Um texto de merda

Eu me lembro da primeira vez que comi merda.

Foi meio por acaso, durante uma visita a um amigo de um amigo de uma amiga de uma moça que eu namorava na época. Daniel, este era o nome do moço. Muito viajado, instruído, culto, filho de usineiros paulistas, supostamente homossexual, metido a enófilo num dia, especialista em comidas exóticas no outro, Daniel chegou perto de mim com um pratinho da hoje famosa Merdopará – temperada com restinhos de açaí e castanha, com toques de tacacá e tucupi.

Achei que ele estivesse brincando – uma brincadeira de extremo mau gosto. Na época eu já trabalhava como crítico gastronômico e, por isso, confesso envergonhado hoje, achei que Daniel estava me insultando com o prato de Merdopará. Me levantei todo machinho do meu lugar, fechei o punho e fiz a melhor cara de mau que conseguia àquela hora da madrugada. Daniel não se impressionou com minha valentia repentina, deu de ombros e, antes de se virar e ir embora, disse simplesmente que eu era idiota e não sabia o que estava perdendo.

E eu era e não sabia mesmo! Ao ver Daniel se afastando com aquele pratinho de Merdopará na mão, algo dentro de mim, o diabinho da curiosidade ou um espasmo aristocrático, resolveu dar ouvidos àquele que, era difícil admitir na época, pertencia a uma classe de homens diferente de mim. Ele era uma daquelas pessoas especiais que descobriam coisas interessantes, pesquisavam, pagavam caro por elas e tinham a generosidade de dividi-las com os amigos. A você, Daniel, meu agradecimento mais sincero.

Peguei o pratinho (porcelana fina de Campo Largo) com cuidado e segurei a colher de prata com a ponta dos dedos, mergulhando-a cuidadosamente no bolinho fecal. Hesitante, levei a porção à boca e, naquele momento, todo um Universo se abriu para mim. Diz o famoso slogan que quem come merda jamais esquece, e comigo não foi diferente. Aquela primeira bocada de merda foi um êxtase que transcendeu meu palato apurado. Foi como se eu me comunicasse com nossos ancestrais – e como se minha conversa com eles tivesse sido capaz de esclarecer todos os mistérios do mundo. Ali, naquele momento, com a merda se espalhando pela boca e já descendo redonda pela garganta, compreendi o ying e o yang, o tao, o monte Fuji e o teatro kabuki. Se eu dissesse que alcancei o Nirvana, ninguém acreditaria.

Ao meu lado, Daniel me olhava com a condescendência típica dos gênios. Tudo em seus traços revelava superioridade. Naqueles olhinhos inteligentes de repente eu me vi mendigo, ignorante, pequeno e indigno. Como pude hesitar em comer merda?! Meu Deus, como pude pensar que aquela dádiva era um insulto?! Naquele instante, e ainda com um gostinho de merda na boca, lembrei-me de minha origem humilde, do conhecimento adquirido a duras penas em livros, da primeira oportunidade como crítico gastronômico (e, por consequência, do quartinho dos fundos do restaurante e do ofegante chef Antoine), dos elogios mentirosos, dos xingamentos remunerados, enfim, de tudo o que fazia de mim o que eu era até então.

Pedi mais. E mais. Passamos aquela noite em claro, degustando merda (Merdopará, Redshit, a pura der’mo russa e, claro, a inesquecível Merdíndia). Eu queria saber tudo sobre o assunto e o generoso Daniel tinha muito o que ensinar. Aprendi, por exemplo, que o hábito de comer merda nasceu entre os aristocratas romanos e mais tarde se disseminou pela Europa por causa dos germanos. Na Idade Média, a Igreja proibiu o consumo de merda e o produto virou uma iguaria degustada às escondidas somente pelos homens mais sábios. Essas reuniões para comer merda deram origem às sociedades secretas. Da Vinci apreciava merda no café da manhã, enquanto Michelangelo preferia à noite, antes de dormir. Benjamin Franklin era conhecido pela glutonice algo repulsiva diante de um belo prato de merda. Einstein comia merda para ficar mais concentrado. E, se não me falha a memória, Gandhi era um grande consumidor de merda também. Ou seja.

Mas, em matéria de antropologia da merda (campo de estudo no qual, todos sabem, me tornei o maior especialista do mundo), nada se compara à história da Dreqari albanesa que tive o prazer de comer em Tirana, ainda sob o domínio de Hoxha (ele também um connoisseur). Meus olhos se enchem de lágrimas quando me lembro do esforço dos albaneses para produzir merda de primeira qualidade mesmo sob o regime comunista, dando continuidade a uma tradição que remonta à época em que a merda era desavergonhadamente produzida e consumida entre os aldeões albaneses. Não à toa, acho que posso dizer que a Dreqari é a melhor merda que já tive o prazer de comer nesses meus tantos anos de profissão.

Eu poderia aqui me estender por parágrafos e mais parágrafos. Falar das propriedades anticancerígenas da merda, por exemplo. Contar a história de José Cuzaum, o maior traficante de merda do Brasil nos séculos XVIII e XIX. Narrar minhas viagens pelos rincões do mundo em busca da merda perfeita, só para descobrir que a melhor merda do mundo era a que minha mãe aprendera a preparar às escondidas com uma avó metida nas macumbas. Ah, poderia falar da importância econômica e política da merda e do papel que ela exerceu durante toda a Revolução Industrial.

Mas essa conversa está dando fome e todo mundo sabe que merda deve ser consumida recém-preparada, ainda quente. Servidos?

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Pirâmides de biscoitos ou biscoitos em forma de pirâmide

Reza a lenda e aquela coisa falha que chamo de memória que Guimarães Rosa aconselhou Fernando Sabino a abandonar as crônicas que o mineiro escrevia lá naquele estilo maravilhosamente simples dele para ambicionar construir pirâmides. Essa história é algo que sempre gera reações entre o bocejo e o ressentimento contido, até que invariavelmente aparece alguém para propor a salomônica pirâmide de biscoitos. E rimos todos e vamos para casa esmurrar o cinzel na pedreira ou sovar bem a massa amanteigada.

Nos últimos dias tenho preparado muitos biscoitos enquanto a pirâmide nova não fica pronta e, na condição de padeiro (ou seria confeiteiro?), me assusta perceber a incapacidade das pessoas em reconhecerem os sabores mais básicos dos produtos. E não me venha com invenções, brincadeirinhas ou – pecado dos pecados! – essas tais imaginação e criatividade! O cliente mal consegue apreciar biscoito de água e sal.

Saindo da metáfora, para o bem do que me resta de sanidade, vale dizer que fujo da nostalgia como o brasileiro médio foge de um livro. Essa coisa de dizer que antigamente tudo era melhor, as pessoas eram mais inteligentes, menos vulgares, mais interessadas e interessantes é uma tentação, reconheço, mas uma tentação tóxica, cancerígena. Nada de bom jamais germinou da nostalgia.

O que não quer dizer que não se possa constatar a decadência e, antes de se desesperar, constatar também as implicações dela no presente e no futuro. No caso específico das pirâmides e dos biscoitos, isto é, da arte que almeja a eternidade e da arte que almeja causar um impacto rápido e efêmero, um sustinho ou um soco no estômago, o problema é que as pessoas (e aqui me refiro a pessoas que consomem livros e por isso se consideram leitoras, o que são duas coisas bem diferentes) se tornaram completamente incapazes de saborear um biscoito. E a história é muito clara neste sentido: pessoas incapazes de saborear biscoitos ignoram completamente as pirâmides e acabam por derrubá-las*.

Não pretendo, aqui, entrar nos porquês de o analfabetismo funcional ter alcançado essa dimensão epidêmica. Tenho minhas teorias, mas, a não ser que alguém disponha de uma máquina do tempo para que eu possa confirmá-las e corrigi-las, elas são inúteis. O fato é que é preciso, de alguma forma, tirar a bunda da poltrona e resgatar os consumidores de biscoitos. É preciso** ensiná-los a passar a massa por toda a língua, aqui sentindo o doce, ali o salgadinho, acolá o azedo e o amargo, o picante (ai!) e o que mais houver para sentir nas guloseimas.

Sei que este texto parece uma platitude e uma exortação ao nada, mas neste momento pare e pense: poucas pessoas das que começaram a ler este texto tiveram paciência ou interesse para chegar até aqui e menos ainda são capazes de entender o que é uma platitude e uma exortação ao nada. Uma parcela ainda menor compreende completamente a metáfora dos biscoitos e pirâmides e, destes, são minoria os que já ouviram falar de Guimarães Rosa e Fernando Sabino. Para piorar, como se piorar fosse possível, minoria da minoria é quem um dia se deparou com uma pirâmide e minoria da minoria da minoria quem a admirou.

O que, aliás, me leva à constatação – algo que talvez não tenha escapado à analogia roseana – do quão inútil deve ser uma pirâmide para quem vive à base de biscoitos que engole por necessidade nutricional, e não por gula. Para essas pessoas, uma pirâmide não passa de um cenário distante e de um imponente monte de nada. Mas um nada feito para durar milênios, nos quais os egípcios deixaram marcados seus delírios de imortalidade.

E até aí, tudo bem, como diria o otimista incorrigível. O problema é quando as pessoas deixam de se alimentar porque biscoito isso, biscoito aquilo e preferem morrer de fome a refletir mais sobre justamente isso e aquilo.


*  Nem se dê ao trabalho de pesquisar isso porque acabei de inventar.

** Falar é fácil!

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A Síndrome de Pilotis

A Síndrome de Pilotis, descoberta pelo pesquisador japonês Arturo Pilotis, é uma doença rara, não contagiosa (há controvérsias neste sentido), que acomete homens e mulheres a partir dos sete anos de idade. Se é grave? Sim. A taxa de letalidade é altíssima (99% dos portadores morrem antes do primeiro centenário). Mas pior do que morrer é morrer sozinho. Logo, pior do que a morte é a doença em si, como veremos.

Os portadores desse terrível mal são geralmente pessoas inteligentes ou que se veem assim. E, como não há marcador biológico para a doença, quem sofre da Síndrome de Pilotis pode ser bonito ou feio, gordo ou magro, ser calvo ou cabeludo e ter ou não orelhas de abano. Tampouco sofrem de alguma condição psiquiátrica pré-existente, embora esses pobres-diabos acabem desenvolvendo outras doenças por causa da Síndrome de Pilotis.

Em outras palavras, os sindromees, como são chamados, têm uma vida praticamente normal na superfície. Essa impressão de normalidade é justamente o que torna a descoberta do dr. Pilotis tão extraordinária. E tudo aconteceu porque um dia o psiquiatra, pesquisador e campeão mundial de Uno estava no colégio do filho, admirando a balbúrdia (Pilotis chegou a ser acusado de perversão, de tanto que os berros dos e das adolescentes o excitavam, mas isso é outra história), quando notou andando de lá para cá um menino que vamos chamar apenas de L., para não revelar o nome de Leandro.

L. aparentemente não estava sozinho, mas estava. Ele andava de um lado para o outro do pátio da escola, conversando com os coleguinhas em diálogos que duravam entre 30 segundos e um minuto. Depois seguia para outro colega e outro e outro. Até não restarem mais colegas no pátio ou até o cabisbaixo L. chegar à dolorida conclusão de que nem valia a pena tentar, sabe?

A partir de suas perversões, digo, observações, Dr. Pilotis concluiu, para espanto da comunidade internacional, que as conversas pareciam tão, tão, tão (tão!) normais que até rendiam frutos emocionais claros: sorrisos, olhares de espanto, aquele ar de gravidade muito típico de L. e até umas gargalhadas entremeadas por meneios de cabeça que nas pessoas sadias normalmente são vistas como sinais de aceitação.

Nos doentes, contudo (e este é o sintoma primário da Síndrome de Pilotis), e por uma razão que a ciência não conseguiu descobrir, essa aceitação jamais se realiza. E é justamente por isso que L. andava de um lado para o outro do pátio do colégio, falando com todo mundo e recebendo aqui e ali uns afagos na alma, sem jamais, nunca, em hipótese alguma criar laços de amizade mais profundos, incapaz de ir além de uma troca de figurinhas aqui, um comentário sobre a bunda da moça ali, um porre no Alemão acolá e meia-dúzia de mensagens trocadas por Whatsapp no… no que quer que venha depois do acolá.

Em resumo, L. era completamente incapaz de ser plenamente aceito, de pertencer (v. belonguismo), de fazer parte de algo mais duradouro, algo que as pessoas evocam à mesa do café, entre risadas e choros de nostalgia, como “amigos de infância”, embora o termo evidentemente seja impreciso. Como o dr. Arturo Pilotis chegou a todas essas conclusões observando uma única criança (se bem que, aos doze anos, L. odiaria ser chamado de criança na brilhante tese do pesquisador) é um mistério que, obviamente, ninguém jamais desvendará por pura preguiça.

Em 1990, os soviéticos anunciaram ao mundo terem descoberto a cura para a Síndrome de Pilotis, mas no ano seguinte tudo se revelou uma farsa tão grande quanto o próprio império. Dez anos mais tarde, um grupo de médicos portadores da doença se juntou para estudá-la e propor uma cura, mas as conversas não foram além do protocolar minuto e meio de “como tá frio hoje” ou “e o Corinthians, hein?”. Por fim, cada qual foi para o cantinho, embora no fundo sentissem exatamente a mesma coisa, ainda que em hemisférios opostos: a amizade, a amizade de verdade, aquela coisa de se sentir parte de um grupo que não o julga, que compreende e tira sarro das suas idiossincrasias, que releva seus defeitos e exalta desproporcionalmente suas qualidades, ah, meu caro, essa amizade eles jamais teriam o prazer de vivenciar.

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A singularidade me incomoda desde que sou criança, mas tem incomodado mais hoje, quando acordei de sonhos muitos tranquilos para entrar no banho e me lembrar dela, da singularidade, traduzida na forma nada singular de um ponto de giz no quadro negro.

Quando eu era criança, meus pais, por algum motivo, adoravam me assustar quanto ao que me aguardava na oh tão temida escola. Química orgânica? Nossa! Logaritmo? Vish! Os afluentes do rio Amazonas? Mãe do Céu! E assim por diante. Numa dessas, meu pai (ou teria sido a minha mãe? E o que isso importa para a história, não é mesmo, dr. Freud?) disse que o mais difícil na escola era, sem duvida nenhuma, a redação. E contou que, certa vez, uma professora “muito má” pôs um pontinho de giz no quadro-negro e mandou que a turma escrevesse uma redação a respeito. Trinta fucking linhas que lhe pareceram um só tomo do Guerra e Paz.

Mas passei pelos anos escolares sem o prazer de vivenciar esse momento que teria sido um marco na minha vida também: escrever trinta linhas, no mínimo, sobre um único ponto de giz no quadro-negro. Tampouco me causaram estranhamento maior a química orgânica ou os afluentes do rio Amazonas. (O mesmo não posso dizer dos logaritmos).

Ao longo dos anos, como alguém que ganha a vida distribuindo as letras sobre o papel de forma que façam algum sentido para o leitor, foram várias as minhas tentativas de escrever sobre esse maldito ponto já agora mitológico. Ângulos nunca me faltaram (o que talvez seja irônico, já que nunca entendi logaritmos e partindo do pressuposto de que logaritmos têm algo a ver com ângulos). Já pensei em escrever sobre as propriedades minerais do giz e as relações físico-químicas envolvidas no processo da feitura do ponto. Já pensei em escrever sobre o ponto como um lugar bem definido no continuum espaço-tempo. Já pensei em escrever sobre o ponto e o menino olhando o ponto e pensando no que é o ponto senão um ponto um ponto um ponto. Já pensei em escrever sobre o quadro-negro e deixar o ponto de fora. Enfim.

E a verdade, descubro hoje, é que o ponto, aquele ponto que se você parar para pensar nunca existiu de fato, aquele ponto amedrontador, desafiador e revelador, aquele ponto que um dia deve ter aterrorizado meu pai num pesadelo ainda de calças curtas (o pesadelo e meu pai) no interior do Paraná, aquele ponto de certa forma sádico, feito grosseira e violentamente por uma professora muito branca, quiçá com uma verrugona na ponta do nariz, aquele ponto que é este nunca me abandonou. Mais do que isso, aquele ponto sempre me perseguiu e teve a audácia de, hoje, justo hoje!, me acompanhar até o banheiro, testemunhar o deprimente espetáculo do meu corpo nu, aventurar-se na água quentinha e sussurrar no meu ouvido*.

Saí do banho cabisbaixo e pensativo, me enxuguei pensando nos buracos negros e na teoria dos multiversos, me vesti revisitando filósofos de nomes consonantais, tomei café nesta e em infinitas realidades semi-iguais e, a caminho do trabalho, eu já era uma espécie de macaco evoluído (sem pelos, branco-quase-albino, uns olhinhos tristes, mas irresistíveis, sorriso charmoso, etc.) usando de todas as ferramentas mentais disponíveis na minha floresta de neurônios para abrir a divina noz que atende pelo nome nada poético de… “singularidade”.

Foi assim que o ponto virou lembrança para virar reflexão para virar piada para virar melancolia para virar desejo de ser amado para virar pulsos eletromagnéticos para virar texto escrito para virar texto lido para virar sorriso ou bocejo. E a singularidade, depois de mais de trinta anos entalada aqui na garganta, deixou de ser ideia para se tornar muito real – ou tão real quanto possível, sei lá.


*Ficou curioso, né?

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Licença

Peço licença para hoje, só hoje, morrer um pouquinho. Assim uns minutos passar no purgatório, rever amigos no inferno e apertar a mão de Deus no Palácio Entrenuvens.

Peço licença para hoje, só hoje, esquecer e ser esquecido. E no minuto seguinte ser lembrado e velado e remontado por dezenas de histórias e mentiras a meu respeito.

Peço licença para hoje, só hoje, sair do meu corpo e ir por aí assombrar as meninas que ignoraram minha existência. E os inimigos que atravancaram meu caminho. (Bu!)

Peço licença para hoje, só hoje, achar que todos os dissabores e o aprendizado a ferro valeram a pena. E que na Eternidade minhas virtudes serão um orgasmo também ele eterno.

Peço licença para hoje, só hoje, ver as lágrimas que antecedem o gradual e irrevogável oblívio.

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