#7 – Da fé

Queria ter fé. Acreditar no Deus raivoso do Velho Testamento. Ou em Jesus. Em Céu e inferno. Em karma. Em reencarnação. No Paraíso de 72 virgens. Sinceramente, queria acreditar em qualquer coisa que me consolasse neste momento em que penso que não tenho qualquer serventia, em que me vejo como um desgraçado no pior sentido da palavra, isto é, aquele desprovido da Graça.

# 6 – Do Ressentimento

Sou um poço de ressentimento. Não deveria, eu sei. Já fiz muita terapia por causa disso. Já li livros. Já meditei. Já me penitenciei. Não adianta. Na verdade, a terapia, os livros, a meditação e a penitência aparentemente só pioraram as coisas. Sou um poço de ressentimento.

#5 – Da generosidade e da gratidão

Generosidade e gratidão são duas das qualidades que mais admiro nos seres humanos, justamente por serem as que percebo com mais raridade nas pessoas que me cercam. Deve ser alguma crise coletiva, sei lá. Ou melhor: deve ser efeito da crise econômica. Faz algum sentido. Diante da instabilidade, as pessoas se apegam ao que têm e não compartilham oportunidades.

Ou estou apenas tentando encontrar uma justificativa externa para algo que me deixa, sim, ressentido.

#4 – Da liberdade

Liberdade é princípio, não dogma. Liberdade, pois, não pode ser imposta. Há que se aceitar a grande contradição humana que é desejar abdicar da liberdade. Por ser a liberdade um princípio, eu a penso em termos amplos e universais que, bem sei, são utópicos. Um homem livre é aquele que faz suas escolhas e arca com as conseqüências dela – algo que está bem longe de ser realidade nesta época em que se faz apologia ao compartilhamento das conseqüências pelas más escolhas individuais.

#3 – Da arrogância

“Eu sou assim e você não vai me mudar”, diz alguém. Mas em que ponto exato aceitar os próprios defeitos deixa de ser um ato de generosidade consigo mesmo e se transforma em arrogância? O homem sábio é aquele que conhece a medida certa da autocondescendência. Aquele que se olha no espelho e não vê a perfeição concretizada, e sim a perfeição em potencial – ainda que utópica.