Tão-somente

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Tão-somente andava acabrunhada, os ombros curvos, uns olhos que sugeriam choro recente. Não saía mais de casa e seu limite no cartão de crédito estava quase estourado por causa dos pedidos no iFood. Alguém tinha que ir lá, puxar Tão-somente pelo braço, perguntar a ela o que aconteceu, porque alguma coisa aconteceu, e lhe dizer a única coisa que se pode dizer nessas horas: vai passar.

Eu fui. E a encontrei exatamente como o leitor imagina: Tão-somente estava sentada no sofá, usando calça de moletom e uma camiseta folgada sob uma coberta felpuda que lhe fazia as vezes de afeto. Ao me ver, ela abaixou a cabeça, envergonhada. Naquele gesto, entendi tudo, mas mesmo assim quis saber dos detalhes, porque sou alguém curioso, quando não enxerido. Queria detalhes, em parte por perversidade, reconheço, mas em parte porque sabia que os detalhes fariam com que Tão-somente olhasse para si e, com alguma sorte e um quê de pieguice, renascesse.

Ela contou e não me surpreendi. Andava Tão-somente na rua com o Autor Apalermado, o Tão ornado com umas maquiagens caras, o hífen envolto em rendas chinesas feitas à máquina, mas que queriam ser francesas feitas à mão, e o somente que balançava de um lado para o outro, exalando lascívia. E assim os dois, Tão-somente e Autor, passeavam nos finais de semana, depois do amor matinal e antes do vespertino. Às vezes ele lhe dava uma flor; às vezes ela lhe dava uma revista do Pato Donald. Estavam inegavelmente apaixonados – era o que diria qualquer detetive macabro de romance noir.

As andanças, contudo, se tornaram tão frequentes que começaram a importunar quem ali estivesse para testemunhar o amor colorido demais, felpudo demais, cremoso demais. Houve quem vomitasse ali na esquina mesmo ao ver, pela centésima quadragésima vez, o Autor Apalermado entregar a Tão-somente a mesma rosa comprada da mesma vendedora com cara de enfado e o mesmo espinho a lhe furar o dedo rechonchudo.

Tão-somente, então, entregava ao Autor Apalermado o dedo suculento, que ele sorvia como cavalheiro de outras eras. Sem perceber que ali, naquele momento, enamorado de Tão-somente, ele sem querer prestava homenagens ao demônio do ridículo.

Coube à Editora Severa, num dia assim como hoje, chamá-lo num canto e fazer o alerta. Tão-somente estava lhe consumindo a dignidade, o respeito, a admiração, essas coisas todas que o Autor Apalermado exibia no peito como broches do Clube da Vaidade. Tão-somente, com o tão tão maquiado, o hífen vulgar e barato, e o somente que não lhe negava a baixa origem. Fosse antes uma Apenas ou ainda uma Meramente. Mas Tão-somente era tão-somente uma tão-somente, indigna do Autor Apalermado, disse a Editora Severa.

E por mais severa que fosse, o Autor sabia que ela tinha razão. Lembrou-se de imediato, quase sem querer, como se a lembrança fosse um espirro daqueles que não dá para segurar, de quando andava para cima e para baixo com Todavia – e sua fala assobiada que mais tarde virou motivo de riso nas rodas com os amigos.

“E foi tão-somente por isso que ele não quis mais saber de você?”, perguntei a uma Tão-somente mergulhada num pote de sorvete.

Ela não precisou responder.

No dia seguinte, houve a tragédia. A tragédia que me traz a essa confissão tão cheia de culpa e remorso. Se ao menos eu não tivesse ido até a casa de Tão-somente para lhe dizer que eram belos o tão, o hífen e o avantajado somente. Se ao menos eu a tivesse deixado lá com o sorvete sabor abandono, assistindo a mais uma reprise de Law & Order SVU. Se ao menos eu não tivesse mentido, dizendo que ela era linda e poderosa e outros adjetivos assim exagerados que as pessoas usam diante do espelho para se convencerem de que são mais do que simples pessoas, de que são purpurina.

Se ao menos eu tivesse calado a minha boca, Tão-somente não teria saído de casa no dia seguinte para encontrar o Autor Apalermado na rua, de mãos dadas com uma soberana Apenas, os cabelos curtos na altura da nuca, muito pretos e muito elegantes; o nariz cheio de arrogância e a boca num sorriso tímido que era pura sensualidade. Apenas era advérbio de alta estirpe, aristocrata de origem remota. Contra Apenas, Tão-somente só podia fazer o que fez.

Ela saiu correndo, gritou meia-dúzia de palavrões que chocaram os ali presentes, fez ameaças que não faziam sentido, se jogou no chão, rezou, prometeu o que não tinha, cobrou o que o Autor Apalermado não lhe devia e, no auge do desespero, pediu:

“Me apaga”.

Foi o que o Autor Apalermado, num gesto de cruel caridade, se é que isso é possível, fez. Soltou a mão de Apenas que, alheia a tudo, contava quantos likes tinha no Instagram, sacou do bolso o Backspace que trazia preso a uma correntinha de ouro, e com toda a calma do mundo, como se fosse normal, como se a ele coubesse decidir sobre a existência ou não daquela criatura patética diante de si, começou a apagá-la de trás para frente.

Ao primeiro golpe, o “e” caiu no chão com um baque seco. Por sobre ele caíram o “t” e o “n”, e o outro “e” saiu rolando pela rua e caiu num bueiro. Sem demonstrar qualquer sentimento que não o de dever a ser cumprido, o Autor Apalermado deu mais um golpe e viu o “o” e o “s” e o hífen formarem já uma poça de letras na calçada. Ele parou para recuperar o fôlego, olhou em volta para ver se alguém o admirava, mas não, claro que não, nunca ninguém o admirava nessas horas, e com três movimentos cadenciados apagou o “o”, o “a” e o “t”.

Restou o til, que ele soprou e que saiu voando até pousar sobre um janelão.

Tão-somente, reduzida tão-somente a um amontoado de letras (sem o til), viu seu sofrimento se perder no Universo.

Apenas ajeitou os cabelos, riu sedutoramente, estendeu a mão para o Autor Apalermado e disse aquilo que todo homem sonha ouvir:

“Vamos embora daqui. Antes que surja um Entretanto para estragar tudo”.

Vida mesmo, com vê maiúsculo

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Hoje eu acordei certo de que iria passar boa parte do dia escrevendo a respeito da absurda decisão da Justiça de proibir comemorações do Golpe Militar de 1964. Mas daí.

Mas daí eu resolvi dar uma volta na tradicional Feirinha do Largo da Ordem, também conhecida como o Inferno Curitibano. Só para olhar a vida, sabe como é? Aí passei na banca de um amigo filatelista e estava todo animado vendo postais antigos quando resolvi comprar o Olho de Boi – o segundo selo mais antigo do mundo! E ao realizar esse sonho de infância eu meio que percebi que, se falasse o que tinha para falar sobre a Justiça e o golpe e Bolsonaro e essa tralha toda, provavelmente gastaria todo o meu parco latim para ser mal-entendido em minha defesa simples da liberdade.

Já com o Olho de Boi na sacola e imaginado como eu o exporia, desci o Largo da Ordem rumo ao Cavalo Babão e lá me deparei com alguns senhores e senhoras de preto, ostentando cartazes com “DITADURA NUNCA MAIS” e “LULA LIVRE” e gritando “Marielle Presente!” e outros slogans do gênero. Num domingo. De sol. Antes mesmo das dez horas da manhã.

E me lembrei do menino de dez anos que fui um dia. O menino que, sem autorização da mãe e sem entender direito o sistema, comprou revistas de filatelia por Reembolso Postal. O menino que achava que um Olho de Boi valia tanto quanto um carro, uma casa, um iate! O menino que jamais imaginou um dia ter de gastar seu latim para defender algo tão óbvio quanto a liberdade de alguém defender uma ideia – por mais equivocada que essa ideia seja.

À minha volta, turistas, atores com camisetas do Festival de Teatro, sotaques diferentes com camisetas do Paul McCartney. Todo mundo com algum comentário sobre os infinitos e quase sempre inúteis produtos da feirinha. Imagine isso na nossa sala? Que tipo de gente usa uma coisa dessas? Olha aquilo, que horrível! Nossa, lembra quando isso era moda?

Todos olhando, pensando, fazendo um zilhão de referências mentais para justificar para si mesmo a compra ou não de um badulaque qualquer, estudando mais um pouco, pechinchando, pedindo para parcelar, pagando, recebendo, embrulhando, contabilizando mentalmente se o capital investido vale a pena.

Ou seja: vivendo o milagre que só é proporcionado pelo capitalismo atrelado à liberdade. O milagre a que chamamos simplesmente de vida. Vida mesmo, digo. Vida com vê maiúsculo.

Aí eu tive vontade de ir lá até as pessoas que falavam de ditadura e pedir que elas olhassem em volta e olhassem para si mesmas e olhassem para frente, para tudo de bom que com certeza vai acontecer se elas deixarem de olhar obsessivamente para o passado, se perdoassem o que aconteceu e que não cabe a elas reparar, simplesmente porque não há reparação capaz de satisfazer o infinito ressentimento histórico.

Mas não fui, claro. Porque tive medo de ser identificado como o Grande Inimigo da Liberdade ou como o lambe-botinas que evidentemente não sou. Pior: temi ser visto como um patriota. Logo eu, que não vejo nenhuma diferença entre os homens que vivem do lado de cá e do lado de lá da fronteira (qualquer fronteira).

Temi ser visto como qualquer coisa diferente do que eu era naquele instante: um menino de quarenta anos munido de um Olho de Boi, sentindo o sol queimar deliciosamente sua careca, ouvindo a anarquia de conversas, inalando odores de cem mil tipos de incensos e duzentas mil marcas de desodorante, enfim, absorvendo a vida  – vida mesmo, com vê maiúsculo – ao redor de si.

E imediatamente perdi a vontade de escrever que a liberdade de expressão pressupõe também a liberdade de ser canalha, de expressar a canalhice, de defendê-la, de propô-la e de, com alguma sorte, vê-la se transformar em motivo de riso e escárnio. Desisti de mencionar a liberdade de expressão como cláusula pétrea da Constituição – e de dar um jeito de dizer que essa cláusula foi esculpida em pedra-pomes. Abdiquei de ser elogiado pelo meu bom-senso por meia-dúzia e incompreendido por meu evidente adesismo ao neofascismo tupiniquim por dúzias de dúzias.

Agora o Olho de Boi está devidamente pendurado na parede da minha casa. E eu estou de pé diante de dele, admirando aquele pedacinho de papel que deve ter uns cento e cinquenta anos. Imaginando o que dizia a carta da qual um dia ele fez parte. Quem era o remetente e quem era o destinatário. E qual a reação deles se eu lhes dissesse que, cento e cinquenta anos depois daquela carta, as pessoas (algumas) desperdiçariam a manhã do domingo para lutar contra moinhos de vento, ignorando a liberdade e a abundância ao redor de si.

Se esparrama pelo chão

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Tive o prazer imensurável, inenarrável e inesquecível de ler o manuscrito de “Se Esparrama Pelo Chão”, segundo volume da aguardada Tetralogia da Batata, do poeta, ensaísta, dramaturgo, mecânico e, só por acaso, meu amigo Hugo Peretti. Trabalhando oito horas por dia numa ancestral máquina de escrever, ouvindo Leandro & Leonardo e parando aqui e ali para ir ao banco ver se, nas palavras dele, “pingou mais um dinheirinho” proveniente de seu incrível livro de estreia, “Batatinha Quando Nasce”, Peretti espera concluir a tetralogia daqui a dois ou três anos.

“Batatinha Quando Nasce” vendeu trezentas e cinquenta e duas cópias e, embora não tenha chegado ao tipo da lista dos mais vendidos, durante vinte vezes ocupou o honroso segundo lugar, atrás apenas do não menos genial “Mamãe pro cafezá” (conhecido em alguns lugares pelo título alternativo de “Mamãe foi trabaiá”), de Vânio Karlos. Como Vânio Karlos não vai com a minha cara, porém, e está me devendo uma cerveja, sou obrigado a dizer que seu livro é uma bosta, mesmo não sendo.

Mas voltemos ao “Se Esparrama pelo Chão”, que é o que importa. Se você se emocionou, no primeiro livro da tetralogia, com a saga da Batatinha que nasceu numa plantação no interior de Santa Catarina, e tenho certeza de que você chorou muito, a não ser que você não tenha um coração, eu o aconselho a ir preparando a garrucha velha para cometer suicídio, porque “Se Esparra pelo Chão” é, como o próprio título indica, um soco no estômago, no fígado ou no queixo, o que doer mais.

A história gira em torno da infatigável Batatinha que, tendo nascido, agora passa inacreditáveis cento e vinte páginas se esparramando pelo chão. O talento de Peretti é tamanho que nem nos damos conta do esforço necessário para realizar tal empreitada. Ele se inspira nos épicos gregos, romanos, hindus e até nos obscuros relatos de guerreiros urdus para compor uma epopeia de apelo universal. Já na primeira página você, leitor, percebe que é a Batatinha, que você nasceu e que agora não há o que fazer se não se esparrar pelo chão.

A força poética da prosa dramatúrgica de Hugo Peretti é tamanha que gerou até um problema na editora que tem a honra de publicá-lo. Dois funcionários que estavam na empresa há vinte anos se engalfinharam numa luta insana, um tirando sangue do outro e sem que nenhum vencesse realmente a contenda, depois de uma acalorada reunião na qual um deles ousou propor que o livro fosse intitulado “Espalha a Rama pelo Chão”. Por fim, a questão foi resolvida por sorteio e o funcionário que havia iniciado a dissidência acabou por se matar. Que Deus o tenha.

Como sou uma pessoa importante, influente e manipuladora, consegui convencer o grande Peretti a me adiantar algo sobre seu trabalho futuro. Bêbado e na sarjeta, como é adequado a um gênio, ele me confidenciou que suas ideias ainda estão um tanto quanto confusas, mas que provavelmente o terceiro livro da tetralogia traga uma reviravolta na história da nossa querida Batatinha (tão querida que deve receber o título de Patrimônio Imaterial do Brasil até o fim do horário comercial). “Não posso adiantar muita coisa. Primeiro porque não quero e depois porque não sei direito. Mas é bem possível que no próximo livro haja uma menininha ou criancinha ou qualquer coisa polêmica assim. Sabe como é, eu gosto de surpreender”.

“Se Esparrama pelo Chão” será lançado no próximo dia oito, às dezesseis horas, no Estádio Couto Pereira. Não há ingressos disponíveis, mas se você quiser eu arranjo um para você.

A valsa perfeita de Antônio Callado

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Antônio Callado estava um pouco esbaforido ao final da valsa. Mas as pessoas aplaudiam e aplaudiam mais e não paravam de aplaudir, o que o fez se esquecer do cansaço. Ele sentiu uma pontada nos fundos dos olhos e pensou que era ridículo a um homem chorar naquela ocasião,diante de tanta gente importante, diante, meu Deus, de Paulo Francis, mas a dor era maior do que qualquer argumento contrário e, sem que ele desse permissão, uma maldita e deselegante e, sinceramente, cafona lágrima escorreu por seu rosto branco demais.

Alheio aos aplausos e ao comentário aqui e ali do apresentador, ele olhou para o lado e novamente se espantou com o sorriso de Simone de Beauvoir. Era o ângulo ou o tom nicotineado dos dentes ou o hálito. Ou talvez o sorriso refletisse o decote, o abismo entre os dois seios muito rosados, por onde escorria uma maldita e deselegante e, sinceramente, cafona gota de suor. Antônio Callado se perguntou rapidamente por que estava ali, mas não teve tempo de responder. Faustão lhe apontava um microfone ameaçador e o auditório havia caído naquele silêncio cheio da tensão que sempre se sucede à Pergunta.

– Não sei – respondeu Antônio Callado, falando a verdade, sempre a verdade, que sentido há em mentir?

– Ô, loco, meu! – disse Faustão, sem insistir e saindo para seu canto no Universo. A plateia riu e Antônio Callado ficou mais tranquilo. De alguma forma, o que ele disse não só fez sentido como pareceu agradar a todos. Era uma sensação agradável, pensou Antônio Callado, ou melhor, começou a pensar, porque logo ouviu a voz de Paulo Francis e algo dentro dele lhe gritou que era melhor prestar atenção.

– Sabe, Toninho. Posso te chamar de Toninho? –  perguntou Paulo Francis.

Antônio Callado ia responder que não, claro que não, de jeito nenhum!, ele era Antônio e era Callado, mas não era homem de ficar quieto diante do mau-gosto vulgar de um apelido tão depreciativo, algo indigno de seu estilo nobre e até aristocrático, como apontou sabiamente Wilson Martins.

– Pô, Paulinho. Claro que não, fio. Antônio Callado não é homem de apelidos, e sim de títulos nobiliárquicos, uai – disse Guimarães Rosa, evitando que Antônio Callado soltasse o xingamento preso em sua garganta: “teu cu!”.

– O, loco, meu! – disse Faustão,e todos riram, menos Simone de Beauvoir, que não entendeu a piada.

– Então, tá. Me desculpe, Antônio Carlos Callado. O que eu queria dizer é que o que vi foi maravilhoso. Coisadigna de Fred Astaire, de Nijinski, algo assim. Waaall. Minha nota…

E só então Antônio Callado se deu conta de que todos os demais jurados, inclusive Lou Reed, já tinham dado nota para a apresentação dele. E mais: todos deram nota máxima. Salvador Dalí chegou até a dizer que aquela valsa o transportara para a Idade Média, arrancando risos do Isaiah Berlin ali do lado.

A nota de Paulo Francis, portanto, determinaria a vitória ou derrota da dupla. Simone de Beauvoir parecia ter deixado de respirar. Ela ouvia cada palavra de Paulo Francis como se fosse uma tese fenomenológica do saudoso Sartre. Antônio Callado achou melhor voltara prestar atenção ao que dizia o Francis.

– …e acho que vocês, principalmente você, Antônio Callado, emocionaram essa plateia linda com uma demonstração de força e superação. Que se dane Isadora Duncan. Nota… _ As reticências pairaram no ar. Logo Antônio Callado percebeu que era um gesto teatral, operístico no pior sentido da palavra, um artifício fácil combinado entre Faustão e Paulo Francis: suspense.

– Qual sua nota, Paulinho?! Atenção! Dezenove horas e quarenta e dois minutos. Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, sócio antigo aqui, o marido da Sônia, vai dar a notaque pode decidir a dupla campeã. Qual a sua nota, Paulinho?!

– Eu sinto muito decepcioná-los, mas…

Antônio Callado se percebeu tenso. E, no espaço entre uma e outra reticência, encontrou a palavra exata para terminar aquela frase daquele trecho daquele capítulo daquele livro. Tomara que ele não esqueça.

– Vamos, Paulinho! A direção tá me azucrinando aqui no ouvido!

– Nove vírgula…

“Putaquepariu!”, pensou Antônio Callado. E putaquepariu era mesmo uma palavra melhor do que aquela na qual eletinha pensado antes.

– Que nove, o quê?! Para você, tudo, Toninho. Dez!

Em meio à chuva de papel picado, Antônio Callado se virou para Simone de Beauvoir e a abraçou, compreendendo finalmente também o ser, mas sobretudo e irremediavelmente o nada.

41

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Quarenta e um anos hoje.

Para a maioria das pessoas, é uma idade normal e até matematicamente lógica para um homem que nasceu em 1977. Para outras é o início da decadência, a aurora da experiência, ou qualquer outra coisa assim. Para minha mãe é o dia de ela me ligar e dizer: “a essa hora eu estava no hospital”. Para as ex-namoradas é dia de se perguntar: “por onde anda aquele idiota que completa quarenta e um anos hoje?”

Para mim, é uma idade especial. Só porque eu quero e a Wikipédia me diz. Quarenta e um é o 13º menor número primo. E é a soma dos seis primeiros números primos, além de ser o 12º primo supersingular – o que quer que seja isso. Quarenta e um é tão bom nessa coisa de ser primo que merece um nome para si: número de Newman-Shanks-Williams. NSW, para os íntimos. E é mais um monte de coisas que eu simplesmente não tenho conhecimento matemático o bastante para traduzir numa linguagem coloquialmente agradável (a soma da soma dos divisores dos sete primeiros integrais positivos).

Quarenta e um é também o número atômico do nióbio – achei que você fosse gostar de saber. O nióbio, que já foi chamado de colômbio, foi descoberto em 1801, pelo inglês Charles Hatchett. O Brasil tem a maior reserva de nióbio do mundo. Nióbio, aliás, é Níobe na mitologia grega. Filha de Tântalo, casado com Dione, neta de Zeus e da princesa Plota. Níobe também era esposa de Anfião. Muito fértil, Níobe teve catorze filhos que ficaram conhecidos como nióbidas. A deusa Leto, ofendida por umas palavras de Níobe, mandou matar as sete filhas da mulher. Zeus ficou com peninha dela e a transformou numa rocha que vertia água constantemente.

Na música, a Sinfonia 41 é a mais longa e a última composta por Wolfgang Amadeus Mozart. Dave Matthews Band, que eu nunca ouvi, também tem uma música chamada #41. Bruce Springteen, de quem sou fã, compôs uma música chamada American Skin, sobre um imigrante morto pela polícia com 41 tiros. Nunca ouvi a música. Nem estou a fim – não insista.

No cinema, tem um filme soviético de 1956 chamado o Quadragésimo-primeiro, dirigido por Grigory Chukhray, com Izolda Izvitskaya, Oleg Strizhenov e NikolayKryuchkov. O filme conta a história de um romance inusitado entre uma atiradora de elite do Exército Vermelho e um oficial do Exército Branco. No Brasil, o filme foi lançado também com o nome de A Guerrilheira. Será que tem torrent?

No mundo dos esportes, Sir Roger Banniester ostentava o número quarenta e um ao romper a barreira dos quatro minutos ao correr uma milha, em 1954. O recorde atual é de Hicham El Guerrouj, com o tempo de três minutos, quarenta e três segundos e treze centésimos. E, sim, eu adoro escrever números por extenso. É minha parafilia. Me deixa.

No ano 41 aconteceram várias coisas interessantes – como acontece em todos os anos. Cláudio se tornou Imperador de Roma e Sêneca foi mandado para o exílio na Córsega. Neste ano Calígula, aquele, foi assassinado. Na Ásia, um tal de Imperador Guangwu depôs a esposa, colocando a amante no lugar. Foi também nesse ano que os cristãos começaram a se chamar assim, sobretudo em Damasco e Antioquia (que eu jurava que era Antióquia).

Quarenta e um é também o código de DDI da Suíça e o DDD de Curitiba. George Bush, que acabou de morrer, foi o quadragésimo-primeiro presidente norte-americano – o que espero que não seja nenhum sinal dos Céus. E, por fim, cuarenta y uno é gíria para homossexual no México. O que me leva a crer que, se eu fosse mexicano, seria alvo de piadinhas ao assoprar as velas do bolo.

Tudo isso para dizer que faço quarenta e um anos hoje. Rumo ao terceiro número primário semiperfeito, aquele que, em O Mochileiro das Galáxias, é a resposta para a vida, o Universo e o tudo.

Escrever é dois-pontos

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Escrever é estar quase dormindo, quase mesmo, naquela fronteira entre o despertar e o sono que nada mais é do que uma versão cotidiana da fronteira entre a vida e a morte, só que mais barulhenta por causa do cachorro do vizinho, ter uma ideia, uma coisinha à toa que atravessa sua visão de olhos fechados, se vira para você e manda beijinho antes de se transformar num monstro, uma ideia que nem é tão bonita assim, você pensa, enquanto ela lhe mostra os seios e diz vem, seu safado, vem me comer todinha, rir um risinho entre o infantil e o pervertido para o quarto escuro, se levantar meio cambaleando ao som das molas ensacadas, o que quer que seja isso, beber água do copo estrategicamente deixado no criado-mudo, pensando na tragédia que seria derramar água sobre o Kindle ou o livro ou o caderninho no qual você anota as ideias, mas não essa, porque essa é grande demais e você tem preguiça e os dedos doem ao escrever, meu Deus, como é possível que quando criança eu escrevesse tanto e os dedos não doessem?, dar o primeiro passo e cogitar voltar para a cama quentinha porque a ideia não vale tanto assim, mas vale, mas talvez valha, mas ninguém vai ler, mas alguém vai ler, mas pelo menos seu filho vai ler, droga!, ouvir o vento uivando e se enojar diante do lugar-comum, e ouvir e a ele conferir beleza, ao vento, digo, não ao lugar-comum, dar outros passos tomando o cuidado para não bater com o joelho na quina da cama nem acordar a mulher que ronca o delicado ronco feminino, abrir a porta bem devagar, falhando miseravelmente porque as dobradiças estão com algum problema, preciso passar lubrificante, já passei, não adiantou, talvez amanhã eu ligue para alguém vir resolver isso, talvez não, não, fechar a porta na esperança de que as dobradiças percebam o quanto incomodam e irritam com suas lamúrias de metal, ganhar a escuridão da sala e evitar olhar para os espelhos por causa daquele filme de terror a que você assistiu há três semanas, mas não esqueceu, se sentar na cadeira desconfortável e pensar que precisa comprar uma boa cadeira, sempre comprar, comprar, comprar, caramba, você não consegue viver sem comprar?, Shakespeare provavelmente escrevia sentado num monte de feno, seu idiota, deixe de ser mimado, abrir o computador, ligá-lo e esperar e amaldiçoar Bill Gates num momento só para se maravilhar diante da máquina que tudo contém e da possibilidade de acrescentar uma partícula toda sua a esse infinito, se apavorar diante da possibilidade de ter se esquecido da ideia, procurá-la nos bolsos do pijama e se dar conta de que está sem pijama, se aliviar ao descobrir a ideia agora tatuada em alguma parte remota do cérebro, fechar os olhos diante do branco da tela e rir um pouquinho da escritora chata que insistia em dizer que sofrer é escrever ou escrever é sofrer, uma ova!, puxar o teclado para perto e digitar demoradamente o ê, o esse, o cê, o erre, o ê de novo (ou seria “é”?), o vê, o ê e o erre mais uma vez e finalmente a barra de espaço, e rir satisfeito da obra pronta e salvar no disco rígido e na nuvem, rezando para que não haja uma explosão solar daquelas capazes de apagar todos os dados armazenados nos discos rígidos do mundo e voltar a dormir com a esperança de ter feito alguém rir, chorar ou, no mínimo, se irritar porque ao texto faltam pontos-finais, exceto por este.