Andrajos curitibanos

por Paulo Polzonoff Jr. em 20 March 2017

 

Eu aqui neste primeiro dia de outono, me lembrando do amigo e das coisas que conversava com o amigo. E sofrendo porque, passados tantos meses, ainda não me entra na cabeça que o amigo tenha morrido. Não pela morte em si, que eu sei que chega para todos, até para mim um dia – e minto ao dizer que espero que logo. Mas por tudo o que o amigo era e almejava e sonhava e dividia comigo.

Me lembro dos telefonemas às vezes ansiosos do amigo, a alegria na voz que contava o projeto mais recente de livro ou a entrevista com a personalidade mais deslumbrante ou ainda a pesquisa que resultou numa descoberta sempre ela mágica. A tudo isso eu ouvia com um sorriso infantil e esperançoso que desapareceu porque o amigo morreu. Porque eu simplesmente não vejo mais sentido algum em escrever e entrevistar e pesquisar.

No íntimo, sempre me perguntei por que o amigo se dava ao trabalho de me ligar para contar o que contava, para discutir o que discutia, para rir do que ria. Eu, um mendigo intelectual usando estes andrajos curitibanos… Sem me intimidar, porém, respirava fundo para absorver do amigo a fé. E os sonhos dele eu temperava com minha vontade à força contida de também descobrir, também escrever, também compartilhar essa coisa maravilhosa que é o conhecimento – por mais inútil que ele seja.

Mas, caralho, o amigo morreu e me deixou sozinho aqui com meus planos e devaneios, esse amontoado de vontade ao qual ninguém dá ouvidos. Ao qual só ele, o amigo, dava ouvidos. Ao qual nem eu dou ouvidos.

Eu não aguento mais a solidão, amigo. E o silêncio. E os homens muito sérios que me falam platitudes. Eu não suporto mais, amigo, a falta que me faz sua crença.

Foi cremado, o amigo, e me pergunto se tudo o que ele era virou cinza. A imensa cruz na igreja aqui perto me diz que não. Mas a tela em branco do computador berra que sim, fazendo coro com a estupidez e a mesquinharia daqueles que um dia tive como irmãos. Daria tudo, hoje, para ouvir aquela risada e a conclusão fatídica de quase toda a nossa correspondência: bola pra frente.

Agora é noite e eu aqui, com a bola nos pés, sem saber se a chuto para longe ou se corro com ela até a linha de fundo. Amigo, se de algum modo você me lê, me dá a mão, me diz por onde andar e me perdoa pela pequenez da minha angústia. Porque no fundo, amigo, continuo querendo desesperadamente agradar você.

Polzo Show by Adlai

por Paulo Polzonoff Jr. em 22 February 2017

Agora os maravilhosos desenhos do generoso Adlai têm casa própria.

http://www.polzonoff.com.br/polzo-show-by-adlai/

Você não vai com a minha cara

por Paulo Polzonoff Jr. em 6 December 2016

 

Você não vai com a minha cara. Eu sei, você sabe. Nós sabemos. O que é uma pena. Para mim e para você. Imagino quantas coisas poderíamos fazer juntos, quantas conversas agradáveis, quantas risadas, quantas coisas aprendidas e ensinadas. Mas você não vai com a minha cara – e aparentemente não há nada o que eu possa fazer a respeito.

Como sei? Não é preciso distintivo de detetive particular para perceber os sinais. Faço piada e você não ri. Comento algo e você discretamente revira os olhos. Ou então emposta a voz ameaçadoramente, como seu eu fosse seu inimigo. Não sou.

Por que me importo? Não sei direito. É bem verdade que em outros tempos não me importaria. Muita gente não foi, não vai e nunca irá com a minha cara. Muita gente que nunca falou comigo, mas que “ouviu dizer” que sou assim e assado, mais assado do que assim. E eu sempre dei de ombros. Porque é normal e, se não for, acho que em algum momento da vida me acostumei com a ideia de as pessoas não irem com a minha cara.

Mas, em relação a você, me importo, já disse. Talvez porque tenha me esforçado ao máximo, nos últimos tempos, para ser uma pessoa agradável. Para não cometer a gafe de falar alguma bobagem ultrajante. E sobretudo para não ceder à tentação do chiste.

E também porque é simplesmente injusto.

Mas a vida é assim mesmo. A gente se desfaz em mesuras diante de alguém que nem conhece, por pura gentileza, e para nada. A pessoa não vai com a sua cara e cria toda uma imagem monstruosa de você como alguém que lhe causa repulsa. Não há o que fazer.

Eu era assim também. Não ia com a cara dos outros. Por nada. Fulano falava comigo com um tom de voz desagradável e eu já não ia com a cara. Sicrano usava óculos, eu não ia com a cara. Beltrano usava sapatênis e eu não ia com a cara. Arranjar desculpas é fácil. Se bem que nem sempre é necessário. Não vou com a cara porque não vou com a cara. Acredito ter dito isso um bocado.

Hoje em dia, porém, penso em quantas pessoas boas passaram pela minha vida sem que eu prestasse atenção porque não ia com a cara delas. Porque revirava os olhos diante de comentários bobos. Porque não ria de piadas sem graça, mas esforçadas. Porque não era capaz de admirar a simpatia – nada mais do que uma expressão, ainda que mais pobre, da generosidade.

Você não vai com a minha cara. Só me resta esperar que você desarme essa fortaleza de tolices aí, que se deixe seduzir. Não só por mim, claro, mas por todo um Universo de pessoas que não conseguem causar uma boa impressão, por mais que tentem.

Mas, se isso não acontecer, espero ao menos que um dia você perceba que não vai com a minha cara simplesmente porque de alguma forma eu ressalto algum aspecto negativo seu. É sempre assim. E vovô Freud nunca se engana.

Um texto também ele nublado

por Paulo Polzonoff Jr. em 15 October 2016

 

Cabe a mim, neste espaço, resenhar ou criticar, como queiram, livros de autores paranaenses. À procura de um livro que se enquadrasse nesse critério simples, me deparei com Dias Nublados (Arte & Letra), de Luis Felipe Leprevost. Me encontrei por acaso com ele numa livraria e, conversa vai, conversa vem, recebi o livro autografado “ao meu irmãozinho”, com total liberdade para escrever a respeito.

Foi uma conversa agradável, como sempre é com Leprevost. Conheço-o desde que ele era um estagiário no Jornal do Estado. Sempre fomos amigos, apesar das nossas diferenças quanto à arte. Resenhei um livro dele para o Jornal do Brasil, dizendo que era um poeta com potencial. Hospedei-o em minha casa quando morava no Rio e até consegui para ele uma ponta num seriado da Globo. É alguém a quem estimo. E alguém a quem não quero mal nenhum – até porque não desejo mal para ninguém.

Foi com esse espírito que escrevi a crítica de Dias Nublados. Era uma crítica negativa – não porque o considere um escritor incapaz; era uma crítica negativa só porque não houve comunicação entre mim e o livro. Na crítica eu tentava, como sempre, usar um pouco de humor para falar das coisas que não me agradaram. E ressaltava, já no título, que era uma infelicidade o fato de não ter gostado do livro.

Leprevost nunca leu a crítica. Mandei-a para meu editor e, no mesmo dia, pedi ao escritor uma entrevista, avisando que seria algo leve, pedindo que ele abusasse do humor nas respostas. Estava diante do computador, pensando em perguntas absurdas que fugissem do lugar-comum, quando recebi uma enorme mensagem de Leprevost dizendo que não responderia a nenhuma pergunta minha e me pintando como um monstro repugnante por ser amigo dele e não ter gostado de nenhum de seus livros.

A mensagem me destruiu. Principalmente por ter vindo de um amigo, mas não só. Me destruiu porque serviu para confirmar meus maiores temores: (i) o de que os escritores ainda se levam a sério demais e (ii) o de que as pessoas acham que sou mau-caráter ou, para usar uma terminologia psicanalítica que me é cara, perverso ao escrever sobre livros de que não gostei. Como se eu causasse dor aos escritores por mim resenhados – e sentisse um prazer sádico com isso.

O primeiro destes temores é, como não poderia deixar de ser, uma imensa decepção. Realmente esperava que escritores ou poetas, sejam eles curitibanos, acreanos ou nigerianos, não se levassem tão a sério.  Sei que escrever um livro é algo mágico e muitas vezes sofrido, sei que alguns escritores se expõem demais e pagam caro por isso, sei que outros depositam naquele objeto toda a sua esperança de reconhecimento e autoafirmação. Mas no meu mundo nada é assim. No meu mundo, que é um mundo essencialmente infantil, sempre imagino o escritor lendo uma crítica, principalmente uma crítica negativa, como uma possibilidade de aprendizado ou, melhor ainda!, uma reafirmação das opções estéticas do autor. Porque minha palavra nunca teve pretensões absolutistas – nem nunca terá.

O segundo temor é mais complicado. Já perdi muitas noites de sono pensando nas escolhas erradas que fiz na vida – e não foram poucas. Eu poderia ter sido mais “político” – e hoje talvez não vivesse num melancólico ostracismo. Poderia ter optado pela crítica “científica”, sem adjetivos ou humor, aquela crítica que considero inútil e enfadonha. Poderia muitas coisas, mas resolvi ser fiel a mim mesmo e, pior, resolvi apostar na maturidade dos meus interlocutores. Mais uma das muitas escolhas erradas que fiz na vida.

Não. Eu não quero o mal de ninguém ao escrever uma crítica negativa. No meu mundo, que já reconheci ser infantil, o autor que se deparar com um texto meu vai, na melhor das hipóteses, rir aqui e ali de alguma imagem que construí, concordar com algo ou não concordar com nada, deixar a revista ou jornal de lado e seguir com a vida feliz. Confesso-me patologicamente incapaz de imaginar alguém se sentindo magoado com palavras que certamente não foram escritas para magoar.

Foi assim que pedi ao editor que não publicasse a crítica que escrevi a Dias Nublados. Sei que é tarde demais para reparar danos pretéritos, mas que ao menos se estanque aqui a hemorragia. Porque não, não sou cruel, mau-caráter ou sádico; sou, no máximo, um idiota (e chato) que tenta fazer o certo escrevendo textos é são apenas uma forma de diálogo entre almas leves. E sobretudo alguém que tem consciência da própria insignificância.

É (foi) um privilégio

por Paulo Polzonoff Jr. em 13 October 2016

 

Antes de morrer, o neurologista e escritor Oliver Sacks publicou um belo artigo no New York Times. Lembro-me de ler os últimos parágrafos em meio a lágrimas. Porque Sacks fugiu à autopiedade e desespero de um Ivan Ilytch e se rendeu à gratidão. A frase mais emblemática do texto é “foi um privilégio”. Algo que nos últimos dias não me sai da cabeça.

Às vezes me atolo em melancolia e nostalgia e me percebo espiritualmente febril, balbuciando delírios de outros tempos, com outras pessoas e circunstâncias, sempre maldizendo o presente e temendo o futuro. Ah, se eu vivesse no Século das Luzes! Ah, se eu tivesse na Europa do pós-guerra! Ah isso e ah aquilo. Quando, na verdade, sei que é (foi) um privilégio viver agora, em pleno início do século XXI, com você e você (e talvez você aí no fundo), nestas circunstâncias, nesta cidade e nesta merda de país – por mais contraditório que isso possa parecer.

Mas, para além desses privilégios, digamos, metafísicos, há privilégios muito palpáveis. Amigos que fiz, jantares memoráveis com risadas que ainda ecoam em meus ouvidos, baile do Waldorf Astoria e, claro, os diálogos que tenho com um gigante de um metro e trinta chamado Davi. A simples possibilidade de ouvir qualquer música ou assistir a qualquer filme ou ler qualquer livre ao toque de um botão – um milagre do nosso tempo ao qual poucos dão o devido valor.

Não, não fecho os olhos para as mazelas cotidianas: a estupidez que me cerca, a solidão, a conta bancária minguante, as perversidades familiares e o corpo que insiste em definhar. Mas até as mazelas são um privilégio à luz da morte próxima (e aqui vale notar que a “proximidade” é um conceito elástico, que vai de dias a muitas décadas). Afinal, para o guerreiro o campo de batalha é o cenário de sua realização, na vitória ou na derrota.

É um privilégio escrever e ser lido, ser admirado aqui, mal interpretado ali, solenemente ignorado acolá. Meu Deus, é um privilégio absurdo conseguir alinhavar substantivos, verbos e adjetivos de forma inteligível e talvez até bela, marcar com tinta minha passagem por este mundo – por mais que as traças um dia irão se alimentar tanto dos meus textos quanto do meu corpo. É um privilégio sobretudo ter consciência do privilégio.

Sacks estava morrendo de câncer. Eu não estou morrendo, pelo menos não que eu saiba. Mas quero deixar aqui registrado que é, foi e será para sempre um privilégio comungar com esta Humanidade que, como diz Shakespeare num de seus sonetos mais sombrios, triunfa na maldade.