Tá tudo bem, amigo

consolando

Amigo, vem cá. Tá tudo bem. Pode chorar à vontade. Eu entendo, eu entendo. E os outros vão entender também. Não, não. Você não é um perdedor. Não é um idiota. Você só acreditou num sonho que virou pesadelo, amigo. Acontece com todo mundo. Olhe em volta, amigo. Milhões de pessoas estão na mesma posição. Claro. Eles vão negar, mas também se deixaram iludir. Calma, amigo. Calma. Você não é o responsável por essa merda.

Mas, amigo, você precisa assumir, entende? Foi um erro. Já disse. Acontece. Você não é melhor nem pior por isso. Poxa, quem é que nunca acreditou numa lorota antes? Não, não. Você não é burro. Não estou dizendo isso. Quero dizer, estou. Mas somos amigos, não? Eu posso dizer. Que seja. Você acreditou uma bobagem. Por causa do seu bom coração. Eu sei que você acreditava que estava votando pelos pobres, para acabar com a miséria, para salvar a Amazônia, pelas ciclovias. Sei lá. Eu sei que você é uma boa pessoa. Mas já está na hora de aceitar. Era mentira. É mentira. Vai continuar sendo mentira.

Não, o que é isso?! Jamais diria o contrário! Sei que você é uma pessoa honrada. E muito culta. Sei que você frequentou os melhores colégios e fez a melhor faculdade de acordo com um ranking qualquer aí. Sei que você teve os melhores professores de história. Sei, sei. Sei que eles disseram para você ter espírito crítico, que ensinaram que a CIA e o Mossad comandam o mundo. Também me disseram para desconfiar das intenções dos outros sempre. Essa coisa toda. Eu entendo. Mas o tempo passou, amigo. Viramos adultos. Já temos pelos em lugares indesejáveis. Está na hora, amigo, de esquecer estas bobagens.

É duro crescer acreditando numa ilusão. Eu sei, eu sei. Olha, você acha que não sofro também? Vamos colocar desse modo: você sofre politicamente o que tenho sofrido no amor. Está bem assim? Sim, eu entrei em depressão. Mas isso não precisa acontecer com você. Amigo, você vai sobreviver. Eu sobrevivi. Todos sobrevivemos. Só não vá cometer a mesma besteira nas próximas eleições, por favor. Não quero vê-lo chorando assim de novo. Vai passar, vai passar. Eu garanto.

Ah, amigo, também não sei o que fazer agora. Realmente não sei. Se soubesse, não estaria aqui te consolando. Ir às manifestações pedindo o afastamento da presidente? Talvez. Quem sabe lá você encontra um grande amor? Não, não. De jeito nenhum. Só maluco defende golpe ou intervenção militar. Toma aqui este exemplar da Constituição. Quem sabe você encontra uma saída neste livrinho.

Calma, amigo. Ninguém está dizendo que antigamente o Brasil era um paraíso e que agora virou o pior lugar do planeta. Eu sei que antes tínhamos problemas. Sim, Bolsa-Família e tal. Crédito fácil. O pobre andando de avião. Mas… Por acaso você está tendo uma recaída?! Amigo, me dá aqui este seu broche vermelho. Me dá logo! Vou jogá-lo no mar. Só por garantia. Sou seu amigo. Quero seu melhor. Lembre-se disso. Sempre.

Querendo te converter?! Ei, pode parar! Desde quando eu quero converter alguém a alguma coisa? Amigo, eu não acredito nestes deuses políticos. Será tão difícil assim entender? Você está me ofendendo com isso. Cara, você é livre. E, apesar de tudo, vou estar ao seu lado. Não, se você aparecer numa lista de corruptos eu não vou estar ao seu lado. Tudo tem limite. Você não está, não é mesmo? Não me assuste assim.

Amigo, agora chega. Enxuga estas lágrimas, limpa esse ranho. Levante-se. Arrume-se. Vida que segue. Mas, por favor, vê se aprende com esse erro, hein? Não quero mais ter de passar a noite consolando marmanjo. Vem cá. Me dá um abraço. Isso. Melhor? Que bom. Até a próxima.

Elogio da Alienação

 

Um dos piores legados do petismo é a politização exagerada das pessoas. Não aguento mais – e sei que você também não. Hoje em dia, fala-se de política o tempo todo – e não só na Internet, como podem pensar alguns. Acabei de pegar um ônibus e lá estavam duas velhinhas discutindo o impeachment, as manifestações populares, a esquerda e a direita. Há vinte anos, provavelmente estariam trocando moldes de costura ou analisando o comportamento da mocinha da novela das oito.

É deprimente. E olha que sou do tempo em que os professores reclamavam da baixa politização da população. Meus professores diziam que o Brasil só melhoraria, sairia da crise (qualquer crise) e viraria um país do Primeiro Mundo quando as pessoas deixassem de se importar com futebol e novela e passassem a se importar mais com política. Mentira, claro. Mais uma entre tantas, aprendi mais tarde.

Nos últimos anos, o brasileiro aprendeu a acordar e dormir ouvindo notícias políticas. Até o futebol se tornou politizado. Torcedores do Fluminense são de direita e flamenguistas, de esquerda. Ou coisa assim. As novelas viraram temas de campanhas políticas: sem-terra, transexuais, favelados e, claro, os sempre malvados milionários do Leblon que votam no Bolsonaro e são a favor de prender crianças pobres. Nem ao Chaves é possível assistir sem ouvir alguém proferindo alguma tese sobre a exploração do menino que mora no barril.

Como disse, nem sempre foi assim. E tenho a impressão de que éramos mais felizes. Ora, desde que me entendo por gente o Brasil está em crise econômica e/ou política. Vivi a hiperinflação dos anos 1980 e o impeachment de Collor no início da década de 1990. Mas tínhamos outras preocupações que não a política. No centro acadêmico da faculdade de comunicação social (1996), conversávamos sobre Forrest Gump x Pulp Fiction, sobre Friends e, claro, sexo. Se bem me lembro, o movimento estudantil era só uma forma de socialização, não de socialismo.

Politização só traz infelicidade. O Brasil (ou qualquer país do mundo) só será um lugar minimamente agradável quando as pessoas deixarem de falar sobre política. Quando forem realmente alienadas. Quando o governo deixar de se intrometer tanto na vida da gente. Quando os políticos forem discretos a ponto de os ignorarmos quase que completamente.

Precisamos falar sobre Woody Allen

 

Lembro exatamente do dia em que meu amigo André me perguntou se eu conhecia Woody Allen. Helena estava ao meu lado naquela sala dos fundos do terceiro andar do prédio da Universidade Federal do Paraná. Foi depois de uma “aula” de Teoria da Comunicação. Fazia frio. Eu ainda morava no Cabral. Saí da aula direto para a vídeo-locadora. Assisti a A Rosa Púrpura do Cairo.

E acho que enlouqueci.

Nos anos seguintes, minha admiração por Woody Allen cresceu tanto que, nos dias mais negros da minha existência, costumava a dizer a todos que eu ainda tinha um motivo para permanecer vivo: o próximo filme de Woody Allen. E eu estava falando sério!

Em dez anos, assisti aos filmes de Woody Allen centenas de vezes. Só Crimes e Pecados e Hannah e Suas Irmãs eu vi mais de trinta vezes. Naqueles anos pré-torrent e Netflix, eu caçava desesperadamente fitas (sim, VHS!) piratas para poder assistir aos filmes mais antigos do diretor. Em 2002, eu me orgulhava de ser uma das poucas pessoas que tinha assistido a todos os filmes de Woody Allen até então.

E continuei assistindo a todos os filmes de Woody Allen lançados no Brasil, mesmo que em salinhas minúsculas, sujas e fedidas. Até Match Point. Gostei do filme, mas a partir daí comecei a me distanciar artística e filosoficamente de Woody Allen. Acredito que o diretor tenha se tornado mais e mais cínico, o que não me agrada.

O problema é que, nos últimos meses, tenho ficado incomodado até mesmo em revelar minha admiração pelo Woody Allen praticamente perfeito de Manhattan e Crimes e Pecados. E o motivo é a vida pessoal do diretor. Ora, há muito tempo criei o saudável hábito de ignorar completamente a vida pessoal dos artistas que admiro. Quase sempre dá certo. No caso de Woody Allen, contudo, a fofoca é grave e afeta profundamente meu senso de certo e errado. Confesso que não sei lidar com isso.

Nos últimos anos, acompanhei com alguma apreensão as notícias sobre o abuso que Woody Allen teria cometido contra uma filha adotiva. Apeguei-me infantilmente ao apoio que Allen recebia de colegas e até de um filho. Mas o fato de o diretor ter se casado com uma filha adotiva não ajuda muito a limpar a mancha e dissipar as dúvidas. Só piora.

Para mim, é difícil entender como a pessoa que escreveu Crimes e Pecados possa ser um pedófilo. E aqui não vale comparações com outros grandes artistas de caráter duvidoso, como Céline e T. S. Eliot. Allen é diferente justamente por causa da leveza de suas obras-primas. Consigo conciliar facilmente Céline e o antissemitismo; mas um Woody Allen pedófilo é algo que simplesmente não combina.

Como saída, tenho usado uma espécie de auto-hipnose que me permite a assistir às obras-primas de Woody Allen como se fossem coisas de outro gênio. Sim, eu abstraio o Woody Allen de reputação duvidosa. Na maior parte do tempo, quero dizer. No caso das obras mais novas, de qualidade bem inferior, simplesmente as ignoro. E, assim, acho que consigo ficar em paz.

(E, de quebra, tenho mais um nome para minha inédita série “Por Que Não Tenho Ídolos Vivos”).

A melancolia do ex-polêmico

No remoto ano de 1998 ou 1999, antes que existissem blogs e redes sociais, eu costumava distribuir meus textos “polêmicos” a um grupo de amigos, principalmente colegas de faculdade. Naqueles tempos românticos, não escondia de ninguém que queria ser como Paulo Francis. Simplesmente adorava o estilo do homem, sobretudo o humor e, claro, as polêmicas.

Nesta mesma época, recebi um e-mail muito malcriado de um tradutor hoje famoso, até então apenas mestrando de Letras, me xingando de tudo quanto é coisa e dizendo “você não tem estofo para ser Paulo Francis”. Ora, eu era um menino todo empolgado de 21 anos! Que tipo de gente faz um comentário tão cruel assim para um menino cheio de sonhos? E por quê?!

Nunca me esqueci do comentário. Nos anos seguintes, tive a sorte (que mais tarde descobri ter sido azar) de poder escrever o que quisesse e de bancar meu ídolo. Jamais me esquecerei do prazer que sentia ao escrever aqueles textos bobinhos e pretensiosos e despertar todos os tipos de reações. Não, eu não me sentia poderoso; me sentia mais como uma espécie de “animador intelectual” atraindo aplausos e vaias. Era bom, muito bom.

Mas o tradutor tinha razão. Faltava-me estofo para bancar o Paulo Francis. Faltava-me sobretudo base e apoio emocional. Aos poucos fui aprendendo que o que fazia o bom polemista não eram as opiniões ou os adjetivos bem colocados; era a palavra de um amigo qualquer que dizia “certo ou errado, estou do seu lado”. Algo que nunca tive, por sinal. Resultado: aos 25 anos eu era um homem já esgotado e isolado, emocionalmente em frangalhos e questionando minha opinião sobre todas as coisas – exatamente o oposto do que um bom polemista deve fazer.

Hoje em dia, não muito mais velho, mas me sentindo centenário às vezes, fujo de polêmicas. Ao mesmo tempo, e por mais contraditório que possa parecer, lembro com uma nostalgia cancerosa do prazer de ter escrito alguns textos e da reação que estes textos despertaram. Da energia com que eu me colocava diante do computador, respirava fundo e escolhia um tema qualquer para escrever com virulência e humor, sempre esperando que o texto não caísse na mesmice.

O polemista está morto, sem dúvida. Resta apenas um homem resignado à sua condição de figurante intelectual. E um trapo emocional incapaz de perdoar aquele que um dia podou meu sonho (tolo, reconheço) por mera perversidade.

Sísifo que Sou

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Voltar a escrever é sempre a mesma coisa: um monte de vontade e promessa e projetos e, depois de uma semana, a desistência. Pelo menos tem sido assim já há dez anos. Por que desta vez seria diferente? Não é. Tanto que evito o anúncio em busca de aplausos e incentivos. Ficou patético, reconheço. Nem eu mesmo aguento.

As grandes questões são duas: por que abandonei a escrita e por que gostaria de voltar a me envolver com palavras, orações e parágrafos. A boa notícia é que tenho respostas para ambas. Se isso se traduzirá numa volta real e palpável eu sinceramente não sei e evitarei promessas. Minto: vai e prometo. Melhor assim?

Parei de escrever rotineiramente há bons dez anos. Por pura decepção, sim, mas também por comodidade. Na época, simplesmente era possível deixar de escrever e ter outros sonhos, por mais estúpidos que fossem. Cozinhar, por exemplo. Ou ser pai. Ou ainda ler. Parei de escrever sobretudo porque achava que não tinha o que dizer. E porque não sentia necessidade alguma.

Aliás, durante muito tempo eu desconfiei desta história de “necessidade de escrever”. Era algo que não reconhecia na minha juventude e com certeza não senti por um bom tempo. Não. Eu podia muito bem acordar tarde, dar uma olhada nos barquinhos e passar o dia lendo ou assistindo a filmes. Necessidade de escrever era para ególatras, dizia.

Até que veio a queda e, com ela, o desespero para se fazer ouvido. Eis aí a tal necessidade. Aquela coisa visceral de que tanto falavam. Aquele turbilhão que acorda com a gente e nos acompanha ao longo do dia. Nada de egocentrismo ou narcisismo ou qualquer outra patologia psiquiátrica; apenas uma sensação quase mística de realizar seu (meu) destino. Ou alguma coisa assim.

Mas não me engano nem engano os que me rodeiam: as desculpas para não escrever ainda são poderosas. Às vezes tenho que assistir a um delicioso programa culinário na televisão. Ou tenho que traduzir e ganhar o pão-nosso. Ou preciso ir ao mercado, tomar banho, pagar contas. Qualquer coisa que me distraia e desvie deste caminho que não é reto e que – não se iluda! – não leva a lugar algum: a escrita.

Fiquemos com os fatos e a eles nos apeguemos. Hoje tenho muito a dizer. Tanto quanto tinha há vinte anos, mas com mais maturidade. Ao mesmo tempo, contudo e entretanto, tenho medo. Verdadeiro pavor. Porque o tempo me ensinou a usar as palavras e… Evocaria aqui Cecília Meireles, mas deixarei para lá. Porque, se eu parar para pensar em todas as feridas que posso abrir escrevendo, simplesmente desisto.

De novo. Sísifo que sou.