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A Era das Ideias Imperdoáveis

Aos meus leitores do futuro desmemoriado (isto é, a partir da semana que vem), convém contextualizar: em maio de 2018 o Brasil enfrentou uma greve de caminhoneiros que teve graves consequências para o país, tanto econômicas quanto políticas. Houve gente apoiando o caos e a baderna e, pior, muita gente pedindo a queda do governo e uma intervenção militar.

Além da ignorância histórica (histórica em si e em relação à história) e econômica, essa greve acabou expondo outra crise, esta de ordem espiritual. E não, não estou falando aqui de religiosidade, de ser católico ou macumbeiro; estou falando de transcendência e da busca por uma imortalidade que não é física. Essa greve parece ter deixado claro que vivemos hoje na crudelíssima “Era das Ideias Imperdoáveis”, também conhecida como “Era dos Idiotas & Canalhas Absolutos”. Explico.

Não é o meu caso, mas vi muita gente falando bobagem sobre, sob e acerca da greve dos caminhoneiros. E muita gente falando coisas que considero sensatas. Imediatamente, como era de se esperar, instalou-se a cizânia entre os dois grupos. Cada qual usando seus números, suas conjugações, suas citações, suas piadas e seus emojis para expor o que veem como O Ponto-de-Vista-Mais-Correto-do-Universo.

Ao fim e ao cabo, parece ter prevalecido a ideia de que a greve era prejudicial ao país e de que intervenção militar é coisa de gente que curte uma bela lambida num coturno. Muitos dos que disseram bobagem no começo, talvez fascinados pelo caos e todas as possibilidades que ele desperta, reconheceram o erro e pediram perdão (explicitamente ou não). E ainda assim continuaram alvo de impropérios ou, pior, de vereditos irrecorríveis: idiota!, canalha!

Não sei se é o peso da palavra escrita ou a ilusão de permanência da imagem em movimento na tela da TV ou do computador, mas parece que hoje em dia todo mundo é idiota, não foi/esteve idiota. Antes a idiotice era doença aguda, dor de dente que se curava com AAS e meia-dúzia de livros; hoje é doença crônica e incurável, uma forma repugnante e purulenta de diabetes.

E aqui advogo também – e por que não? – em causa própria. Para alguém que escreve há tanto tempo e sobre tantas coisas, por gosto ou como ganha-pão, reconheço que já falei muita bobagem. Ou seja, já fui muito idiota. A idiotia passageira, transitória é o preço que a gente paga por tentar chegar a uma conclusão sobre a própria vida. Além de ser característica muito própria de certa idade. Mas em hipótese alguma poderia aceitar que estes espasmos de estupidez me definissem, por mais constantes que fossem e sejam.

Com a ideia de que o outro é sempre canalha as coisas são mais complicadas. Porque canalhice pressupõe maldade e, não raro, sadismo. Pressupõe que o outro se regozije com a própria idiotice e a use para moldar e distorcer a realidade. Que por sua vez é usada para infligir algum tipo de sofrimento a outrem. Mas como o canalha pode ser canalha absoluto e incorrigível se, no cenário por mim proposto, ele percebeu o erro, se arrependeu e até pediu desculpas?

Veja bem, não estou tapando o sol com a peneira. Idiotas e canalhas existem, sim, e aos montes. Os primeiros são frutos da preguiça, do hedonismo e da solidão. Repare: o idiota que manifesta sua idiotice, por escrito ou na mesa do bar, só está sendo idiota porque em algum momento, ao se deparar com a realidade, ele não a entendeu e teve preguiça de levantar a mão na sala de aula (simbolicamente falando, claro). Além disso, o idiota quer o prazer fácil e rápido do aplauso real ou virtual. E, por fim, o idiota é, na circunstância de sua idiotia, sempre um solitário em busca de aceitação, de pertencimento.

Já os canalhas – e me refiro à imensa maioria de canalhas relativos, não aos raros e assustadores canalhas absolutos – só estão canalhas porque, coitados, precisam estar com a razão. Ao menos isso. A vida do canalha relativo é uma sequência de fracassos e ele precisa desesperadamente estar certo em alguma coisa, a fim de que sua vida tenha algum sentido.

A Era das Ideias Imperdoáveis, pois, dá origem a um cenário de permanente tensão intelectual no qual opiniões são sempre expostas para vencer, e não para que a pessoa (esteja ela temporariamente idiota ou canalha) se posicione. Toda discussão, portanto, vira uma batalha violentíssima, porque o que está em jogo é a reputação para sempre, sem nenhuma oportunidade de perdão ou ao menos compreensão. Redenção, então, nem pensar!

Você vai me chamar de ingênuo (e, provavelmente, de idiota e canalha), mas talvez esteja na hora de tentar entender o raciocínio, o processo que leva as pessoas a manifestarem certas opiniões apressadas e admirar a capacidade destas mesmas pessoas de, às vezes, absorverem argumentos contrários e até mudarem de ideia. Talvez esteja na hora de perceber que, quando alguém é idiota num assunto, existe sempre a possibilidade de você ser idiota em outro. E que aquele que você condenou para sempre ao Reino da Canalhice talvez seja apenas alguém que está passando por um momento complicado na vida.

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