Estranha vida real
Estou há dois dias sem tuitar. O que é muito, muito estranho. Não posso negar que nas últimas 48 horas vivi uma vida bem diferente. E não só por causa da gripe que me acomete. O efeito mais evidente disso está na minha produtividade estratosférica como tradutor. Mas não só. Tenho terminado meu trabalho mais cedo e, por consequência, estou com mais tempo livre para fazer outras coisas. Aqui é que a porca começa a torcer o rabo: como dediquei boa parte do meu tempo nos últimos anos à vida virtual, não há muito o que fazer com este tempo livre.
Mas o mais estranho de se estar ausente do Twitter é saber da existência de toda uma comunidade em torno dele. Às vezes me sinto deslocado, como se estivesse deixando escapar uma novidade imperdível. A sensação é um bocado parecida com o que eu sentia há uns dez anos se não conseguia assistir a um filme do Woody Allen na estreia. Ou quando perdia a peça mais badalada do Festival de Teatro de Curitiba. É uma sensação enganadora de se estar perdendo algo essencial. Mas, racionalmente, sei que não é nada essencial.
Outro fator de complicação nesta história é que trabalho sozinho e em casa. Quando perguntado, eu defendia minha presença, digamos, ostensiva no Twitter alegando que ele garantia minha sanidade mental e um mínimo de comunicação com pessoas durante o dia. O que é e não é verdade. Basta eu ir na esquina para interagir com pessoas.
Por fim, o efeito mais devastador do Twitter: o raciocínio conciso ou enxuto, limitado a 140 caracteres. Eu me dei conta disso depois de ouvir Stephen Fry dizer que o Twitter o fazia pensar em 140 caracteres. O mesmo estava acontecendo comigo. Antes de dormir, minhas reflexões eram curtinhas: não passavam de 140 caracteres. Andando na rua, a mesma coisa. No banho, idem.
Concisão é boa em algumas circunstância, mas péssima em outras. Não me admira que não estivesse conseguindo escrever reportagens ou romances: eu estava (estou?) condicionado a resumir tudo a 140 caracteres.
Não quero, com isso, demonizar o Twitter. Nada disso. Só estou dizendo que, no meu caso, tive alguns prejuízos tanto na vida profissional quanto na pessoal por conta da interação exagerada com uma tela de computador. E agora estou passando por um curioso processo de desintoxicação, para descobrir que existem vida fora da tuitosfera. Confesso que me sinto um pouco ridículo afirmando isso. Mas.