A Síndrome de Pilotis

A Síndrome de Pilotis, descoberta pelo pesquisador japonês Arturo Pilotis, é uma doença rara, não contagiosa (há controvérsias neste sentido), que acomete homens e mulheres a partir dos sete anos de idade. Se é grave? Sim. A taxa de letalidade é altíssima (99% dos portadores morrem antes do primeiro centenário). Mas pior do que morrer é morrer sozinho. Logo, pior do que a morte é a doença em si, como veremos.

Os portadores desse terrível mal são geralmente pessoas inteligentes ou que se veem assim. E, como não há marcador biológico para a doença, quem sofre da Síndrome de Pilotis pode ser bonito ou feio, gordo ou magro, ser calvo ou cabeludo e ter ou não orelhas de abano. Tampouco sofrem de alguma condição psiquiátrica pré-existente, embora esses pobres-diabos acabem desenvolvendo outras doenças por causa da Síndrome de Pilotis.

Em outras palavras, os sindromees, como são chamados, têm uma vida praticamente normal na superfície. Essa impressão de normalidade é justamente o que torna a descoberta do dr. Pilotis tão extraordinária. E tudo aconteceu porque um dia o psiquiatra, pesquisador e campeão mundial de Uno estava no colégio do filho, admirando a balbúrdia (Pilotis chegou a ser acusado de perversão, de tanto que os berros dos e das adolescentes o excitavam, mas isso é outra história), quando notou andando de lá para cá um menino que vamos chamar apenas de L., para não revelar o nome de Leandro.

L. aparentemente não estava sozinho, mas estava. Ele andava de um lado para o outro do pátio da escola, conversando com os coleguinhas em diálogos que duravam entre 30 segundos e um minuto. Depois seguia para outro colega e outro e outro. Até não restarem mais colegas no pátio ou até o cabisbaixo L. chegar à dolorida conclusão de que nem valia a pena tentar, sabe?

A partir de suas perversões, digo, observações, Dr. Pilotis concluiu, para espanto da comunidade internacional, que as conversas pareciam tão, tão, tão (tão!) normais que até rendiam frutos emocionais claros: sorrisos, olhares de espanto, aquele ar de gravidade muito típico de L. e até umas gargalhadas entremeadas por meneios de cabeça que nas pessoas sadias normalmente são vistas como sinais de aceitação.

Nos doentes, contudo (e este é o sintoma primário da Síndrome de Pilotis), e por uma razão que a ciência não conseguiu descobrir, essa aceitação jamais se realiza. E é justamente por isso que L. andava de um lado para o outro do pátio do colégio, falando com todo mundo e recebendo aqui e ali uns afagos na alma, sem jamais, nunca, em hipótese alguma criar laços de amizade mais profundos, incapaz de ir além de uma troca de figurinhas aqui, um comentário sobre a bunda da moça ali, um porre no Alemão acolá e meia-dúzia de mensagens trocadas por Whatsapp no… no que quer que venha depois do acolá.

Em resumo, L. era completamente incapaz de ser plenamente aceito, de pertencer (v. belonguismo), de fazer parte de algo mais duradouro, algo que as pessoas evocam à mesa do café, entre risadas e choros de nostalgia, como “amigos de infância”, embora o termo evidentemente seja impreciso. Como o dr. Arturo Pilotis chegou a todas essas conclusões observando uma única criança (se bem que, aos doze anos, L. odiaria ser chamado de criança na brilhante tese do pesquisador) é um mistério que, obviamente, ninguém jamais desvendará por pura preguiça.

Em 1990, os soviéticos anunciaram ao mundo terem descoberto a cura para a Síndrome de Pilotis, mas no ano seguinte tudo se revelou uma farsa tão grande quanto o próprio império. Dez anos mais tarde, um grupo de médicos portadores da doença se juntou para estudá-la e propor uma cura, mas as conversas não foram além do protocolar minuto e meio de “como tá frio hoje” ou “e o Corinthians, hein?”. Por fim, cada qual foi para o cantinho, embora no fundo sentissem exatamente a mesma coisa, ainda que em hemisférios opostos: a amizade, a amizade de verdade, aquela coisa de se sentir parte de um grupo que não o julga, que compreende e tira sarro das suas idiossincrasias, que releva seus defeitos e exalta desproporcionalmente suas qualidades, ah, meu caro, essa amizade eles jamais teriam o prazer de vivenciar.