A descoberta da burrice

by Paulo Polzonoff Jr. on April 6, 2017

 

 

Até meus vinte e dois anos, mais ou menos, não conhecia a burrice. Digo, sempre houve burros na sala de aula. Aquelas pessoas que conseguiam a proeza de tirar zero em prova de história. Mas, para mim, essas pessoas eram seres exóticos, quase pertencentes a uma espécie diferente. Eram pessoas da qual eu sentia pena, até porque elas sentiam pena de si mesmas quando a professora entregava os boletins.

A burrice que descobri tardiamente é a burrice entre meus semelhantes. Entre as pessoas com as quais eu gostava de conversar, tomar café, beber cerveja. Pessoas que aqui e ali tinham também suas glórias e de cuja felicidade tive a honra de participar. Burros e burras do peito, diria eu na época (mas nunca disse).

Não sei quem foi o primeiro burro ou burra que tive o desprazer de conhecer. E jamais teria a indelicadeza de dizer o nome dele, se soubesse. Mas acho (acho!) que foi um escritor. Ou um poeta. Ou qualquer pessoa assim que eu tinha em alta conta por causa da obra, mas que ao vivo era… burro.

Ah, agora estou lembrando! Sei muito bem de quem estou falando. Claro, ele mesmo.

A sensação de descobrir a burrice alheia (mais tarde falarei da própria, não se preocupe) é atordoante (como este clichê que acabei de usar). Passei dias, meses, anos confuso. Ainda estou. Como é que alguém pode escrever um livro ou compor uma música e ainda assim ser inequivocamente burro? Como é que alguém expressa assim a burrice sem nenhuma vergonha, nenhum senso de ridículo?

Burro que também sou (não nego), nunca obtive respostas para essas e tantas outras perguntas. Ao longo dos anos, tentei formular hipóteses: falta de formação adequada, necessidade de autoafirmação, desejo de ser amado, ausência do pai e de uma boa vara de marmelo. Até hoje, nenhuma das explicações possíveis me satisfez. Ou serei eu um burro incapaz de entender a burrice?

Nos últimos tempos, e provavelmente por causa das redes sociais, descobri que os burros não só existem como são muitos. E se casam e têm filhos. E têm empregos mais rentáveis do que o meu. E viajam e frequentam museus. E obtêm diploma de mestrado e doutorado. E, claro, opinam sobre tudo. Sempre alheios à própria burrice.

Alguns, noto com certa compaixão, esforçam-se para esconder a burrice como se fossem os leprosos intelectuais que de fato são. Sim, dá para ver o diploma na parede. Este cavanhaque ficou ótimo. Aquela citação de um escritor nepalês obscuro vale até uma tatuagem. Quer dizer que você assiste à novela sempre com olhar crítico?

Mas, por mais que se esmerem na maquiagem, a burrice está ali, em toda a sua majestosa soberba, contaminando todos que por ela passam com o inconfundível cheiro da mediocridade com muito empenho alcançada. Tá sentindo?

A burrice (alheia e própria) ainda me surpreende. Porque eu vejo esta opção pela ignorância como algo consciente. Como um sintoma de uma preguiça que vai muito além do pecado capital. O que é, aos olhos da minha porção mais narcisista, imperdoável. Como burrólogo amador, sou um desastre e não consigo compreender os mais básicos fundamentos desta filosofia de vida. Afinal, como pode alguém passar pela curta existência sem usar ao máximo suas faculdades mentais?

Sobre minha própria burrice, bom, eu a descobri cedo. E morri de vergonha. E passei todos os anos de formação tentando curá-la. Na maturidade, insisti no tratamento, mas meus detratores dirão que não tive sucesso. Eu mesmo digo que não tive sucesso. E todos os dias é a mesma luta para me curar dessa deformidade. Até morrer, pretendo passar nas feridas da ignorância o unguento da curiosidade. Com alguma sorte, morrerei curado disso.