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“Aspismo”

A inteligência brasileira sofre do que Carlos Drummond de Andrade chamou de “aspismo” e Otto Lara Resende chamou de “nomismo”. Há tempos constato, como disse Clarice Lispector, “isso”. Os intelectuais, profissionais e diletantes, não conseguem organizar qualquer tipo de raciocínio sem recorrer à “validação patética das aspas”, como já dizia José Saramago.

Talvez seja consequência do que José Paulo Paes, em seu elogiado e desconhecido ensaio “Aqui Não, Mermão”, definiu como “cultura do fichamento”. Sabe como é: neguinho perdeu o prazer da leitura pela leitura e, página após página, incapaz de formular uma ideia original, “vai colecionando frases e mais frases que, entre aspas, cabem em qualquer texto banal sobre assunto igualmente banal e dá a eles, texto e autor, respectivamente substância, ainda que falsa, e erudição, também falsa” (Caio Fernando Abreu, in “Estudos Sobre Teu Delicioso Falo”).

Longe de demonstrar, como sugeria Camões, “embasamento teórico ou qualquer porra do gênero”, o aspismo/nomismo é sintoma de uma inequívoca insegurança. E também de uma boa dose do que Machado de Assis qualificou como “babaquice”. Não se trata daquela coisa que Isaac Newton falou lá – e falou mesmo! – de ver mais longe por estar sobre o ombro de gigantes; em geral, é tão-somente uma tentativa patética de demonstrar erudição, de mostrar aos outros que se leu “coisa pra caralho”, como disse Nietzsche.

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Publicado comoUncategorized