A vidraça não-existente

by Paulo Polzonoff Jr. on August 17, 2016

 

Recebi a incumbência de escrever sobre O Homem Que Matou Luiz Inácio, romance de estreia do crítico e chato-mor curitibano Paulo Polzonoff Junior. A princípio, quis discutir com meu editor e argumentar que o livro simplesmente não existe. Mas não consegui convencê-lo. Tive, pois, de pôr o rabo entre as pernas e voltar me arrastando para casa. Fazer o quê? Trabalho é trabalho, como dizia o poeta.

Além da minha má-vontade confessa em relação ao autor, a falta de uma chancela editorial para o livro também me fez pegar o minguado e mal-acabado volume com todos os receios do mundo. Ora, num país onde se publica qualquer porcaria, por que Paulo Polzonoff Junior não conseguiu uma editora para seu romance, tendo de publicá-lo no sistema on demand e o disponibilizando também em edição eletrônica?

A única explicação possível para isso é também a mais óbvia: o romance, na verdade uma novela, é ruim. Tão ruim, aliás, que nem o título oportunista é capaz de despertar o interesse dos editores e, por consequência, dos leitores.

Mas eis que lá pela metade do livrinho já estou intrigado. Crítico chato, ranheta e formalista, capaz de implicar com coisas mínimas como escolhas de advérbios e estruturas sintáticas nas obras alheias, Polzonoff até que não se sai mal em sua tentativa de escrever ficção.

O livro começa com um humor autodepreciativo surpreendente, com um narrador nos apresentando o personagem ao mesmo tempo em que interage com o leitor e vai explicando a composição da história. Não é, claro, recurso novo. Machado de Assis (quanta pretensão!) já fazia isso, ele próprio inspirado em Sterne. De qualquer modo, interessante notar que Polzonoff procurou se afastar dos vícios da literatura nacional por ele mesmo apontados em O Cabotino.

O estilo é aquele de sempre: frases curtas, preferência por afirmações categóricas, economia extrema de recursos, mas aqui e ali abusando de um adjetivo ou advérbio para enfeitar a paisagem. Em alguns momentos, Polzonoff tenta conferir certo humor à narrativa – o que novamente é surpreendente, levando em conta a famosa chatice do autor. Dá para rir, sim, das desgraças de Ernesto Unslovt, o protagonista do livro destinado a matar Luiz Inácio.

Aliás, fica evidente o oportunismo de Polzonoff ao abordar em seu livro o assassinato de uma figura pública – ou, na melhor das hipóteses, do homônimo fictício de uma figura pública. Se com isso ele esperava chamar a atenção dos leitores, fracassou. A verdade, porém, é que Luiz Inácio é figura secundária no livro. Está mais para um alvo inanimado do que para uma figura com a qual se possa se identificar.

Duas coisas me incomodaram no livro. Primeiro, a epifania de Ernesto Unslovt ao decidir matar Luiz Inácio. Ainda que Polzonoff tente fazer humor ali, reduzindo toda a decisão a um monte de sinapses que ocorrem ao acaso, a solução parece farsesca e apressada demais. E a opção do autor por deixar o fim do romance em aberto (eu tomaria cuidado com spoilers aqui, mas, em se tratando de um livro não-existente, acho que falar em spoilers não faz muito sentido) também incomoda, deixando no leitor a impressão de preguiça, ainda que Polzonoff seguramente dirá que foi intencional, que a ideia era estimular a imaginação do leitor.

Sobre isso e mais, tentei contato com Polzonoff, que se recusou a falar. Ao que parece, ele se acha importante demais para dar quaisquer esclarecimentos a quem demonstra interesse por seu trabalho.

Dito isso, até que O Homem Que Matou Luiz Inácio não é mesmo um mau livro. Não é uma obra-prima, claro, mas tampouco é livro que se joga na parede depois da vigésima página. Há alguns dias o jornalista Hélio Puglielli, um dos poucos a reconhecer a existência do livro, disse que, com o romancete, o crítico chato se tornava vidraça. Resta saber se haverá alguém disposto a quebrá-la ou se restará ao aspirante a contador de histórias o tradicional e cruel desprezo curitibano.