É (foi) um privilégio

por Paulo Polzonoff Jr. em 13 October 2016

 

Antes de morrer, o neurologista e escritor Oliver Sacks publicou um belo artigo no New York Times. Lembro-me de ler os últimos parágrafos em meio a lágrimas. Porque Sacks fugiu à autopiedade e desespero de um Ivan Ilytch e se rendeu à gratidão. A frase mais emblemática do texto é “foi um privilégio”. Algo que nos últimos dias não me sai da cabeça.

Às vezes me atolo em melancolia e nostalgia e me percebo espiritualmente febril, balbuciando delírios de outros tempos, com outras pessoas e circunstâncias, sempre maldizendo o presente e temendo o futuro. Ah, se eu vivesse no Século das Luzes! Ah, se eu tivesse na Europa do pós-guerra! Ah isso e ah aquilo. Quando, na verdade, sei que é (foi) um privilégio viver agora, em pleno início do século XXI, com você e você (e talvez você aí no fundo), nestas circunstâncias, nesta cidade e nesta merda de país – por mais contraditório que isso possa parecer.

Mas, para além desses privilégios, digamos, metafísicos, há privilégios muito palpáveis. Amigos que fiz, jantares memoráveis com risadas que ainda ecoam em meus ouvidos, baile do Waldorf Astoria e, claro, os diálogos que tenho com um gigante de um metro e trinta chamado Davi. A simples possibilidade de ouvir qualquer música ou assistir a qualquer filme ou ler qualquer livre ao toque de um botão – um milagre do nosso tempo ao qual poucos dão o devido valor.

Não, não fecho os olhos para as mazelas cotidianas: a estupidez que me cerca, a solidão, a conta bancária minguante, as perversidades familiares e o corpo que insiste em definhar. Mas até as mazelas são um privilégio à luz da morte próxima (e aqui vale notar que a “proximidade” é um conceito elástico, que vai de dias a muitas décadas). Afinal, para o guerreiro o campo de batalha é o cenário de sua realização, na vitória ou na derrota.

É um privilégio escrever e ser lido, ser admirado aqui, mal interpretado ali, solenemente ignorado acolá. Meu Deus, é um privilégio absurdo conseguir alinhavar substantivos, verbos e adjetivos de forma inteligível e talvez até bela, marcar com tinta minha passagem por este mundo – por mais que as traças um dia irão se alimentar tanto dos meus textos quanto do meu corpo. É um privilégio sobretudo ter consciência do privilégio.

Sacks estava morrendo de câncer. Eu não estou morrendo, pelo menos não que eu saiba. Mas quero deixar aqui registrado que é, foi e será para sempre um privilégio comungar com esta Humanidade que, como diz Shakespeare num de seus sonetos mais sombrios, triunfa na maldade.

Com o perdão pelas hipérboles

por Paulo Polzonoff Jr. em 16 September 2016

 

Não vou me surpreender se Até Você Saber Quem É (Record), de Diogo Rosas G., ganhar todos os prêmios da literatura brasileira. Não só é o melhor livro escrito por aqui em anos como também de alguns componentes que costumam agradar os jurados velhos de guerra destes prêmios. Algo me diz, porém, e peço desculpas pela pretensão, que o romance vai ganhar os prêmios por todos os motivos errados. Mas é sempre assim, não é?

Não que eu ou qualquer outro leitor possa um dia almejar ter o dom da leitura certa. Nada disso. A questão é que romances com Até Você Saber Quem É escondem, sob um manto de muitas qualidades óbvias (obviedades que rendem reconhecimento e prêmios, como metalinguagem, intertextualidade, aquela coisa toda), uma espécie de “faísca primordial” que é praticamente incomunicável e, por isso mesmo, irreconhecível e impossível de premiar.

(E, sim, este é o maior elogio que faço a um livro em muito tempo).

Esta faísca, por sinal, quase me escapa. Por puro e tolo preconceito. Quando o autor, para mim um desconhecido dos meios literários com o qual eu interagia remotamente em redes sociais, me disse que tinha lançado um livro e sobre o que era o livro, confesso que fui o mais babaca possível. Revirei os olhos, fiz carinha de enfado para o apartamento vazio. Já no obscuro O Cabotino eu falo da repulsa que sinto por estas historinhas de escritores frustrados falando da vidinha pequena deles. Para minha sorte e para a sorte de quem ousar atravessar as páginas do romance, porém, acho que dá para dizer que Até Você Saber Quem É é uma pequena obra-prima envolta neste falso clichê. Não seja babaca como eu, leitor.

Ao acompanhar a vida, obra, glória e desgraça de Daniel Hauptmann e seu fiel escudeiro, Roberto, o leitor avançará na tentativa de compreender o que aconteceu numa fatídica noite de morte, isto é, na tentativa de compreender os fatos que levaram a tal desfecho, só para descobrir que os fatos não importam muito. Até porque “glória” é uma palavra associada ao divino que o autor habilmente disseca até encontrar sua raiz inequivocamente diabólica.

No meio dessa travessia, contudo, não há veredas margeadas por buritis, e sim calçadas de petit-pavé pontuadas por araucárias. Diogo Rosas G. constrói uma Curitiba que é bem diferente da “província, cárcere e lar” de Dalton Trevisan ou do nascedouro de trocadilhos de Paulo Leminski. Curitiba é um inferno espiritual e intelectual de onde só se pode fugir (nem sempre fisicamente) fazendo um pacto com o diabo.

Disfarçado como romance de formação que alguns até mesmo pensarão ser policial, Até Você Saber Quem É exige que o leitor duvide dos personagens e de si mesmo o tempo todo. E há algo de profundamente divino nisso. Ao transferir para o leitor a ambição tola, ilusória e fadada ao fracasso da autodescoberta, o romance desabrocha como uma das obras mais ambiciosas que tive o prazer de ler neste cenário árido que é a literatura brasileira contemporânea.

Até mesmo aquilo que no meio da leitura cheguei (num arroubo de Aracy de Almeida que me é peculiar) a considerar um defeito, isto é, o estilo quadrado, quase uma aula de catequese gramatical, acaba por se revelar como uma qualidade do romance. Ao se despir da sintaxe cheia de firulas, o autor acaba por criar um canhão de luz que obriga o leitor a atentar para o que realmente importa: a danação dos personagens.

Pareço impressionado? Talvez impressionado demais? Posso até pedir perdão (não muito) pelas hipérboles. Que o leitor, porém, não ignore meu aplauso entusiasmado: Até Você Saber Quem É é literatura como raramente se escreve por aqui.

D.

por Paulo Polzonoff Jr. em 16 September 2016

Na faculdade, eu era completamente apaixonado por uma menina muito magra e loira, a despeito da boca fina demais e do nariz estranhamente rechonchudo naquele rosto anguloso. Hoje sei que, a despeito do clichê, ou melhor, justamente por causa do clichê, o que me encantou nela foi a boina que usava numa aula do Hélio Puglielli.

Passei quatro anos atrás da moça, sem sucesso. Depois da faculdade, ela se mudou para a Itália. Insistente ou persistente, não sei, continuei tentando conquistá-la por e-mail, que era como os homens das cavernas se comunicavam. Deu certo. Assim que ela voltou ao Brasil, começamos a namorar.

Mas era um relacionamento fadado ao fracasso. Ela era evangélica atuante; eu… Bom, eu sempre fui uma confusão espiritual e naquela época não era diferente. Para um menino de 22 anos, porém, a diferença religiosa não tem nada a ver com um conflito espiritual. É a parte moral que entra em conflito com os hormônios em ebulição.

A moça, entre beijos mais ardentes, entre lençóis amarrotados, insistia em me evangelizar. Havia um estranho componente erótico nisso. Ela falava de céu e inferno bem reais depois do amor e eu me sentia deliciosamente pecador (com o perdão da rima) – um pecador abençoado pela presença dela.

Um dia, ela me convidou para uma festa com os amigos da igreja. Fui, claro. Gente chata, mas havia bebida e, naquela época, bebida resolvia praticamente todos os meus problemas de sociabilidade. Bebi e conversei e bebi e conversei e não me lembro de ter feito absolutamente nada de errado além de beber e conversar.

O problema é que o simples fato de eu estar bebendo parecia incomodar alguns. Ou melhor, algum. Em certo momento, um menino com cara de idiota (mentira, nem lembro da aparência dele na época) me puxou pelo braço, diante de todo mundo, e começou a falar alto demais sobre Deus e Jesus e bebida e inferno. Eu, que sou uma pessoa calma, fiquei ouvindo. Até o momento em que deixei de ouvir.

Uma das mãos segurava o copo de uísque; a outra se fechava num soco improvável. O menino (imberbe até hoje) soltando perdigotos cheios lá da virtude dele, enquanto eu estudava o cenário. Um soco naquela cara seria dramaticamente lindo, mas romanticamente desastroso. Meu namoro com a moça não era dos melhores, mas naquele momento eu queria que ela fosse a mãe dos meus filhos. Acho.

Não bati no sujeitinho. Deixei que ele terminasse a ladainha, voltei para o sofá e fiquei ali, admirando a moça que era infinitamente melhor quando habitava só meus sonhos, não a realidade.

Lembro do episódio e do menino (a quem chamarei apenas de “D.”) sempre que o vejo na televisão, o sotaque carregado demais, o narcisismo messiânico, o rosto imberbe, o humor sem graça, os olhinhos encantados com a própria virtude, guiando a turba em sua cruzada contra a corrupção.

E, com algum arrependimento, concluo: aquele soco que nunca dei e ele nunca levou teria feito bem a ambos. Quem sabe ele não estaria tão certo de si mesmo. Quem sabe a moça, aquela, estaria aqui ao meu lado agora: gorda e chata e amargurada. Mas ainda usando aquela boina.

Dossiê Geneton

por Paulo Polzonoff Jr. em 5 September 2016

 

Estou há sete horas tentando escrever algo sobre meu querido amigo Geneton. Na verdade, sete horas só hoje, porque há duas semanas penso que deveria escrever algo para homenageá-lo. Um texto que só poderia receber o título de “Dossiê Geneton”.

Mas não consigo. Já pensei em falar um pouco do amigo que me ligava todos os meses para jogar conversa fora e até, pasmem!, para me pedir conselhos. Já pensei em contar nossas aventuras pela noite fria de Curitiba, há não muito tempo. Já pensei em simplesmente descrever a última conversa que tive com ele, a conversa que torna tudo absolutamente mais difícil. Mas não consigo.

Há quinze anos esse amigo improvável entrou na minha vida e se fez presente em todos os momentos, bons e ruins. Em meus delírios e angústias profissionais, na minha doença, que ele chamava carinhosamente de “polzonoffite”, na adoção do Davi, na minha separação. Geneton sempre tinha algo para dizer que me fazia rir ao telefone, algo que tangencialmente me fazia acreditar que todas as dificuldades valiam a pena quando se tem amigos.

Hoje, o eco da risada do meu amigo é o que dói mais. O que mais me assusta na morte é a impossibilidade do riso. A eternidade é insuportavelmente séria.

Um dia talvez eu consiga escrever o “Dossiê Geneton”, nem que seja para fazer jus à coisa mais linda que ele me disse naquela nossa última conversa. Mas não hoje. Talvez um dia eu consiga explicar que Geneton não foi apenas um profissional incrível, um jornalista dono de uma curiosidade infantil que fazia meus olhos brilharem. Talvez um dia eu consiga explicar que só não me sentia um completo desgraçado porque tive a graça de conhecer um ser humano como ele.

A vidraça não-existente

por Paulo Polzonoff Jr. em 17 August 2016

 

Recebi a incumbência de escrever sobre O Homem Que Matou Luiz Inácio, romance de estreia do crítico e chato-mor curitibano Paulo Polzonoff Junior. A princípio, quis discutir com meu editor e argumentar que o livro simplesmente não existe. Mas não consegui convencê-lo. Tive, pois, de pôr o rabo entre as pernas e voltar me arrastando para casa. Fazer o quê? Trabalho é trabalho, como dizia o poeta.

Além da minha má-vontade confessa em relação ao autor, a falta de uma chancela editorial para o livro também me fez pegar o minguado e mal-acabado volume com todos os receios do mundo. Ora, num país onde se publica qualquer porcaria, por que Paulo Polzonoff Junior não conseguiu uma editora para seu romance, tendo de publicá-lo no sistema on demand e o disponibilizando também em edição eletrônica?

A única explicação possível para isso é também a mais óbvia: o romance, na verdade uma novela, é ruim. Tão ruim, aliás, que nem o título oportunista é capaz de despertar o interesse dos editores e, por consequência, dos leitores.

Mas eis que lá pela metade do livrinho já estou intrigado. Crítico chato, ranheta e formalista, capaz de implicar com coisas mínimas como escolhas de advérbios e estruturas sintáticas nas obras alheias, Polzonoff até que não se sai mal em sua tentativa de escrever ficção.

O livro começa com um humor autodepreciativo surpreendente, com um narrador nos apresentando o personagem ao mesmo tempo em que interage com o leitor e vai explicando a composição da história. Não é, claro, recurso novo. Machado de Assis (quanta pretensão!) já fazia isso, ele próprio inspirado em Sterne. De qualquer modo, interessante notar que Polzonoff procurou se afastar dos vícios da literatura nacional por ele mesmo apontados em O Cabotino.

O estilo é aquele de sempre: frases curtas, preferência por afirmações categóricas, economia extrema de recursos, mas aqui e ali abusando de um adjetivo ou advérbio para enfeitar a paisagem. Em alguns momentos, Polzonoff tenta conferir certo humor à narrativa – o que novamente é surpreendente, levando em conta a famosa chatice do autor. Dá para rir, sim, das desgraças de Ernesto Unslovt, o protagonista do livro destinado a matar Luiz Inácio.

Aliás, fica evidente o oportunismo de Polzonoff ao abordar em seu livro o assassinato de uma figura pública – ou, na melhor das hipóteses, do homônimo fictício de uma figura pública. Se com isso ele esperava chamar a atenção dos leitores, fracassou. A verdade, porém, é que Luiz Inácio é figura secundária no livro. Está mais para um alvo inanimado do que para uma figura com a qual se possa se identificar.

Duas coisas me incomodaram no livro. Primeiro, a epifania de Ernesto Unslovt ao decidir matar Luiz Inácio. Ainda que Polzonoff tente fazer humor ali, reduzindo toda a decisão a um monte de sinapses que ocorrem ao acaso, a solução parece farsesca e apressada demais. E a opção do autor por deixar o fim do romance em aberto (eu tomaria cuidado com spoilers aqui, mas, em se tratando de um livro não-existente, acho que falar em spoilers não faz muito sentido) também incomoda, deixando no leitor a impressão de preguiça, ainda que Polzonoff seguramente dirá que foi intencional, que a ideia era estimular a imaginação do leitor.

Sobre isso e mais, tentei contato com Polzonoff, que se recusou a falar. Ao que parece, ele se acha importante demais para dar quaisquer esclarecimentos a quem demonstra interesse por seu trabalho.

Dito isso, até que O Homem Que Matou Luiz Inácio não é mesmo um mau livro. Não é uma obra-prima, claro, mas tampouco é livro que se joga na parede depois da vigésima página. Há alguns dias o jornalista Hélio Puglielli, um dos poucos a reconhecer a existência do livro, disse que, com o romancete, o crítico chato se tornava vidraça. Resta saber se haverá alguém disposto a quebrá-la ou se restará ao aspirante a contador de histórias o tradicional e cruel desprezo curitibano.