Desarranjo de ossos

Também eu de minha mansarda, com as paredes precisando de pintura e os vidros quebrados pelo vento, vejo na rua as almas todas sem metafísica, sem imaginar que caminha em seu passo lento, lento demais, lento como se avançasse para o próprio túmulo, ali na calçada de pedras cortadas por mãos escravas, mas livres, necessariamente livres na minha idealização e dor, o homem que tampouco será e que ao céu pergunta.

E você, Senhor, que as nuvens misteriosamente sustenta e que nos deu as cores e este calor insuportável, e você, será que cuida da vida daquela que vem na contramão e daquele que atrás dela buzina e pragueja? Tem misericórdia dele e do outro, o do nariz grande que tantos fez chorar – e que no silêncio da alma convicta grita para si mesmo suas virtudes? Vai, Senhor, zelar pelo homem na bicicleta? Ao lixeiro também dá importância? E àquela ali, que jamais cortejou as mansardas mofadas e as teias de aranha de suas memórias, traumas, dúvidas e decepções?

Digo que sinto nos ossos a gravidade – riem de mim, sou louco. Mas não sou: a gravidade é leve; graças a ela me mantenho unido em mim, coeso, uma areia movediça finita dos meus átomos, das células que, sinto, reproduzem-se como suicidas na alta sacada – por que de mim não cuida, Senhor?

Por acaso minha oração é menos sincera? Ou meu sofrimento é menos sofrimento só porque os dentes exibo-os todos? Ou minha fé está maculada pelos pecados indignos do perdão?

A mulher que espera o ônibus está enlutada. Dá pra sentir a terra tremer aos soluços dela. Morreu-lhe o marido, o pai ou o filho? Ou talvez tenha sido de si mesma que descobriu a morte.

Quem vai chorar a partida daquele homem de bermuda azul que de um lado para outro anda, vagando sabe-se onde no salar de seus piores pensamentos e primitivos impulsos? Não o coveiro, que tem lá seus choros próprios, suas almas pelas quais nutrir o mais infantil afeto.

Quem?!

Aqui de minha mansarda fiz promessas, esperei milagres como criança admirando as acrobacias do acaso. Nada. Ou algo que não consegui identificar – e me pune, assim, a distração.

Se Deus tirar de mim o que não tenho, restarei o que de fato sou: um desarranjo de ossos.

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Redação Nota 1000 no Enem 2017

Eis um exemplo de redação nota 1000 no Enem 2017 que viola todos os direitos humanos possíveis.

 

Surdez é uma abominação

 

Antes de mais nada, convém dizer que surdo nem é gente. Hitler, em toda a sua sapiência vilipendiada ao longo da história, sabia muito bem disso. O programa de extermínio de deficientes, entre eles os surdos, foi uma das coisas mais belas do saudoso Reich.

Educar surdos, portanto, é uma inutilidade. Apesar de ser muito engraçado. Morro de rir ao ver aquelas pessoas fazendo sinais e fingindo que estão se comunicando com os surdos. Rio ainda mais ao ver grupos de surdos nas esquinas, tentando falar entre si. Parecem retardados – mas retardados, ainda que deploráveis, têm a vantagem de não serem surdos.

Acredito que o Brasil gastaria muito melhor o dinheiro desperdiçado com a educação dos surdos se construísse presídios de segurança máxima para os negros pobres bandidos. Melhor ainda se construísse câmaras de gás, mas daí teríamos de aguentar as reclamações dos transexuais defensores da ecologia. Prefiro ser surdo a ouvir manifestações de índios por causa de meia-dúzia de fornos crematórios.

Ocorre-me agora – porque sempre é possível ver o lado bom das coisas – que surdos dariam bons carcereiros e guardiões das senzalas modernas nas fazendas do Mato Grosso. Afinal, surdos não se incomodam com os sons dos torturados mais teimosos.

Note ainda que me refiro aos surdos apenas no masculino. Isto é, aos homens punidos por Deus com a incapacidade de ouvir. Afinal, as surdas ao menos podem aprender a varrer a casa, lavar a roupa e trazer a cervejinha enquanto os membros realmente produtivos da sociedade – os homens, claro – descansam.

No mais, para que instruir os surdos se eles não vão poder nem ouvir a banda da festa de formatura tocando funk ou sertanejo universitário?

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