O clamor da morte

5 de Maio de 2008

Depois que o Fantástico exibiu uma reportagem absurdamente tardia sobre Randy Pausch, o professor que deu uma “aula” sobre a morte, muita gente tem vindo aqui para ler este texto.

Ainda estou digerindo esta fascinação das pessoas pela miséria alheia. Pausch é apenas mais uma manifestação do fenômeno cultural que inclui livros sobre infâncias sofridas na África, Afeganistão, Iraque ou qualquer outro lugar sem água potável.

Sim, meus amigos, é fato: existem pessoas com vidas piores do que as nossas. Existe câncer no pâncreas e existe cárcere privado e incesto; existe infanticídio e parricídio e padres que voam em balões; existem jogadores de futebol que pegam travestis na rua e… qual é mesmo a desgraça da vez?

Mas nada disso – nada – diminui, a longo prazo, a dor individual, que pode ser a dor de não encontrar a pessoa certa, de não ser capaz de pagar a prestação da geladeira nas Casas Bahia ou mesmo a dor de escolher o destino das próximas férias (Buenos Aires ou Santiago?).

A dor individual não tem escalas. Até porque, se tivesse, depois de Auschwitz todos nós seríamos indescritivelmente felizes.

Tempo de plantar

1 de Maio de 2008

Vocês sabem: há tempo de plantar e tempo de colher. Estou no tempo de plantar. Volto assim que as primeiras mudas nascerem. Enquanto isso, acompanhem as coisas boas aqui.

13 leituras interrompidas

29 de Abril de 2008

1. Flaubert, Gustave. A Educação Sentimental.
2. Maia, Olívia. Operação P-2
3. Tolstói, Leon. Guerra e Paz.
4. Fischer, MFK. The Art of Eating
5. Child, Julia. My Life in France
6. Pears, Ian. Tha Raphael Affair
7. Samson, Ian. The Case of The Missing Books
8. Bryson, Bill. Neither Here nor There
9. Sedaris, David. Me Talk Pretty One Day
10. Jackson, Robert. Dunkirk
11. Jacobson, Howard. Kalooki Nights
12. Bellow, Saul. Herzog.
13. Homero. Odisséia.

Uma perspectiva afortunada, mas que também é mísera

28 de Abril de 2008

Mas foi o que aconteceu com o país:
nossas perspectivas se tornaram bem mais míseras.
- Diogo Mainardi

Ontem, bebendo e conversando com um maravilhoso casal de amigos que passou o fim de semana aqui em casa, eu dizia que ando numa fase excepcionalmente boa, porque acredito que todo mundo é bom e até mesmo os canalhas óbvios são bons, se bem que às vezes de um modo que não consigo (conseguimos?) comprender.

É uma idéia antiga, que vem ganhando corpo nos últimos meses. Há quem diga que é ingenuidade. Não é. Não quero dizer, com isso, que Fidel e quem gosta de Fidel (para dar um exemplo) sejam dignos de admiração. Nada disso. Quero dizer que estas pessoas, por mais que eu as considere equivocadas, fazem o melhor de que são capazes. Para mim, é impossível entender como ser um ditador assassino (e, por conqüência, seguidor de um ditador assassino) possa significar o melhor. Mas o caso nem é entender; é simplesmente aceitar que os piores têm, de algum modo, às vezes extremamente torto, um norte bom.

Ah, sim! Já se cortou muitas cabeças em praça pública em nome da tal “melhoria”. Já se queimou mulheres que tinham gatos pretos. Já se confinou judeus em campos de concentração. E já se mandou inimigos políticos para Gulags. Não estou alheio a isso tudo. A idéia de melhorar o mundo é sempre autoritária, tirana. E, por isso, descamba para as aberrações já mencionadas.

Vontando à conversa sob a noite estrelada. Citei, para ilustrar meu otimismo patológico, um punhados de nomes de bandidos brasileiros, da política e do jornalismo. Semana passada, sem querer, entrei em contato, digamos, profundo com a “obra” de um deles. E, dia após dia, investiguei a bandidagem sem máscara, a total fatla de percepção do outro, as somas que ultrapassam quatro milhões de reais e a idéia de um projeto para o Brasil.

Se tive engulhos? Sim e não. Sim porque é aviltante, claro, entender como uma pessoa, um pai, é capaz de baixar tanto em nome de um poder pequeno e vaidade. E não porque sei: de algum modo, de um modo que eu acho aviltante, nojento e até humilhante, esta pessoa está tentando fazer o melhor. Inclusive para seus filhos. Para fazer com que vocês entendam o que quero dizer, talvez valha recorrer ao exagero: Goebbels matando seus filhos poucos antes da queda de Berlim.

É o Mal disfarçado de Bem? Não. Isto seria uma visão simplória. Acho que é o Bem, mal manifestado. E aqui o leitor pode preencher a lacuna com todo o tipo de perversidade de que o ser humano é capaz.

Já sofri muito tentando, a meu modo, consertar o mundo ou, ao menos, o Brasil. Reduzindo ainda mais a amostragem: minha família. Mas foi só até entender (diferentemente de Goebbels, Fidel e dos muitos milhões de tiranos mundo afora) que não há o que ser mudado, simplesmente porque o Todo não existe senão como manifestação do individual, e o individual é, grosso modo, imutável sob minha influência. Indo além, quero dizer que não sou a medida das coisas: minha idéia do que é bom serve para mim, e para mais ninguém.

Tudo isso para dizer que hoje acordei com a estarrecedora notícia de que mais da metade dos entrevistados numa pesquisa se disseram favoráveis ao terceiro mandato para Lula. Num primeiro momento, fiquei chocado. E, como o vírus da “medida das coisas”, também conhecido como Tiranovírus, me habita, pensei em escrever furiosamente sobre o assunto. Tive nojo. Mas me contive, respirei fundo, acariciei os gatos e tomei um pouco de Sol. Me restabeleci.

Para concluir que, a rigor, o fato de o brasileiro (o Todo) não se importar com a presença do Estado em suas vidas, nem tampouco com a corrupção ou ainda com a alternância de poder sadia a uma democracia, não faz do indivíduo mau. Quando olho para estas pessoas individualmente, eu as compreendo. Da prestação fácil da geladeira nas Casas Bahia à Bolsa-Família, das metáforas futebolísticas do Presidente à total falta de educação (não só no sentido de instrução, mas também). Por mais absurda que seja a situação, entendo que o Todo ame seu tirano e queira perpetuar o subjugo.

Tenho tentado guiar minha vida, ultimamente, pelo dogma da liberdade extrema. Da quase anarquia intelectual. Bandidos são livres para roubar, jornalistas são livres para se vender, meus amigos são livres para me amar e os inimigos, para me odiar; leitores são livres para ler e até para não ler. E o Todo é livre para fazer as escolhas que faz, quase sempre sem sequer se dar conta.

Por dentro, dói. Não nego. A medida de todas as coisas se alvoroça. A incapacidade de entender quase me deixa louco. Mas, por fim – e tem sido assim há tempos – a idéia de liberdade extrema prevalece.

Vontade zero

28 de Abril de 2008

Desculpem, mas acontece: a vontade de escrever é zero. Depois de uma semana trabalhando pesado num projeto, meu plano é me dedicar, nos próximos dias, ao meu livro. E também a descansar um pouco, que ninguém é de ferro. Hasta!