Tipo agora, digamos assim

A ironia é um verdadeiro milagre. É o mais próximo que chegamos da telepatia. E, como todo milagre, há os abençoados e os desgraçados, tanto emissores quanto receptores – ou, no caso, não-receptores.

Para que uma ironia seja produzida numa ponta e decodificada na outra, é necessário um encadeamento específico de elementos. Primeiro, é preciso que tanto emissor quanto receptor esteja numa mesma “frequência de inteligência”. A ironia raramente se realiza entre inteligências muito díspares. Tipo agora, digamos assim.

E, aqui, já se nota o dedo de Deus: repare que os envolvidos da tal “dinâmica irônica” não precisam nem estar no mesmo limite do segmento espaço-tempo para que a ironia se realize. Um intelecto que virou pó há duzentos anos ainda é capaz de gerar toneladas de ironia.

Voltando ao encadeamento milagroso. Digamos que lá no sertão de Piraporinha do Oeste um Fulano resolve ser irônico. Talvez ele nem perceba que vai ser irônico, que vai realizar O Grande Milagre da Linguagem. Porque muitas vezes a ironia é pura intuição. Quem disse mesmo que a ironia é o diabo sussurrando mentiras em nosso ouvido? Ah, acho que fui eu mesmo.

Pois o Fulano tem uma ideia, um conceito que queira deixar registrado para a posteridade, por mais restrito que seja este infinito aí. Em vez de escrever o que realmente pensa, porém, ele escreve o contrário do que queria dizer. Mas sem recorrer a itálicos ou quaisquer elementos gráficos do tipo. A ironia não tem marcador e isso só a torna ainda mais incrível.

Do outro lado do papel ou da tela, o leitor se depara com o que o fulano escreveu. E, numa fração de segundo, decodifica o alfabeto, a sintaxe, a porra toda. Para só então, telepática e inexplicavelmente, deduzir que Fulano quis dizer não o que o cérebro formalmente entende e nem exatamente o contrário – até porque, reconheço aqui, só ironias mais grosseiras funcionam assim tão explicitamente.

O leitor, então, quase que desafiando as próprias sinapses, negando o que seus olhos veem, parece ceder a um Espírito Maior, a uma Força Incognoscível, para concluir que o escritor está dizendo algo completamente diferente do que sugere o enfileiramento de letras que ele tem diante de si, algo que sintetiza mundos, que compreende referências comuns, claras e obscuras, que comunga valores implícitos.

(…)

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No banho com Thoreau

 

Li Thoreau pela primeira vez quando se deve lê-lo: na adolescência. Como cheguei a ele, não lembro. Na aridez daqueles anos de fome intelectual, eu lia tudo o que me aparecia na frente. Hoje gosto de pensar no milagre que é um menino, vivendo numa província subtropical, se deparar com as sinapses registradas em papel de um homem que viveu há dois séculos.

O impacto daquela primeira leitura foi brutal. Em meus delírios juvenis, sonhava em viver da terra, na paz da solidão sábia, numa cabana ao lado de um laguinho (um tanque de peixes) ali em Almirante Tamandaré. A fantasia durou uns dois anos. Mas, reconheço, aquela foi uma leitura imatura, superficial e impulsiva. Thoreau não era (não é) um defensor do eremitismo puro e simples.

Ao longo dos vinte anos seguintes, li e reli Thoreau várias vezes, em diversos momentos da vida. Não foram poucas as ocasiões em que me vi angustiado ao me deparar com aquela promessa de sossego e ascensão intelectual e espiritual. Porque quase sempre Thoreau entrava em conflito (não, a ironia disso não me escapa) com algo que aprendi a aceitar como minha essência intempestiva (não é). Perdi as contas das vezes em que construí para mim uma cabaninha imaginária onde vivia de pães duros e água.

Se me lembro de Thoreau hoje não é apenas por causa de uma efeméride. Ainda há pouco estava no banho quando me vi transportado para as páginas de Walden. Fui tomado, então, pela sensação deliciosa da água quente sobre minha calva – e pensei o óbvio: que a verdadeira liberdade está na ausência de conflito externo. Porque, para o homem inteligente, já bastam os conflitos da própria alma, não?

O que me levou a perguntar para minha nudez sonolenta e precocemente senil: o que leva o homem do século XXI a praticar o conflito cotidiano, em vez de buscar a elevação pelo silêncio, pelo retiro ou mesmo pela discrição extrema? E por que criamos um ambiente assim tão fértil para os conflitos cotidianos mais variados e rasos, desde preferências gastronômicas até a escolha do melhor pior filme do Tarantino?

E o mais importante: por que é tão difícil escapar dessa areia movediça?

Já vi muita gente dizer que Thoreau era, na verdade, um ególatra covarde que, para não ter de se deparar com a diversidade humana, retirou-se para uma cabaninha, a fim de conviver com a única pessoa que era capaz de amar: ele mesmo. Parece-me uma leitura agressiva, nascida em meio à prevalência do conflito. No mais, por que admiramos tanto a coragem dos combatentes manchados pelo sangue do inimigo se, no final das contas, as ideias, por mais nobres que sejam, sempre perecem?

Vinte anos depois daquela primeira leitura empolgada, sigo aqui com o Thoreau debaixo do braço (agora devidamente confinado a um Kindle). Já não sonho com a cabaninha em Almirante Tamandaré. Sonho, porém, em calar dentro de mim este guerreirinho tolo que não raro surpreendo travando as mais inúteis batalhas diante da tela do computador.

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