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A singularidade me incomoda desde que sou criança, mas tem incomodado mais hoje, quando acordei de sonhos muitos tranquilos para entrar no banho e me lembrar dela, da singularidade, traduzida na forma nada singular de um ponto de giz no quadro negro.

Quando eu era criança, meus pais, por algum motivo, adoravam me assustar quanto ao que me aguardava na oh tão temida escola. Química orgânica? Nossa! Logaritmo? Vish! Os afluentes do rio Amazonas? Mãe do Céu! E assim por diante. Numa dessas, meu pai (ou teria sido a minha mãe? E o que isso importa para a história, não é mesmo, dr. Freud?) disse que o mais difícil na escola era, sem duvida nenhuma, a redação. E contou que, certa vez, uma professora “muito má” pôs um pontinho de giz no quadro-negro e mandou que a turma escrevesse uma redação a respeito. Trinta fucking linhas que lhe pareceram um só tomo do Guerra e Paz.

Mas passei pelos anos escolares sem o prazer de vivenciar esse momento que teria sido um marco na minha vida também: escrever trinta linhas, no mínimo, sobre um único ponto de giz no quadro-negro. Tampouco me causaram estranhamento maior a química orgânica ou os afluentes do rio Amazonas. (O mesmo não posso dizer dos logaritmos).

Ao longo dos anos, como alguém que ganha a vida distribuindo as letras sobre o papel de forma que façam algum sentido para o leitor, foram várias as minhas tentativas de escrever sobre esse maldito ponto já agora mitológico. Ângulos nunca me faltaram (o que talvez seja irônico, já que nunca entendi logaritmos e partindo do pressuposto de que logaritmos têm algo a ver com ângulos). Já pensei em escrever sobre as propriedades minerais do giz e as relações físico-químicas envolvidas no processo da feitura do ponto. Já pensei em escrever sobre o ponto como um lugar bem definido no continuum espaço-tempo. Já pensei em escrever sobre o ponto e o menino olhando o ponto e pensando no que é o ponto senão um ponto um ponto um ponto. Já pensei em escrever sobre o quadro-negro e deixar o ponto de fora. Enfim.

E a verdade, descubro hoje, é que o ponto, aquele ponto que se você parar para pensar nunca existiu de fato, aquele ponto amedrontador, desafiador e revelador, aquele ponto que um dia deve ter aterrorizado meu pai num pesadelo ainda de calças curtas (o pesadelo e meu pai) no interior do Paraná, aquele ponto de certa forma sádico, feito grosseira e violentamente por uma professora muito branca, quiçá com uma verrugona na ponta do nariz, aquele ponto que é este nunca me abandonou. Mais do que isso, aquele ponto sempre me perseguiu e teve a audácia de, hoje, justo hoje!, me acompanhar até o banheiro, testemunhar o deprimente espetáculo do meu corpo nu, aventurar-se na água quentinha e sussurrar no meu ouvido*.

Saí do banho cabisbaixo e pensativo, me enxuguei pensando nos buracos negros e na teoria dos multiversos, me vesti revisitando filósofos de nomes consonantais, tomei café nesta e em infinitas realidades semi-iguais e, a caminho do trabalho, eu já era uma espécie de macaco evoluído (sem pelos, branco-quase-albino, uns olhinhos tristes, mas irresistíveis, sorriso charmoso, etc.) usando de todas as ferramentas mentais disponíveis na minha floresta de neurônios para abrir a divina noz que atende pelo nome nada poético de… “singularidade”.

Foi assim que o ponto virou lembrança para virar reflexão para virar piada para virar melancolia para virar desejo de ser amado para virar pulsos eletromagnéticos para virar texto escrito para virar texto lido para virar sorriso ou bocejo. E a singularidade, depois de mais de trinta anos entalada aqui na garganta, deixou de ser ideia para se tornar muito real – ou tão real quanto possível, sei lá.


*Ficou curioso, né?

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