A valsa perfeita de Antônio Callado


Antônio Callado estava um pouco esbaforido ao final da valsa. Mas as pessoas aplaudiam e aplaudiam mais e não paravam de aplaudir, o que o fez se esquecer do cansaço. Ele sentiu uma pontada nos fundos dos olhos e pensou que era ridículo a um homem chorar naquela ocasião,diante de tanta gente importante, diante, meu Deus, de Paulo Francis, mas a dor era maior do que qualquer argumento contrário e, sem que ele desse permissão, uma maldita e deselegante e, sinceramente, cafona lágrima escorreu por seu rosto branco demais.

Alheio aos aplausos e ao comentário aqui e ali do apresentador, ele olhou para o lado e novamente se espantou com o sorriso de Simone de Beauvoir. Era o ângulo ou o tom nicotineado dos dentes ou o hálito. Ou talvez o sorriso refletisse o decote, o abismo entre os dois seios muito rosados, por onde escorria uma maldita e deselegante e, sinceramente, cafona gota de suor. Antônio Callado se perguntou rapidamente por que estava ali, mas não teve tempo de responder. Faustão lhe apontava um microfone ameaçador e o auditório havia caído naquele silêncio cheio da tensão que sempre se sucede à Pergunta.

– Não sei – respondeu Antônio Callado, falando a verdade, sempre a verdade, que sentido há em mentir?

– Ô, loco, meu! – disse Faustão, sem insistir e saindo para seu canto no Universo. A plateia riu e Antônio Callado ficou mais tranquilo. De alguma forma, o que ele disse não só fez sentido como pareceu agradar a todos. Era uma sensação agradável, pensou Antônio Callado, ou melhor, começou a pensar, porque logo ouviu a voz de Paulo Francis e algo dentro dele lhe gritou que era melhor prestar atenção.

– Sabe, Toninho. Posso te chamar de Toninho? –  perguntou Paulo Francis.

Antônio Callado ia responder que não, claro que não, de jeito nenhum!, ele era Antônio e era Callado, mas não era homem de ficar quieto diante do mau-gosto vulgar de um apelido tão depreciativo, algo indigno de seu estilo nobre e até aristocrático, como apontou sabiamente Wilson Martins.

– Pô, Paulinho. Claro que não, fio. Antônio Callado não é homem de apelidos, e sim de títulos nobiliárquicos, uai – disse Guimarães Rosa, evitando que Antônio Callado soltasse o xingamento preso em sua garganta: “teu cu!”.

– O, loco, meu! – disse Faustão,e todos riram, menos Simone de Beauvoir, que não entendeu a piada.

– Então, tá. Me desculpe, Antônio Carlos Callado. O que eu queria dizer é que o que vi foi maravilhoso. Coisadigna de Fred Astaire, de Nijinski, algo assim. Waaall. Minha nota…

E só então Antônio Callado se deu conta de que todos os demais jurados, inclusive Lou Reed, já tinham dado nota para a apresentação dele. E mais: todos deram nota máxima. Salvador Dalí chegou até a dizer que aquela valsa o transportara para a Idade Média, arrancando risos do Isaiah Berlin ali do lado.

A nota de Paulo Francis, portanto, determinaria a vitória ou derrota da dupla. Simone de Beauvoir parecia ter deixado de respirar. Ela ouvia cada palavra de Paulo Francis como se fosse uma tese fenomenológica do saudoso Sartre. Antônio Callado achou melhor voltara prestar atenção ao que dizia o Francis.

– …e acho que vocês, principalmente você, Antônio Callado, emocionaram essa plateia linda com uma demonstração de força e superação. Que se dane Isadora Duncan. Nota… _ As reticências pairaram no ar. Logo Antônio Callado percebeu que era um gesto teatral, operístico no pior sentido da palavra, um artifício fácil combinado entre Faustão e Paulo Francis: suspense.

– Qual sua nota, Paulinho?! Atenção! Dezenove horas e quarenta e dois minutos. Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, sócio antigo aqui, o marido da Sônia, vai dar a notaque pode decidir a dupla campeã. Qual a sua nota, Paulinho?!

– Eu sinto muito decepcioná-los, mas…

Antônio Callado se percebeu tenso. E, no espaço entre uma e outra reticência, encontrou a palavra exata para terminar aquela frase daquele trecho daquele capítulo daquele livro. Tomara que ele não esqueça.

– Vamos, Paulinho! A direção tá me azucrinando aqui no ouvido!

– Nove vírgula…

“Putaquepariu!”, pensou Antônio Callado. E putaquepariu era mesmo uma palavra melhor do que aquela na qual eletinha pensado antes.

– Que nove, o quê?! Para você, tudo, Toninho. Dez!

Em meio à chuva de papel picado, Antônio Callado se virou para Simone de Beauvoir e a abraçou, compreendendo finalmente também o ser, mas sobretudo e irremediavelmente o nada.