Melena Contra o Mundo

Para Adlai Lustosa

 

No campo de quadribol da Academia Brasileira de Letras, Reri Potternilson dos Santos sobe ao púlpito para fazer seu discurso de posse. Ele assumia cheio de orgulho a cadeira número 291, anteriormente ocupada pelo dramaturgo e rapper XPTO – que, num gesto de rebeldia, deu um tiro na cabeça para provar que não era imortal coisa nenhuma. Reri, além de campeão mundial de quadribol, era um poeta celebrado pelo uso inovador de emojis, sobretudo a conturbada berinjela.

A plateia, formada essencialmente por octo e nonagenários, aplaude com toda a força que lhes é possível. Orgulham-se, aqueles senhores, de terem liderado a revolução tecnológica e cultural que possibilitou a chegada de um Reri (e, antes dele, do revolucionário XPTO) ao inegável posto de Maior Escritor do Brasil e Adjacências. Sobretudo das Adjacências.

Lá no fundo, porém, um homem não aplaude. Romulindo de Araújo & Costa & Silva & Alcântara & Etc. é inimigo mortal de Reri Potternilson. Mortal mesmo. Se ele chegasse a menos de dois metros do novo acadêmico, sentia falta de ar, o coração disparava e a glote fechava. O problema é que Romulindo está escrevendo um romance (também chamado de “textãozão”) sobre um homem que tem alergia a outro homem e que busca se matar simplesmente se aproximando da fonte alergênica. Romance autobiográfico (autoficção) mesmo.

Reri Potternilson agradesse a prezença di todoz e dá início a um discurso que mistura longos e constrangedores silêncios (artísticos), palavrões, gírias de um passado glorioso, quando as pessoas todas ouviam sertanejo universitário pós-graduado, e um pouco de baba. Certo, muita baba. Já no final do palavrório, ele faz o que todos esperam: tira uma varinha mágica do bolso do fardão, aponta-a na direção de uma coruja branca e recita as palavras mágicas. Aquelas que não se deve pronunciar nunca. De jeito nenhum.

Faz-se um silêncio evidentemente sepulcral entre os convivas. Dá para sentir a tensão no ar. Até Romulindo prende a respiração (ou talvez a glote dele tenha se fechado – jamais saberemos). O tempo parece parar.

Depois de uns quinze minutos sem que nada aconteça, a plateia irrompe num aplauso estrondoso. Reri Potternilson sorri diante da materialização de sua obra de arte. Ele queria apenas que houvesse um emoji para descrever aquela sensação que é de vitória. Bom, outro emoji que não aquele da bandeirinha quadriculada. Ou o da mãozinha fazendo “V”.

A alegria de Reri Potternilson, porém, acaba quando, do meio da plateia intelectual, surge ela, Melena di Melena & Melena. Alta, metade branca e metade negra, 51% do cabelo crespo e 49% liso e, reza a lenda, detentora de um astronômico QI (70), Melena di Melena & Melena (procurem no Google) ganhou notoriedade nos últimos tempos (dias) por seus poemas neo-ultraconcretos-ortodoxos feitos com o mais refinado pelo axilar. Verdadeiras obras-primas, como observou o renomado crítico Genyal Fecalis.

Num movimento mais lânguido do que lascivo (e vice-versa), Melena enfia a mão nodosa dentro do sutiã e de lá tira um pedaço de papel e um aparelhinho que parece um detonador. Mas que bem podia ser apenas um pez dispenser – nunca se sabe! Com a voz rouca que lhe é característica (e que arrepiou os pelinhos da nuca de Reri Potternilson, vale acrescentar), Melena lê as palavras que a imortalizariam (mas que críticos ranhetas como Genyal Fecalis diriam ter sido tiradas de um biscoito da sorte, veja só!): “Oito, dezessete, vinte e três, vinte e sete, trinta e nove, cinquenta”. E aperta o botão.

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Gazeta, mon amour (também uma confissão)

 

A Gazeta do Povo vai encerrar suas atividades. Tá, eles vão manter a edição eletrônica, mas, para mim, o fim do jornal impresso, soltando tinta, é a morte do jornal. O que nunca confessei a ninguém, mas confesso agora, é que a Gazeta do Povo foi o grande amor não-realizado da minha vida profissional. Por consequência, o fim do periódico meio que consolida a morte de uma parte importante de mim.

A Gazeta do Povo sempre esteve presente na minha vida. Lembro-me de me levantar bem cedo no domingo, o gramado coberto pela geada, e subir uma baita ladeira no Bairro Alto a fim de comprar o jornal numa mercearia do bairro. E voltar para casa com aquele volumão, todo orgulhoso de ser um filho perfeito, ainda que, para compra-lo, eu tenha pegado dinheiro sem permissão da carteira do meu pai. Ele nunca reclamou.

Além de me dar as tirinhas do Garfield, as fotos-legendas de lugares peculiares de um mundo pré-Internet e as brincadeiras da Gazetinha (sem falar em um ou outro encarte das Lojas Americanas, Pernambucanas ou Mesbla com as mulheres trajando deliciosas, digo, lindas lingeries), a Gazeta do Povo foi a responsável por parte da minha formação intelectual, com as colunas de Paulo Francis, aquela seção de fotos antigas do Cid Destefani e matérias e críticas do Caderno G.

Quando passei no vestibular, corri para a sede do jornal para pegar o exemplar com meu nomezinho orgulhosamente estampado. Foi como um primeiro beijo. Até que, logo depois, acontecesse a ruptura que, hoje sei, foi uma falsa ruptura: entrei para a faculdade de jornalismo e nela descobri que não era de bom tom ler a Gazeta. Muito menos declarar qualquer amor pela Gazeta. Meus professores diziam que tudo ali era manipulado e aprendi a ver os jornalistas como seres maquiavélicos, destinados a, numa galé de máquinas-de-escrever, criar um mundo dividido entre oprimidos e opressores. Essa bobajada toda que a gente “aprende” na faculdade.

(Mas que, com sorte, esquece logo depois).

Tive uma carreira profissional bastante interessante. Rápida. Meteórica, como se diz. Trabalhei nos vários lugares onde meu currículo diz que trabalhei. Mas nunca trabalhei na Gazeta do Povo. E esta é uma ferida que o fechamento do jornal escancara. Para minha própria surpresa, aliás. Fecho os olhos e me lembro das boas casas que me acolheram, mas nesta imagem falta sempre meu lugar ali na sede da praça Carlos Gomes. No final das contas, percebi recentemente que não fiz faculdade para ser jornalista; fiz faculdade para trabalhar na Gazeta.

Se me permito, pois, flertar com a nostalgia e me demorar num inútil momento de autocomiseração, é porque ela, a Gazeta da minha infância, adolescência e parte da vida adulta, acabou sem jamais me dar a mão. Sinto-me como aqueles personagens de romances de aventura que vivem milhares de coisas em todos os lugares possíveis para descobrirem que a felicidade simples estava ali perto, em casa mesmo. Só que, neste caso, a minha casa um tornado digital derrubou.

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