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A maratona dos quilômetros insondáveis

Cheguei até aqui. Nem sei como. Nos últimos quilômetros estava completamente quebrado. As pernas não respondiam mais, me faltava o ar. Quando avistei a subida lá no quilômetro trinta e três, me desesperei. Quase desisti. Mas aqui estou. Cheguei.

No começo, confesso, não estava muito a fim. Nem sei como fui parar na linha de largada. Uma sensação de desafio, talvez? Ou era simplesmente meu “dever”? Sei lá. Só sei que soou o tiro de largada e eu não contive o choro. Dizem. Não lembro.

Os primeiros quilômetros foram uma espécie de transe. Não me lembro de muita coisa. Era só seguir em frente. Um passo depois do outro, os primeiros. Não tinha segredo. Nunca tem. As coisas ficam mais difíceis quando a gente começa a perceber o que está fazendo. Comigo isso aconteceu cedo. Cedo demais. Mas segui em frente, até porque nem sabia que dava para desistir.

Lá pelo quilômetro doze, tropecei pela primeira vez. Ralei os joelhos – do corpo e da alma. Se me levantei é porque havia algo de determinação em mim. Ou de teimosia. Ou pior ainda: de certeza. Sim, foi essa certeza que me levou pelos quilômetros seguintes.

Tropecei mais. No dezoito, no vinte e um, no vinte e cinco. E a certeza começou a se dissipar. Senti dores na planta dos pés – ouvi alguém dizer que tenho o pé chato. Mas não só. Olhava adiante e não via linha de chegada alguma. Linha alguma. Só mais pessoas correndo. E um barulho insuportável. Havia quem torcesse, mas também quem xingasse.

No quilômetro trinta, lembro bem que uma mãozinha negra me estendeu uma água. Era do que eu precisava. Joguei água na cabeça, no peito, nos pés doloridos. Me encharquei todo da água e da mão muito pequena. E, mesmo perdendo posições, segui.

No quilômetro trinta e três, porém, perdi as forças. Não sei se tropecei ou se me tropeçaram. Ralei muito mais do que o joelho. Olhei para os lados e, certo de que ninguém dava por mim, cogitei desistir. Algo me diz que até desisti por uns segundos. Mas segui. Sem saber por quê. Sem ter outro objetivo que não continuar. Segui como que por inércia.

No quilômetro trinta e nova, ganhei outra garrafinha d´água. É nela que me banho agora, no quilômetro quarenta. Água boa. Me encharco e a deixo evaporar lentamente. É como se meus poros todos se abrissem num aspirar profundo. Sigo em frente. Mais um passo. E outro.

Rumo ao fim desta maratona dos quilômetros insondáveis.

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