Sonhos

Quando estava no fundo mais fundo do poço profundo em que me enfiei por umas tristezas que nem vale a pena comentar, costumava dizer às pessoas que não tinha mais sonhos. E por um motivo simples: eu havia realizado todos os meus sonhos até então.

E não falo dos sonhos bobinhos que todo mundo tem. Se bem que esses também (com o perdão pela rima). Plantei minha primeira árvore ainda criança, no colégio. Passei por lá outro dia e vi que as árvores deram lugar a um condomínio, mas isso não é problema meu. Livros antes dos trinta eu já tinha escrito dois. E filho eu tenho um que é muito mais do que eu poderia ter sonhado um dia.

Para todos os efeitos, e a despeito da tristeza assustadora por trás daquelas cortinas pesadas e escuras, eu era um homem ultrarrealizado. Tinha amado todas as mulheres que quis amar, tinha conhecido todas as pessoas que quis conhecer, tinha escrito tudo o que sonhei escrever e tinha até trabalhado nas empresas que quis. E isso era um grande problema que eu não via como solucionar, a não ser morrendo e nascendo outra vez – equação da qual eu só conhecia a primeira parte.

Não sei se morri e nasci de novo. A imagem é muito comum e pobre, até mesmo para um texto apressado destes. Só sei que, nos últimos anos, me peguei tendo uns sonhos novos e deliciosos que só pecam por um motivo: eles não têm nada a ver com o sonho de todo mundo, o que me deixa com uma sensação incômoda de isolamento existencial que talvez um dia (provavelmente nunca) eu explore.

O fato é que hoje em dia tenho sonhos tinindo de novos, dentre os quais vou mencionar três que me ocorreram ainda agora há pouco no banho. Na verdade pensei em muito mais do que três sonhos, mas entre o banheiro e o escritório eu me esqueci da maioria. O que me faz pensar que um sonho bom para o futuro é ter uma memória melhor, mas só se eu puder continuar esquecendo tudo o que não vale a pena lembrar.

Onde estava mesmo? Ah, sim. Sonhos. O primeiro deles é pilotar (não sei se este é o verbo exato) um daqueles jatos d’água antimanifestantes. Imagino que hoje em dia o sistema seja todo automatizado, mas em meu sonho estou lá no alto, segurando a bazuca d’água, muito compenetrado, como convém, mirando nos manifestantes lá embaixo e jogando baldes e mais baldes de água fria neles, independente da causa que estejam defendendo.

O segundo sonho é mais simples e realizável, ainda mais se algum produtor rural estiver lendo este texto. Quero e vou, antes de morrer (a não ser que o avião caia amanhã), dirigir uma colheitadeira. É provável, contudo, que na vida real eu tenha de dirigir todo certinho, guiado por um sofisticado sistema de GPS. Mas, como sonho bom é sonho insano, minha vontade mesmo é de guiar a colheitadeira feito um louco por sobre hectares e mais hectares cobertos de trigo.

Por fim, mas não menos importante, ah, de jeito nenhum, talvez mais importante do que qualquer sadismo aquoso ou insanidade agrícola, sonho em um dia poder dormir abraçado a uma preguiça. Sim, bicho-preguiça. Dormir de conchinha, eu spoon e ela spoonee, estes dois seres magníficos numa disputa acirrada para descobrir quem dorme mais.

(Eu, claro).

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Sou este homem

Sou este homem que diz sempre “muito prazer” ao conhecer um estranho, mesmo que seja mentira. E que, ao longo da conversa, sempre dá um jeito de encaixar um “tô cansado”, mesmo não estando. Porque, no fundo (ou nem tão no fundo assim, vai), sinto uma inveja danada daquelas pessoas que chegam ao fim do dia sem tempo ou energia para refletir sobre a singularidade ou para criar super-heróis heterodoxos em textos que não encontram leitores nunca.

Sou este homem louco para conversar com alguém, eternamente carente de amigos ou mesmo de colegas ou conhecidos ou não. Ao me deparar com essa figura mítica que é o Amigo, sou daqueles que falam atabalhoadamente, como se precisasse expressar tudo o que penso de tudo numa única frase, a fim de que ele, o amigo, me admire ou quem sabe me ame um pouquinho. A coisa está tão feia neste sentido que, na atual conjuntura, confesso que sinto falta até de um não-amigo, desses bem falsos mesmo, para tomar um café no fim da tarde e depois sair falando mal de mim por aí.

(Sou alguém que abriu este parêntese antes de continuar porque não consegue pensar numa forma de prosseguir com o texto sem insistir na fórmula narcisista do “sou este homem” no começo de cada parágrafo. Pois é… Sou alguém que tem esse tipo de preocupação).

Sou este homem (às favas os escrúpulos estilísticos!) que adora ouvir histórias, desde que você não arraste muito as palavras. Gosto ainda de contar essas mesmas histórias, mas se você me permitir vou mudar um pouquinho aqui e ali para ficar mais interessante – e também para esconder esse seu péssimo hábito de não usar os plural. Quando estou assim de bobeira, sou também o homem que cria histórias – você saberia disso se largasse de vez em quando as redes sociais para me ler!

Sou este homem assim meio triste, mas com uns arroubos espetaculares de alegria. Digo a todos que fiz as pazes com o passado, mas ninguém acredita (é verdade!). Apesar de já ter pensado muito em me matar (e de me arrepender por ter exposto este tipo de pensamento ao mundo), amo absurdamente a vida e, às vezes, assim antes de dormir, me imagino escrevendo sobre coisas prosaicas como o ato de respirar. Me falta a veia messiânica, infelizmente, mas tenho, não nego, essa mania de querer que as pessoas percebam o grande milagre que é a vida.

Sou este homem que já leu alguns livros, já assistiu a alguns filmes (sou este homem que usa esta regência em desuso), já ouviu umas musiquinhas por aí. Quem comeu diz que meu feijão é o melhor do mundo, mas orgulho mesmo eu tenho é do meu strudel. Só falo de política em casa e entre amigos (mas, se você leu o segundo parágrafo, a essa altura já sabe que amigo é um recurso escasso por aqui), de preferência rindo de tudo e de todos. Falo palavrão demais (se bem que até agora nada) e não bebo refrigerante há vinte… dias.

Sou, enfim, este homem que é só um homem entre três bilhões e meio de homens – e que no entanto é, de alguma forma, especial. Porque estou vivo, porque me interesso, porque recebo e retribuo, porque rio mais do que choro, porque me preocupo às vezes demais com umas coisas bobas e sobretudo porque sou este, e não aquele, homem.

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O Impronunciável

— Então é assim? — perguntei para o nada. Ao meu redor, o branco fofo das nuvens infantis. Uns prédios dourados, possivelmente de ouro. O som de milhões de harpas dedilhadas por anjos nus, mas sem sexo. Aquele lá ao fundo é Borges soterrado por uma biblioteca infinita?

Eu havia morrido e aquele era o Céu. Quem diria: as crianças é que estavam com a razão! Nuvens brancas, prédios de ouro, harpas. Só faltava me encontrar com…

— Deus?! — exclamei-perguntei. Era o Próprio. Um Senhor de barbas brancas e manto igualmente branco. Olhos profundamente azuis e mãos estranhamente calejadas que seguravam um cajado. Atrás de si, Deus deixava um rastro de galáxias.

— Meu Filho! — disse Ele. — Não esperava encontrá-lo tão cedo por aqui. Por que fizeste uma coisa destas?!

Era uma pergunta retórica, claro. Em sua onisciência, Deus sabia muito bem que eu tinha me matado. Um suicídio meio sem querer, mas ainda assim. Eu estava andando assim por um vale das sombras da morte que se abriu no meio da sala, tropecei em dois ou três comprimidos engolidos com a ajuda de um pouco de vodca e terminei com meu corpo balançando numa corda presa ao cano do chuveiro.

— Eu não queria… — comecei. E era verdade. Reconheço que o discurso suicida esteve bastante presente nos meus últimos anos de vida. Eu estava até monotemático. Mas, no fundo que não era nem tão fundo assim, o que eu queria era apenas viver uma vida tranquila, cujo sentido eu encontraria num silêncio sereno. Mas havia uma cartela de comprimidos no meio do caminho. E uma corda de pular na gaveta do armário.

— Eu sei, meu Filho. E é por isso que estou aqui diante de ti — disse Ele, com aquele tom de juiz que eu tanto temia em vida.

No espaço entre as frases, imaginei o inferno e o inferno que me aguardava era também o inferno das crianças: labaredas eternas a cauterizar sem anestesia todos os meus pecados. Sem pressa. Mas, antes que eu pedisse clemência, Deus se manifestou.

— Não se preocupe, Filho. Você ainda está longe daquele lugar — Deus bateu três vezes num toco de madeira que apareceu e desapareceu à frente Dele. — Vou lhe dar uma segunda oportunidade, Filho. Olhe ali — instruiu ele, apontando para um buraco nas nuvens.

Meu corpo jazia sobre a maca. O lençol sobre o rosto denunciava minha condição de cadáver. Só um milagre me faria ressuscitar e era justamente isso o que Deus me propunha. Mas quem disse que eu queria na morte o milagre que tanto pedi em vida? Cruzei os braços, franzi a testa e fiz bico de criança.

— Mas, Senhor… Com todo o respeito e vênias e o latinório necessário nessa hora, não sei se quero voltar para lá. Estou cansado. Eu não queria me matar, sabe? Até porque tinha medo… disso. Mas, já que me matei, talvez fosse o caso de tocar uma harpinha ou fazer companhia ali ao velho Borges…

— Não! — trovejou Ele, metamorfoseado em Júpiter. E vi que a Tempestade Eterna era, na verdade, uma garoa de alívio num dia de verão. — Como todas as pessoas, tu tens uma missão importante a cumprir. E vai!

— Mas, Senhor… Peço novamente desculpas pela insolência, mas milhares de pessoas…

— Milhões, Filho. Milhões.

— Que seja. Milhões de pessoas se matam todos os anos. E, até onde sei, nenhuma delas têm uma segunda chance. Por que eu…?

— Sua lógica humana não faz sentido aqui, Filho. Só Eu faço sentido aqui e estou dizendo que voltarás ao mundo dos vivos daqui a… vinte segundos.

— Mas, Senhor… Com todo o respeito do Universo, minha vida era uma merda, vai? Se eu voltar, é bem capaz de me matar novamente.

Deus riu como se eu fosse um anão escorregando numa casca de banana.

— Não vai, não, meu Filho. Não se souberes exatamente o que Eu quero de ti.

— Tipo… o sentido da vida?

— Pode chamar como quiser. Só uns poucos privilegiados sabem o sentido da vida. E você será um deles. — Deus olhou para trás e estalou os dedos. De repente, um homem de feições serenas e ligeiramente enfadadas apareceu ao lado Dele. — Você certamente reconhece meu amigo…

— Sim, sim. Eu o conheço. — Era um escritor cuja obra eu lera há alguns anos. Lembro-me de fechar o livro e me sentir tocado por uma espécie de Vento Divino e de, naquela noite, ter ido dormir pensando que havia chegado perto, perigosamente perto, do tal sentido da vida. —Mas ajudaria uma coisa mais definida, sabe? Faça isso e faça aquilo. Fale com aquela pessoa, mande um e-mail. Eu trabalho bem com metas e prazos. É isso. Me dê uma meta a cumprir. E um prazo. E condições de cumpri-la, claro. O Senhor não se arrependerá.

— Nunca me arrependo, Filho. — E eu pensei imediatamente em Hitler. Deus, que de bobo não tem nada, leu meu pensamento e foi logo emendando: —Meu único arrependimento em bilhões de anos.

Rimos e não me surpreendi por Deus saber rir de si mesmo.

— O que você, Filho, chama de “metas”, aqui no Céu chamamos de “O Impronunciável”. É aquilo que só eu digo e que uns poucos têm o dom de ouvir.

— Mas, Senhor… O Senhor me livre da heresia! Mas se a coisa é impronunciável, como é que o Senhor a pronuncia? E como alguém ouve o que é impronunciável?

Deus ignorou minha filosofia de botequim, se abaixou e, na mais linda das vozes e com um hálito de lavanda e capim-limão, Ele sussurrou o Impronunciável no meu ouvido.

— E então? —perguntou Deus. Não que minha opinião fosse fazer alguma diferença, porque se Deus decidiu está decidido, isso qualquer vigário do interior sabe. Mas admirei-O ainda mais pela cortesia.

— Uau. E, sim, isso eu faria com prazer.

— “Faria” não, Filho. Você fará! — disse Deus, daquele jeitão todo magnânimo.

— Só tem um probleminha… — eu disse.

— Qual? — perguntou Deus (e vale lembrar aqui que a pergunta é sempre retórica, por causa da onisciência, onipotência, onipresença, coisa e tal).

— É que eu me matei, lembra? — E do meu corpo lá embaixo já subia um cheirinho azedo.

— Ah, mas isso é fácil de resolver, Filho. Voltaremos no tempo. Ou melhor, você voltará no tempo, já que, para Mim, o tempo é um conceito inexistente. Em vez de se matar, você acordará de um sono muito profundo causado pelos remédios. E se lembrará remotamente deste episódio como um sonho.

— O Senhor não acha meio clichê isso?

— Seria clichê se você não tivesse também se enforcado, Filho. Então é melhor chamarmos de milagre mesmo.

— Se o Senhor prefere. Mas, novamente, tem um probleminha nessa coisa toda. E, antes que o Senhor pergunte “qual”, mesmo sabendo a resposta, eu mesmo esclareço: o Senhor sabe muito bem que não acredito nos meus sonhos.

— Claro que sei. E continuará não acreditando. Mas, neste caso… — Soaram tambores. Ou teria sido uma pilha everéstica de livros que desabou sobre um felicíssimo Borges? — Neste caso, a dúvida bastará.

Olhei ao meu redor. Deus falava como se discursasse para uma multidão invisível. Ficamos ali em silêncio por alguns segundos, como se eu tivesse mesmo poder de decisão. Não tinha. Tudo estava definido por Ele, desde sempre.

— Agora vá! — disse Deus. — E transforme o Impronunciável em realidade.

Abri os olhos, confuso como se saísse de um sono artificial. Tirei o lençol do rosto, levantei um pouco a cabeça, olhei em volta e me faltaram pontos de exclamação para expressar meu espanto. Eu estava na morgue de um hospital. Logo eu, que morro de medo de fantasma! Me levantei com a agilidade temerosa de uma criança que riscou a parede da sala e sabe que será punida por isso. E saí pelo corredor silencioso, não sem antes tomar o cuidado de enrolar minha brancura de ex-defunto no lençol que cobria a vergonha do meu quase-fim.

E fui.

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Ou não

“O importante é começar o texto com aspas, para já impressionar o leitor com sua cultura vasta”, disse o poeta cipriota Alxdje Xiruhqd. Repare na quantidade de consoantes e na impronunciabilidade do nome. E também na nacionalidade remotíssima. Não se preocupe com o fato de ser uma citação completamente falsa de um poeta idem. Se você tiver credibilidade diante do leitor, ele jamais verificará a fonte da citação. E se você não tiver ele jamais verificará a fonte por pura preguiça. Agora abra outro parágrafo porque o leitor, por incrível que pareça, já cansou.

Muito bem. Insista no erro, só para testar a paciência do leitor que aguarda ansiosamente para ler sua opinião sobre qualquer coisa e, aqui, teoricamente sobre o filme Trama Fantasma. “Quanto mais confuso o leitor estiver já no segundo parágrafo, maior a probabilidade de o escritor ser um idiota, ainda que tudo seja intencional, da idiotia à confusão”, disse a cineasta Carla Camurati. E, assim, ao ler um nome que ele reconhece vagamente das páginas culturais ou das revistas de cabeleireiro, o leitor já se acalma, porque tem a impressão de estar na mesma página que você. Viu como é fácil?

Parágrafo novo é ótimo nessa hora. Significa que você vai dar uma guinada no texto, certo? Ou quase isso. Minha sugestão é contar uma historinha pessoal com ares de carochinha: estava no meio de um jantar quando um amigo ofegante me ligou dizendo que eu precisava sair dali imediatamente para assistir ao novo filme de Paul Thomas Anderson (talvez você tenha demorado demais para mencionar o diretor da moda). “Você vai amar”, disse ele, e agora a citação é verdadeira, mas quem é que se importa?

Se você for uma pessoa com boas relações no meio literário, jornalístico, intelectual, influenciador ou só metido a besta, este parágrafo é uma boa hora para mencionar os amigos que possam se encaixar na historinha acima, por mais que na verdade você jamais tenha recebido uma ligação deles no meio de um jantar ou em qualquer outra ocasião. Vá citando assim aleatoriamente as pessoas que são ou foram seus amigos e que talvez se envaideçam com a lembrança ao acaso. Mas abra outro parágrafo.

Porque Sérgio Rodrigues isso, Sabbag aquilo. Apolloni não sei o quê, Diogo Rosas tal e coisa. Oi, Martim Vasques da Cunha, Francisco Escorsim. Você anda sumido, Antônio Fernando Borges. Mas tome cuidado para expressar diversidade. É importante mencionar também uma mulher (Márcia Xavier de Brito), um representante da diversidade sexual (Fábio Moraes), uma estrela do rock independente (Francisco del Rio) e, claro, um judeu (Victor Grimbaum). E, aqui, você pode ou não marcá-los nas redes sociais, mandar uma mensagem avisando ou simplesmente esperar que busquem a si mesmos e se encontrem no Google. Dez leitores garantidos

Quatro parágrafos. Uau. Acho que já está mais do que na hora de dar sua opinião sobre Trama Fantasma. Mas não sem antes falar de Daniel Day-Lewis. Fale o óbvio, mas de um jeito que pareça… especial. Mas não especial no sentido de deficiente; especial no sentido de inteligente. E, assim (veja como o texto é mágico!), você acaba de matar três coelhos com uma cajadada só: mencionou Daniel Day-Lewis, disse o óbvio a respeito dele e ainda fez um comentário politicamente incorreto para dar de comer aos cães polemistas.

Mas, veja bem!, é importante também deixar claro que você prestou atenção às demais qualidades e defeitos do filme. Fale mal da fotografia, mas não muito, para não parecer chato. Elogie a direção de arte, sempre tomando o cuidado para não soar um salta-pocinhas. Mas, por favor, abstenha de falar sobre aspectos técnicos do filme, para não soar pedante demais. Além disso, convenhamos, ninguém quer sua opinião sobre a edição de som.

Importante ainda é ressaltar alguma injustiça no filme. Assim você parecerá ainda mais… especial (no sentido que o leitor bem entender). Fale de um aspecto im-por-tan-tís-si-mo que ninguém notou naquela cena que ninguém percebeu. E aproveite para mostrar que sabe separar sílabas. Revolte-se por que a atriz não foi reconhecida como merecia ou por que a película (é muito importante usar a palavra “película”) não ganhou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Nauru. E, antes de abrir um novo e, espero, derradeiro parágrafo, dê ao leitor tempo de pesquisar onde fica Nauru – não, não é na Oceania!*

Hora de terminar o texto, porque ninguém mais tem paciência. Mas não vá embora antes de fazer mais referências. Agrade ao pessoa da alta cultura citando um Eliot aqui (ü) e aos mais nacionalistas simplesmente escrevendo o nome de Machado de Assis (ü). Seduza a esquerda com um Godard (ü) ou até um Brecht (ü). Agora faça paralelos, por mais absurdos que eles sejam, com o cinema nacional. E ninguém vai morrer se você mencionar o absurdo que é a lei da meia-entrada e a lei Rouanet.

Mas, porra, o parágrafo anterior não era o derradeiro? Isso mesmo. Proponha uma pergunta retórica ao leitor. É bem provável que alguém caia na armadilha e responda algo. E, por fim, na última frase mesmo, use uma frase de impacto, uma frase tão ressonante que não restará ao leitor alternativa senão concordar com tudo o que você disse e mais um pouco. Ou não.

 


*É na Oceania, sim. Mas, hoje em dia, para o texto ser considerado bom ele tem que ter ao menos uma nota de rodapé e um erro factual. Melhor ainda se tiver um erro de hortografia, para mostrar que você não estava “nem aí” quando escreveu, entende?

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A Era das Ideias Imperdoáveis

Aos meus leitores do futuro desmemoriado (isto é, a partir da semana que vem), convém contextualizar: em maio de 2018 o Brasil enfrentou uma greve de caminhoneiros que teve graves consequências para o país, tanto econômicas quanto políticas. Houve gente apoiando o caos e a baderna e, pior, muita gente pedindo a queda do governo e uma intervenção militar.

Além da ignorância histórica (histórica em si e em relação à história) e econômica, essa greve acabou expondo outra crise, esta de ordem espiritual. E não, não estou falando aqui de religiosidade, de ser católico ou macumbeiro; estou falando de transcendência e da busca por uma imortalidade que não é física. Essa greve parece ter deixado claro que vivemos hoje na crudelíssima “Era das Ideias Imperdoáveis”, também conhecida como “Era dos Idiotas & Canalhas Absolutos”. Explico.

Não é o meu caso, mas vi muita gente falando bobagem sobre, sob e acerca da greve dos caminhoneiros. E muita gente falando coisas que considero sensatas. Imediatamente, como era de se esperar, instalou-se a cizânia entre os dois grupos. Cada qual usando seus números, suas conjugações, suas citações, suas piadas e seus emojis para expor o que veem como O Ponto-de-Vista-Mais-Correto-do-Universo.

Ao fim e ao cabo, parece ter prevalecido a ideia de que a greve era prejudicial ao país e de que intervenção militar é coisa de gente que curte uma bela lambida num coturno. Muitos dos que disseram bobagem no começo, talvez fascinados pelo caos e todas as possibilidades que ele desperta, reconheceram o erro e pediram perdão (explicitamente ou não). E ainda assim continuaram alvo de impropérios ou, pior, de vereditos irrecorríveis: idiota!, canalha!

Não sei se é o peso da palavra escrita ou a ilusão de permanência da imagem em movimento na tela da TV ou do computador, mas parece que hoje em dia todo mundo é idiota, não foi/esteve idiota. Antes a idiotice era doença aguda, dor de dente que se curava com AAS e meia-dúzia de livros; hoje é doença crônica e incurável, uma forma repugnante e purulenta de diabetes.

E aqui advogo também – e por que não? – em causa própria. Para alguém que escreve há tanto tempo e sobre tantas coisas, por gosto ou como ganha-pão, reconheço que já falei muita bobagem. Ou seja, já fui muito idiota. A idiotia passageira, transitória é o preço que a gente paga por tentar chegar a uma conclusão sobre a própria vida. Além de ser característica muito própria de certa idade. Mas em hipótese alguma poderia aceitar que estes espasmos de estupidez me definissem, por mais constantes que fossem e sejam.

Com a ideia de que o outro é sempre canalha as coisas são mais complicadas. Porque canalhice pressupõe maldade e, não raro, sadismo. Pressupõe que o outro se regozije com a própria idiotice e a use para moldar e distorcer a realidade. Que por sua vez é usada para infligir algum tipo de sofrimento a outrem. Mas como o canalha pode ser canalha absoluto e incorrigível se, no cenário por mim proposto, ele percebeu o erro, se arrependeu e até pediu desculpas?

Veja bem, não estou tapando o sol com a peneira. Idiotas e canalhas existem, sim, e aos montes. Os primeiros são frutos da preguiça, do hedonismo e da solidão. Repare: o idiota que manifesta sua idiotice, por escrito ou na mesa do bar, só está sendo idiota porque em algum momento, ao se deparar com a realidade, ele não a entendeu e teve preguiça de levantar a mão na sala de aula (simbolicamente falando, claro). Além disso, o idiota quer o prazer fácil e rápido do aplauso real ou virtual. E, por fim, o idiota é, na circunstância de sua idiotia, sempre um solitário em busca de aceitação, de pertencimento.

Já os canalhas – e me refiro à imensa maioria de canalhas relativos, não aos raros e assustadores canalhas absolutos – só estão canalhas porque, coitados, precisam estar com a razão. Ao menos isso. A vida do canalha relativo é uma sequência de fracassos e ele precisa desesperadamente estar certo em alguma coisa, a fim de que sua vida tenha algum sentido.

A Era das Ideias Imperdoáveis, pois, dá origem a um cenário de permanente tensão intelectual no qual opiniões são sempre expostas para vencer, e não para que a pessoa (esteja ela temporariamente idiota ou canalha) se posicione. Toda discussão, portanto, vira uma batalha violentíssima, porque o que está em jogo é a reputação para sempre, sem nenhuma oportunidade de perdão ou ao menos compreensão. Redenção, então, nem pensar!

Você vai me chamar de ingênuo (e, provavelmente, de idiota e canalha), mas talvez esteja na hora de tentar entender o raciocínio, o processo que leva as pessoas a manifestarem certas opiniões apressadas e admirar a capacidade destas mesmas pessoas de, às vezes, absorverem argumentos contrários e até mudarem de ideia. Talvez esteja na hora de perceber que, quando alguém é idiota num assunto, existe sempre a possibilidade de você ser idiota em outro. E que aquele que você condenou para sempre ao Reino da Canalhice talvez seja apenas alguém que está passando por um momento complicado na vida.

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