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Ainda assim, ainda assim

Outro dia fui a um enterro no Cemitério Municipal. Quero dizer, parecia um enterro. Bem verdade que tinha um caixãoe um corpo cercado por flores e rendas, coroas de vários tamanhos e em número nunca suficiente, e os devidos enlutados sentados em cadeiras precárias. Quando caiu a noite, apareceu um tal de Crisóstomo, que um amigo meu disse ser o agente funerário. Ele chegou, fez uma cara feia, sacou do bolso um isqueiro Zippo e, sem hesitar, acendeu os quatro sírios que cercavam o defunto.

Imediatamente me virei para a pessoa ao meu lado. Era uma mulher linda e eu bem que estava precisando de uma desculpa qualquer para puxar conversa com ela. E, se você está se perguntando que tipo de pessoa tenta arranjar uma transa no meio de um velório, sinto lhe informar: este alguém sou eu.

– Você está pensando o mesmo que eu? – perguntei.

– Depende. Estou pensando várias coisas no momento – foi a resposta dela. Sem malícia. Ela estava mesmo pensando em muitas coisas ao mesmo tempo.

Ficamos ali de bate-papo por uma boa hora, até que, cansada, ela (saudades de você, Michele) disse que ia sair para tomar um ar e nunca voltou. Paciência. Até porque eu estava certo e aquilo que parecia ser um enterro não era nada disso. Era uma experiência do tal Crisóstomo, o homem que tinha acendido os sírios e que, no exato momento em que registro as notas deste texto no meu caderninho, está ali no canto, um semissorriso no rosto, observando todos com a apreensão típica dos cientistas.

Sei que deveria ter ficado calado. Mas quem me conhece também sabe que, nestas horas, sou tomado por um impulso incontrolável de saber a verdade. Talvez por ter sido jornalista um dia. Talvez por ser apenas um chato. Fato é que fui até o sr. Crisóstomo. Que, para minha surpresa, parecia estar esperando por minha abordagem.

– Eu sei o que você está pensando e você tem razão.

– Sabe?! Tenho?!

– Sim. Isso daqui não é um velório de verdade; é uma experiência.

– Ah, o círio com “s”, não é? Eu bem tinha percebido.

– Esta é só uma das experiências. Não espalhe, mas quero ver quantas pessoas aparecerão por aqui me corrigindo, dizendo que círio é com “c”, não com “s”. Quero ver quantas pessoas lerão só o primeiro parágrafo e dirão que sou um analfabeto. Ou coisa assim – explicou ele.

– Interessante. Mas o senhor já parou para pensar que há outros dois resultados possíveis para esta sua experiência? – perguntei.

– Quais?

– Eu, por exemplo, jamais cogitei que pudesse haver um erro de ortografia de sua parte. Dá para ver que o senhor é muito inteligente. Na verdade, vim aqui lhe dizer que estou muito incomodado com a presença destes quatro sírios em chamas ao redor do caixão. O senhor não tem pena dos homens, não? E ainda por cima imigrantes!

– Mas e se eles fossem terroristas confessos? – tentou Crisóstomo.

– Ainda assim. Ainda assim.

Rimos os dois. Crisóstomo pediu licença e saiu para pegar um cafezinho. No caminho, deu a volta no caixão e, com gestos hábeis, apagou os círios que, no final das contas, nunca foram sírios. Aproximou-se, me deu uma xícara de café e finalmente perguntou:

– E qual seria a terceira possibilidade para isso tudo, meu astuto enlutado anônimo?

– A terceira possibilidade, meu caro, é também a mais assustadora: a de que as pessoas notarão o erro e se calarão, por timidez, educação ou… Como é mesmo aquela palavra em alemão que tá na moda?

– Schadenfreude.

– Isso mesmo. Perceberão o erro no primeiro parágrafo, desistirão de ler o restante do texto e passarão a vida toda achando que você não passa de um analfabeto. E rirão disso por dentro. E, sempre que virem seu nome por aí, se lembrarão dos sírios que não eram sírios, e sim círios.

Crisóstomo ficou ali mais um tempo. Eu, que nem conhecia o morto, ainda tentei abordar mais duas moças tristíssimas antes de pedir um Uber. Estava na porta do velório acompanhando o trajeto do carro pelo celular quando Crisóstomo pôs a mão no meu ombro – algo que não se deve fazer quando se tem tantos fantasmas por perto. Assustado, me virei para encontrar o novo amigo com uma risadinha perversa nos lábios.

– Você se esqueceu de uma quarta e quinta possibilidades, meu caro. Essas, sim, muitíssimo assustadoras!

– Quais? – perguntei. E, sinceramente, eu já estava de saco cheio daquela história.

– A possibilidade de não perceberem erro algum e de acharem que este é tão-somente um texto muito, muito retardado.

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Publicado comoCrônica