Liberdades

 

Não há regra, decreto ou ordem que impeça a generosidade. E, no entanto, sem que haja impedimento qualquer, todos os dias homens acordam incapazes de olhar para os lados, sem se perguntar como podem ajudar ou ser úteis para o desgraçado que implora por ajuda. Agem assim porque são livres, mas não se dão conta. E, ao mesmo tempo, porque são escravos de si mesmos, de suas inseguranças e vaidade. A Graça divina sobre eles não se abateu. Eles irradiam sombras.

Não há regra, decreto ou ordem que impeça a compaixão. E, no entanto, sem que haja promessa de prisão ou tortura, todos os dias homens passam ao largo de seus semelhantes, incapazes de um compadecimento genuíno. Talvez até julguem os pobres-diabos que lhe imploram um pouco de atenção: vagabundos, perdedores, azarados. E agem assim porque são livres, mas não se dão conta. Ao mesmo tempo, veja só!, são escravos de si mesmos, da certeza de que são melhores, de que passaram a vida, de alguma forma, fazendo o “certo”. Sobre eles não se abateu a Graça divina. Eles irradiam sombras.

Não há regra, decreto ou ordem que impeça a compreensão. E, no entanto, sem que haja ameaça, sem coerção ou arma apontada para a cabeça, todos os dias homens acordam resolutos em não perceber que, ao seu lado, há homens diferentes, com histórias diferentes, trilhando caminhos diferentes, rumo a um resultado diferentes, mas não menos nobres. Agem assim porque são livres, mas não se dão conta. Ao mesmo tempo, repare: são escravos de si mesmos, da certeza equivocada de que não há espaço para uma visão diversa – e até mesmo para uma ignorância diferente. Sobre eles não se abateu a Graça divina. Eles irradiam sombras.

Não! Não há regra, decreto ou ordem que impeça a resignação. E, no entanto, sem que haja qualquer outra motivação que não o desespero disfarçado, todos os dias homens esbravejam, indignados, e escrevem textos e gritam e dão socos e, se calhar, até saem por aí matando, numa versão extrema do que entendem por justiça. Agem assim porque são livres (por enquanto), mas não se dão conta. Ao mesmo tempo, são escravos de si mesmos, da necessidade de tornar este um mundo que se adeque a uma visão muito particular de justiça. Sobre eles não se abateu a Graça divina. Eles irradiam sombras.

Não há regra, decreto ou ordem que impeça o silêncio. E, no entanto, sem que eu ganhe qualquer coisa por isso, cá estou escrevendo, me expondo, talvez chorando (nunca se sabe), na esperança de que me leiam e, indo um pouco mais além, de que reservem um segundo, não mais do que isso, para pensar nas bobagens que digo assim com esse ar de quem não está ligando – mas está, ah, se está! Ajo assim porque sou livre, mas não me dou conta. Ao mesmo tempo, sou escravo de mim, de uma ideia completamente ridícula que ainda faço de um Deus que não despejou sobre mim ela, a Graça. Se não irradio sombras, é porque sou força estéril, um homem banhado nas trevas da própria melancolia.

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Canários

 

Largue a metafísica, Paulo! Vai lavar a louça, bater uma laje. Experimente a dor do cartorário, que não é dor, é só ritmo, é o carimbo tocando o samba cotidiano da vida.

Se lhe sobra sofrimento pelo que não sabe e pelo que insiste em sonhar no quarto escuro e pela esperança que escorre entre os dejetos do que um dia antes foi um banquete feliz, vai ver o sofrimento da cancerosa e nela admira o débil sorriso de quem ainda espera, de quem olha para o céu azul e não pensa que é alma enclausura em corpo frágil, de quem tem fé em coisas simples e óbvias, de quem acredita em rosadas frases feitas, de que vai dormir sem atinar para a metástase ou de quem vê na metástase estranha prova de Deus.

Vai, homem, deixa de lado as palavras, sente na boca o sal do próprio suor ao menos hoje, e não espera da vida nada além da putrefação certa, certíssima, inevitável. E faz do ar imóvel e úmido a alimentar seus pensamentos algo mais do que delírios de imortalidade.

Não há, bem sabemos, forma delicada de extirpar-lhe a metafísica. Por isso crava no peito o bisturi achado na sarjeta, aguenta estoicamente a dor que não é dor da carne, admira o vermelho da vida que lhe escorre – e só admira porque sabe que o sangue há de ser estancado e que o amor sufoca estes seus desejos mentirosos de morte.

Ninguém, Paulo, vai admirar sua angústia. Até porque nela não há o que admirar: a angústia é o aleijão da alma, a desfiguração do espírito carcomido pela dúvida infecciosa. Enlutados, eles dirão que é pena e que é triste e talvez alguém até escreva seu obituário – sobre o qual defecarão canários em algazarra.

Engole o choro, deixa de frescura, homem! Que o mundo não se importa com sua desimportância e os vizinhos continuarão a ignorar seu nome. “Lembra daquele chato que dizia isso e aquilo?” – perguntarão, e a resposta será uma negativa que ecoará pelo tempo. Você foi nada, é nada, será nada. Pode espernear! Ainda assim o nada o envolverá como um cobertor negro: é o Universo pondo um fim no que um dia foi um bom pesadelo.

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“Aspismo”

A inteligência brasileira sofre do que Carlos Drummond de Andrade chamou de “aspismo” e Otto Lara Resende chamou de “nomismo”. Há tempos constato, como disse Clarice Lispector, “isso”. Os intelectuais, profissionais e diletantes, não conseguem organizar qualquer tipo de raciocínio sem recorrer à “validação patética das aspas”, como já dizia José Saramago.

Talvez seja consequência do que José Paulo Paes, em seu elogiado e desconhecido ensaio “Aqui Não, Mermão”, definiu como “cultura do fichamento”. Sabe como é: neguinho perdeu o prazer da leitura pela leitura e, página após página, incapaz de formular uma ideia original, “vai colecionando frases e mais frases que, entre aspas, cabem em qualquer texto banal sobre assunto igualmente banal e dá a eles, texto e autor, respectivamente substância, ainda que falsa, e erudição, também falsa” (Caio Fernando Abreu, in “Estudos Sobre Teu Delicioso Falo”).

Longe de demonstrar, como sugeria Camões, “embasamento teórico ou qualquer porra do gênero”, o aspismo/nomismo é sintoma de uma inequívoca insegurança. E também de uma boa dose do que Machado de Assis qualificou como “babaquice”. Não se trata daquela coisa que Isaac Newton falou lá – e falou mesmo! – de ver mais longe por estar sobre o ombro de gigantes; em geral, é tão-somente uma tentativa patética de demonstrar erudição, de mostrar aos outros que se leu “coisa pra caralho”, como disse Nietzsche.

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