Polzonoff

Entendo nada. Opino tudo.

Estelionato literário – ou só mais um equívoco

diasperfeitos

[CONTÉM SPOILERS]

A experiência me diz para jamais escrever sobre livros ruins. Mas a vaidade (o maior de todos os pecados!) me manda colocar alguns pingos nos is. No começo da semana, publiquei em algumas redes sociais um elogio rasgado ao escritor Raphael Montes e seu Dias Perfeitos. Tinha lido as primeiras trinta ou quarenta páginas do romance e me empolguei. Equivocadamente, claro. Este texto, portanto, é um esclarecimento e um pedido de desculpas.

Escrevo este texto também porque me sinto vítima de uma espécie de estelionato literário. Explico. Conheci Raphael Montes ao assistir ao Programa do Jô, onde ele foi anunciado como “revelação da literatura policial brasileira”. Ora, todos sabem que me interesso muito por literatura policial e lá fui eu conferir. Quanta ingenuidade, a minha! Dias Perfeitos não passa nem perto de ser um livro policial. É, no máximo, uma história de amor às avessas, com certa pretensão psicológica. Na verdade, trata-se de um amontoado de lugares-comuns. Dá pena.

O fato é que, iludido pela propaganda, ao começar a ler Dias Perfeitos, resolvi dar um desconto para o autor. Afinal, ele só tem vinte e três anos. Dava para perceber que a prosa dele amadureceria. Assim, o estilo meio infanto-juvenil nem me incomodou; o que começou a me incomodar mesmo foi a construção banal dos personagens e o enredo manuelcarleano. Dê um desconto, Paulo – eu dizia para mim mesmo, página após página.

E, para minha surpresa, o livro me cativou naqueles primeiros páginas em que Téo, o estudante de medicina evidentemente psicopata, torna-se obcecado por Clarice. O problema é que fiquei esperando que entrasse na narrativa o contraponto necessário a todo vilão, isto é, alguma forma de justiça. Página após página, fui ficando frustrado na mesma proporção em que os lugares-comuns se acumulavam: Téo mata o ex-namorado de Clarice, Clarice tenta se virar contra Téo, mas a arma está descarregada, Clarice e Téo sofrem um acidente de carro e ela perde a memória…

Raphael Montes, coitado, é mais um autor-vítima desta tendência brasileira à descrença na justiça. O apego à infeliz verossimilhança só rende livros como Dias Perfeitos, que não se sustentam como literatura de qualquer tipo, muito menos policial. Ora, qualquer leitor de quinze anos sabe que a literatura policial existe para satisfazer nosso anseio por justiça. Qualquer coisa diferente disso é sociologia barata, se tanto.

Literatura policial é simples e complexa. Venho batendo nesta tecla desde 2008. Trata-se de uma fórmula que deve ser repetida. E, dentro desta fórmula, o autor tem que procurar ser o mais inventivo possível. Fugir à fórmula é suicídio literário – é burrice. Raphael Montes é jovem e parece ter talento o bastante para tentar retomar o rumo da sua prosa. Para, quem sabe, se tornar o que pretende ser: um verdadeiro escritor de romances policiais brasileiros.

Quanto a mim, prometo nunca mais elogiar ninguém, ainda que informalmente, depois de ler as primeiras páginas de um romance. E prometo também dormir mais cedo, não assistir a talk-shows e principalmente não acreditar em revelações literárias. Estou velho demais para isso.

Decepção

decepcao

Reza o lugar-comum que a decepção é proporcional às nossas expectativas quanto a determinada pessoa. Andei pensando muito nisso nos últimos dias. O lugar-comum tem lá sua parcela de razão. O problema é que nossas perspectivas geralmente nascem da imagem que a outra pessoa projeta para nós, não é?

Por algum motivo, nas últimas semanas tenho me decepcionado muito e por isso resolvi investigar esse fenômeno. Antes de mais nada, me perguntei se minhas decepções eram consequência das minhas altas expectativas. Em parte, sim. Mas não posso fazer nada a respeito disso. Esperar menos das pessoas está fora de questão, e por um motivo simples: respeito.

Sim, porque seria um desrespeito esperar pouco ou nada das pessoas. Seria uma confissão de derrota. Quando conheço alguém, espero, sim, o melhor da pessoa. Sempre. Porque acredito, um tanto quanto ingenuamente, que todo mundo está buscando ser a melhor versão de si mesmo.

Não suporto a ideia de esperar pouco ou nada das pessoas, como pregam os cínicos. Para mim, a mulher tem sempre o potencial de ser a melhor mulher. O melhor amigo. O melhor colega de trabalho. E até mesmo o melhor interlocutor numa conversa à toa na fila da lotérica.

Mas eu me decepciono. Não é sempre. Não é com todo mundo. Mas é um baque. Por algum motivo esotérico, as decepções têm se acumulado nas últimas semanas. E eu passo os dias trabalhando, com um desejo cada vez maior de me isolar para não me decepcionar de novo com você. Ou você. Ou você.

Com a tendência de me autoflagelar pelas decepções, entoando o mantra que diz que a culpa é minha, eu é que espero demais das pessoas, eis que me deparo com o inequívoco: em parte, minha decepção nasce na imagem que as pessoas projetam para mim. A melhor mulher, o melhor amigo e o melhor colega de trabalho não são construções aleatórias da minha mente. Não! São construções que se baseiam em palavras e sinais dessas pessoas. Elas também acreditam que são as melhores. E, não raro, fazem questão de deixar isso claro.

Aqui a escolha é muito mais complexa do que parece: acreditar ou não no que as pessoas dizem? O mais certo deve ser sempre duvidar. Mas que mundo sujo é esse onde as pessoas vivem duvidando umas das outras? Será que eu quero viver nesse mundo? Não quero. Acredito – e invariavelmente me decepciono.

A decepção é insuportável. Me embrulha o estômago. Me faz torcer a boca, numa expressão que é ao mesmo tempo nojo e desespero. Sou uma criança desesperada ao ver o Papai Noel tirando a vestimenta: quer dizer que você não é quem dizia ser? Quer dizer que acreditei numa mentira? Pior: admirei essa mentira?!

Claro que tanta decepção me fez pensar na imagem que eu projeto para os outros e para mim mesmo. A de melhor homem, melhor amigo, melhor colega de trabalho. Talvez por isso mesmo seja insuportável quando percebo que alguém se decepcionou comigo. E que eu mesmo me decepcionei – o que não é raro. Onde errei? Por que errei? Há como consertar? E o mais importante: o erro, seja ele qual for, significa que tenho projetado uma imagem errada a meu respeito?

Não vou esperar pouco dos outros. Por uma questão de respeito. Todos que se aproximam de mim são especiais, tem dons maravilhosos, características admiráveis. Quero encontrar o melhor nas pessoas – e vou continuar nessa busca que é, sim, cheia de decepções, mas também cheia de recompensas. Afinal, se por um lado não existe nada pior do que se decepcionar com alguém, por outro lado não existe nada melhor do que ver nossas expectativas superadas.

Reflexões enquanto se lava a louça (1)

Aquele estranho momento do dia em que você descobre que acreditou em mentiras demais. E daí fica se perguntando se deve expor estas mentiras. Aquele estranho momento do dia em que você percebe que é um otário, mas um otário com um coração bom, e não sabe se deve deixar de ser otário e de ter o coração bom. Aquele estranho momento no dia em que você percebe que o tempo passou, que muitos erros foram cometidos e que, talvez, não existam desculpas o bastante para tantos erros. E nem obrigados o bastante para tantas bênçãos. Aquele estranho momento do dia em que você se dá conta de que poucas pessoas sentiram, sentem e sentirão sua falta. E que não há nada de mau nisso.

O quadro

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Quando viajei para a Europa, no ano 2000, eu estava passando por uma tremenda crise existencial e romântica. Havia acabado de me formar em jornalismo e estava ansioso por começar a trabalhar – e também com muito medo. Ao mesmo tempo, meu coração estava confuso, algo que as águas calmas de Veneza não ajudaram a aplacar.

Já no fim da viagem, em Madri, senti que várias das minhas dúvidas começavam a se dissipar. Ao passar por Barcelona sem nem ousar visitar o Museu Dalí (que ficava no caminho, em Gerona), percebi que algo estava começando a mudar. Ignorar Dalí era significativo. Final e tardiamente, eu entrava na idade adulta.

E foi assim que, sentindo-me adulto, dono de um emprego que me fora oferecido antes da viagem, senhor do meu coração dilacerado, comprei o quadro (esclarecendo: uma reprodução do quadro) Hotel Room, de Edward Hopper. Minha companhia tentou me demover da ideia, dizendo que era um trambolho que eu teria de carregar pelos próximos dias. Eu a ignorei. Aquele quadro tinha um destino.

Muito já se falou e escreveu sobre Hotel Room. Não sou especialista em arte. Nem quero ser. O que penso do quadro hoje não importa. Importa o que eu pensava quando comprei. A solidão daquela mulher dialogava não com a solidão que eu sentia na época, e sim com a solidão que sinto agora, ao escrever este texto sentado no meu sofá, assistindo a um telejornal qualquer. E curiosamente dialogava com o antídoto a essa solidão, isto é, com a amizade.

Ao voltar ao Brasil, tinha algumas reproduções na bagagem. Presenteei minha querida amiga Simone com uma reprodução de Van Gogh. O Hotel Room eu dei para uma mulher que viria a exemplificar justamente o contrário do quadro.

Só de saber da existência dessa mulher, minha vida se torna menos solitária. Nos últimos quinze anos, sempre estivemos próximos, mesmo quando estávamos distantes. Há uns dois anos, quando eu me arrastava pela casa afetado por uma terrível e perigosa depressão, esta mulher veio me visitar “apenas para bater um papo”. Como fazem as heroínas das comédias românticas que eu gosto de assistir. Que anjo!

Diz ela que a reprodução está na parede de sua casa. Quero crer. Mas, se não for verdade, não me importo. Fecho os olhos e sinto o cheiro de Madri. De repente, estou no museu, diante do quadro. Como que por milagre, os trinta dias na Europa (trinta dias complicadíssimos, acredite) ganham um propósito: levar Hopper para aquela mulher de olhos imensos e riso aberto. Que se dane o que aconteceu ou não em Paris, Viena e Veneza! A única coisa que importa é tentar fazer aquela mulher do quadro dar uma risadinha.

 

_________________________________

Por ironia dele, o sr. Destino, acho que hoje eu me transformei em grande parte na mulher do quadro. Não moro num quarto de hotel, mas quase. Tenho os ombros curvados. A luz que entra pela janela, quando entra, é difusa. A cada manhã é mais e mais difícil levantar a cabeça. E eu posso ter um livro nas mãos, mas é inútil: há muito cansei de procurar respostas nas páginas dos livros. Lá fora, os carros passam apressados. Cá dentro, o dia se arrasta. Olho de um lado para o outro e, com algum esforço, rio. Amanhã é outro dia, obrigo-me a prometer.

Muito mais do que uma nota de rodapé

florestanegra

Para Maria, cujo nome verdadeiro é outro.

No dia em que me decepciono com uma pessoa que me era muito querida, meu maravilhoso cérebro me presenteia com lembranças de manifestações de amor e generosidade. Fui mesmo um homem de sorte. (Fui). Um homem que muitas vezes não soube dar valor a mulheres incríveis que fizeram parte da minha vida. Mas nunca é tarde para tentar fazer emendas, não é?

(Provavelmente é, mas vou fingir que não).

Outro dia, aliás, estava assistindo a um dramalhão (The Notebook) e fiquei pensando no terrível destino que todos nós enfrentamos: o de nos tornarmos apenas uma nota de rodapé na vida de outra pessoa. Por mais intenso que tenha sido nosso sentimento em determinado momento, corremos este risco. Que cruel é o tempo!

O que faço aqui, pois, é dar uma visibilidade maior ao que poderia ser considerado apenas uma nota de rodapé. Eu a transformo em parágrafos. É um gesto pequeno que não traduz a importância destas memórias. Mas é uma forma de expô-las e de afirmar que minha memória é vívida e… feliz.

Neste texto, falo daquela que provavelmente foi a pessoa que mais me amou na vida (tirando a minha ex-mulher, claro). Vou chamá-la de Maria para preservar a intimidade dela. Pois eu e Maria tivemos uma relação intensa que acabou rapidamente. Durante meses, nós nos encontramos várias vezes, mas o namoro nunca foi adiante. Até hoje não sei por quê. Eu gostava dela. Ela gostava de mim. Vai ver era alguma conjunção astral. (Que droga!)

Pois um dia eu cheguei em casa e liguei para Maria. Ela, como sempre, me atendeu. Maria era uma mulher muito generosa. Não me consta que ela sentisse algum rancor. Ela podia agir com frieza e não me atender. Podia se proteger. Mas não. Maria não era assim.

Naquela noite, conversamos muito, rimos como nunca e, jovens e felizes, combinamos de nos encontrar. Foi uma noite estranha, regada a vinho e deliciosos beijos. Lembro que fazia um frio insuportável; um frio que não sentíamos. Maria foi embora na manhã seguinte.

Nós nos afastamos. Ou melhor, eu me afastei. Hoje tento me convencer que não foi por mal: eu estava atolado de trabalho e tinha acabado de sair de um namoro horrível. Mas Maria não desistiu de mim. Nunca. Seu último gesto de extrema generosidade foi um buquê de flores com um ingresso para uma peça de teatro. Ela estaria na poltrona ao lado, suponho. Mas o idiota aqui nunca foi à peça. Eu me arrependo amargamente disso.

Os anos passaram. Eu me casei e me separei. Mas jamais esqueci Maria. Maria com quem eu passei deliciosas noites conversando e tomando potes e mais potes do extinto sorvete Floresta Negra. Maria que tinha a risada mais gostosa do mundo. Maria que me contava seus sonhos e medos (era uma época de tantos sonhos e medos…). Maria cujo amor eu – tolo e imaturo – só consegui enxergar depois que era já uma impossibilidade.

Não, Maria. Eu me recuso a considerá-la apenas uma nota de rodapé na minha vida. Não. Você foi todo um capítulo ao qual recorro em dias como hoje, quando preciso me lembrar que no mundo existem mulheres generosas e apaixonadas. Quero que você saiba que, ao seu lado, me senti amado – uma sensação que jamais esqueço e pela qual anseio desgraçadamente hoje em dia.

Uma guerra superficial

1942 

Resolvi ler 1942, de João Barone. A Segunda Guerra Mundial é um assunto que me interessa e eu nunca li um relato abrangente sobre a participação brasileira no conflito. A julgar por este livro, continuo sem ler.

O livro começa errando já pelo título. Embora o Brasil tenha entrado no conflito em 1942, a FEB (Força Expedicionária Brasileira) só foi criada em 1943, no auge da guerra, e o Brasil só entrou no final do conflito, quando as forças nazistas já estavam praticamente vencidas. Na hora eu não percebi, mas o título já dava uma boa ideia da patriotada que eu teria pela frente.

Barone escreve como alguém que acabou de se formar em ciências contábeis. O que daria para relevar, se o conteúdo do livro fosse minimamente atraente. Não é. Barone tenta imitar a estrutura de sucesso de 1808, 1822 e 1889, todos de Laurentino Gomes. Mas ele só consegue falar banalidades.

Nem mesmo episódios extremamente interessantes, como a fuga do tenente Danilo Moura, merecem a atenção do escritor, cujo propósito maior parece ser enaltecer a participação brasileira na guerra. Para Barone, os pracinhas são todos heróis não reconhecidos. E a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial parece ter sido crucial para o desfecho do conflito – o que qualquer um com dois neurônios sabe que não foi.

Quando comprei o livro, não esperava ler a obra de um historiador; mas também não esperava ler a obra de um pacheco, com direito a todo tipo de patriotada possível. A participação brasileira na guerra é um assunto riquíssimo, cheio de nuances políticas e muitas histórias pessoais interessantes. Como leitor, só me resta esperar que alguém mais talentoso se debruce sobre o tema. Que tal, Laurentino Gomes?

O verdadeiro desfecho de Will e Anna

chagall

(Para deixar claro, este texto é uma declaração de amor à fantasia).

Não me levem a mal. Sempre gostei e continuo gostando de comédias românticas. Elas são contos de fadas adultos e servem a um propósito bastante digno: levar um pouco de esperança aos corações solitários nas noites frias e chuvosas de sábado. Mas às vezes, como agora, vale a pena imaginar como seria o desfecho real de uma comédia romântica (que, neste caso, não seria nem comédia nem romântica, mas o que vale é a intenção).

Para este exercício de imaginação e autoflagelação, recorro novamente àquela que talvez seja a comédia romântica mais perfeita de todos os tempos: Notting Hill. Na cena crucial do filme, Anna Scott (Julia Roberts), depois de ter pisado na bola com Will (Hugh Grant) várias vezes, aparece na livraria com um quadro de Chagall de presente e um discurso terno, afirmando ser apenas uma menina querendo ser amada. Claro que os dois ficam juntos no final.

Na vida real, esta cena simplesmente não aconteceria. Anna Scott talvez gostasse de Will. Talvez até o amasse. Mas ela jamais daria a ele um Chagall e jamais se declararia daquela forma. Ela é rica, linda e poderosa. E não lhe convém mover um dedo sequer para apostar num romance com um pobretão inglês. Não. Num filme sobre a “vida real”, Anna Scott olharia para o Chagall na parede de seu apartamento em Nova York e decidiria apenas que colocaria o quadro à venda no dia seguinte.

E, mesmo que Anna Scott realmente se submetesse ao pungente discurso da menina querendo ser amada, a reação de Will seria bem diferente. Ora, ele sofreu demais por causa dessa mulher. Que direito tem ela de aparecer com um quadro do Chagall em sua livraria e pedir para ser amada? Nenhum. Will, honesto que sempre foi, devolveria o quadro no dia seguinte, prometeria para si mesmo jamais assistir a um filme com Anna Scott no elenco e iria para casa se embebedar. Simples assim.

Todos sabemos que a vida real não é uma comédia romântica com Julia Roberts e Hugh Grant. O que é uma grande pena. Por sorte, na minha vida tive relacionamentos que me renderam enredos cinematográficos. Digamos que eu vivi comédias românticas temporárias. Ou quase isso. Porque, no fim, eu jamais fui “feliz para sempre” com a mocinha do roteiro. No fim, minhas noites sempre acabaram em autocomiseração regada a gin tônica.

Ainda assim, nas noites solitárias, frias e chuvosas de sábado, não recorro, como alguns podem pensar, a qualquer Manual do Cínico e Misógino. De jeito nenhum! Faço pipoca, sento-me no sofá, me cubro gostoso e me ponho a sonhar com aquele jardim, aquele banco e aquela Anna Scott deitada no meu colo, enquanto eu leio um divertido romance detetivesco.

NottingHill_Park

Currículo

diploma

É ridículo, no mínimo, o gosto do brasileiro pela educação formal. Tão ridículo quanto o respaldo que esta mesma educação formal encontra nas empresas e – sem surpresa alguma – do Estado. Neste cenário, o autodidata é um pária. Educação liberal é um conceito que ainda não aportou por aqui.

O resultado disso é o conhecimento de mentira, mas com diploma. Outro dia eu tive o desprazer de cair no currículo lattes de um cara aí. Fiquei pasmo. Entre os vários cursos que o pobre-diabo listava, estavam vários com cargas horárias ridículas, de 24h e 48h. Mas todos, claro, ostentado o certificado de conclusão reconhecido pelo Todo Poderoso MEC.

No começo dos anos 2000, prestes a fazer um mestrado, optei pelo autodidatismo. Intelectualmente, foi uma estratégia mais do que acertada. Profissionalmente, nem tanto. O autodidatismo me deu e me dá todo o conhecimento do mundo. Mas, ao que parece, o certificado do MEC rende trabalho e dinheiro. Além de prestígio numa sociedade que insiste em valorizar os canudos.

Eis que eu pergunto: e se eu resolvesse colocar no meu currículo atividades que certamente me instruíram mais do que os quatro anos de universidade, mas pelas quais não recebi diploma? Os vários jantares e cafés da manhã com Millôr Fernandes. Os vários encontros com Geneton Morais Neto. Os porres com Sérgio Rodrigues e Fernando Molica. A viagem de mochileiro pela Europa. Sem contar os livros que li. Será que meu currículo seria apreciado?

Esse amor pela educação dos diplominhas caros lota bancos escolares por aí, mas não garante pessoas realmente educadas. Aliás, basta meia hora de conversa com muitos mestres e doutores para descobrir que eles não sabem nem que descobriu o Brasil. Neste ponto, e com raríssimas exceções, sou radical: somente a educação liberal e o autodidatismo salvam. Só eles são capazes de dar às pessoas o conhecimento de que realmente precisam, o conhecimento pelo qual são apaixonadas.

Não me entendam mal. Nada tenho contra cursos reconhecidos pelo MEC. Alguns podem até ensinar algo que preste mesmo. O que estou querendo dizer é que não podemos ficar restritos a este tipo de educação. Do contrário, corremos o risco de criar uma geração de gênios idiotizados: sábios extremamente capazes de fazer um plano de negócios, por exemplo, mas incapazes de se sentar numa mesa de bar e conversar em alto nível sobre futebol, política, religião ou sexo.

_______________________________

* Claro que em carreiras técnicas, como a medicina, o conhecimento formal é necessário. Eu jamais iria a um médico autodidata. Se bem que, pensando bem…

** Millôr Fernandes dizia que uma pessoa culta não é aquela que sabe tudo; a pessoa culta é aquela que sabe onde procurar a resposta para determinada pergunta. Algo que, evidentemente, não se aprende nos cursos de MBA.

O decálogo Hugh Grant

hughgrant 

[CONTÉM SPOILERS]

 Numa cena decisiva de Notting Hill (1999), Anna Scott, personagem de Julia Roberts, visita Will (Hugh Grant) na livraria dele e lhe dá de presente um quadro de Chagall. É o ponto crucial de um romance intenso e conturbado. Antes disso, Anna Scott brincou com o coração de Will: escondeu dele o romance com outro ator, xingou-o de tudo e mais um pouco depois de um mal-entendido e, por fim, o desprezou durante um diálogo com um colega de profissão.

Dotado de uma qualidade rara, a mesma prudência que pode ser confundida com covardia, Will a princípio recusa a investida final de Anna Scott. Ele sofreu demais e acha que é melhor não se envolver. Mas Anna o ama – e ali está ela de pé na livraria, pedindo para ser amada. Will diz não. Mas é claro que ele vai mudar de ideia até o fim do filme.

Com base nesta cena que mistura várias coisas importantes como razão & sensibilidade e orgulho & preconceito (sic & sic), eis que elaborei o Decálogo Hugh Grant. Ele serve para todo mundo cujo romance se encontra num impasse e também para todo mundo cujo romance não se encontra num impasse, mas provavelmente se encontrará num impasse num futuro próximo ou não. E, ao mesmo tempo, talvez seja completamente inútil para todas as pessoas que não a leitora que eu quero convencer.

(Aqui vale a pena uma historinha sobre a entrega do Decálogo: numa noite de segunda-feira, o Profeta Insone olhava atentamente para uma parede branca quando ele, Deus ou o Grilo Falante, se manifestou na forma de uma série de miados, dizendo: “Vais abrir o computador, vencer o sono e a preguiça, escrever e publicar estas Regras de Salvação. Agora, seu preguiçoso! Do contrário, vais usar mesóclise até o fim dos tempos”.)

O DECÁLOGO HUGH GRANT

 1. Se a pessoa que você ama estiver lhe escapando por entre os dedos, visite-o(a) e lhe dê de presente um quadro do Chagall. (No meu caso, aceito Turner mesmo).

2. Jamais use a razão no princípio de um relacionamento. Em hipótese alguma! Jamais use a razão no meio de um relacionamento. Em hipótese alguma!

3. Use a razão somente no fim de um relacionamento.  Sempre!

4. Se ele(a) estiver ligando insistentemente no meio da madrugada, atenda. Pode ser uma emergência, mas também pode ser apenas que ele(a) esteja querendo dizer que a(o) ama.

5. Diga tudo o que sente (“Princípio Oopsy Daisy”). Lembre-se sempre de que a outra pessoa precisa ouvir. Não seja muquirana e não economize nas palavras.

6. Mas lembre-se: tudo o que disser será verdade. Jamais diga coisas como “Quero ter uma vida ao seu lado”, “Não consigo imaginar minha vida sem você” e até mesmo “Eu te amo” sem ser sincero. A outra pessoa pode acreditar.

7. Não use eufemismos. Dizer que gosta de uma pessoa não é o mesmo que dizer que a ama, respeita, admira ou que é apaixonado(a) por ela. Gostar é um verbo destituído de afetividade. (Por ex., “eu gosto de pizza”).

8. Se você acreditar que é destino, provavelmente é mesmo. (“Princípio Sleepless in Seattle”).

9. Se o relacionamento fracassar, aceite o fato com um sorriso (“Princípio Julia Roberts”), ofereça a amizade e jamais, nunca, em hipótese alguma, se arrependa.

 

e

 

10. Jamais dê um passeio de carro com uma mulher chamada Divine Brown.

Apenas mais um anjo caído

anjo

Era um homem bom. Talvez até dissessem que era um homem excelente. Muitos prezavam por seu espírito crítico, humor ácido, sorriso farto e completo desinteresse pelas coisas mundanas. Alguém que o conheceu naquela época disse que ele tinha uma semelhança até física com um anjo Um anjo meio depravado, é verdade, mas ainda assim um anjo.

Daí, de repente, tudo mudou. A depravação prevaleceu sobre o caráter. O anjo caiu em desgraça consigo mesmo e nem percebeu. Existe castigo maior do que se olhar no espelho e não ver o próprio ridículo? Juízes eram desnecessários: bastava ele abrir os olhos todas as manhãs para cair em desgraça. E andar de cabeça erguida pela rua, indiferente ao riso de escárnio dos outros.

Apenas um amigo fiel, ainda que distante, se perguntava por que aquilo aconteceu. A resposta era simples e óbvia, mas não menos surpreendente. O homem bom, talvez até excelente, embriagou-se de vaidade e se deixou levar pelo canto de sereias dúbias. Não foi o primeiro; não será o último.

(Aos poucos o amigo fiel não aguentou e lhe deu as costas. Atualmente engrossa o coro das risadas de escárnio. Mas, no fundo, aproveita o exemplo para refletir sobre a queda e a submissão de certos homens ao aplauso fácil das massas. Tempo perdido, talvez).

Hoje em dia, quem vê o anjo caído ri. Lá está ele de mãos dadas com todas as ideias equivocadas que povoam o mundo. Orgulha-se de citar o nome dos medíocres como se fossem gênios. Tudo na esperança (concretizada, claro) de que lhe retribuam o favor. Ele é, pois, gênio entre os medíocres, digno de aplausos incessantes, gritos histéricos e um e outro beijo na boca.

Beijos, aliás, que ele busca como se fossem vitais. Meu Deus, quando foi que ele perdeu a noção das coisas?! No fundo, o anjo caído não passa de um menininho envelhecido, desesperado com o passar do tempo, náufrago batendo as pernas desesperadamente em busca do ar empestado de lascívia.

A mim, apenas observador boquiaberto, consola saber que os anos passarão e que, com sorte, o pobre-diabo perceberá que os aplausos não significavam nada e que as bocas eram absolutamente fúteis. Talvez no seu leito de morte ele tenha a decência de pedir desculpas. Não para mim, claro, e sim para ele mesmo.

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Sim, este é um texto criptografado, cheio de nuances que só eu e algumas pessoas próximas entenderemos. Desculpe. Às vezes é preciso destilar esta raiva que se acumula na garganta. Xô de mim, câncer.

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