Para começar, há a questão da suposta superioridade. Suposta aos olhos de quem? Do Outro, claro. Que, por motivos óbvios (alguém arrogante diria que “por suposta inferioridade moral, social, intelectual, etc”),…

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