Gazeta, mon amour (também uma confissão)

por Paulo Polzonoff Jr. em 26 April 2017

 

A Gazeta do Povo vai encerrar suas atividades. Tá, eles vão manter a edição eletrônica, mas, para mim, o fim do jornal impresso, soltando tinta, é a morte do jornal. O que nunca confessei a ninguém, mas confesso agora, é que a Gazeta do Povo foi o grande amor não-realizado da minha vida profissional. Por consequência, o fim do periódico meio que consolida a morte de uma parte importante de mim.

A Gazeta do Povo sempre esteve presente na minha vida. Lembro-me de me levantar bem cedo no domingo, o gramado coberto pela geada, e subir uma baita ladeira no Bairro Alto a fim de comprar o jornal numa mercearia do bairro. E voltar para casa com aquele volumão, todo orgulhoso de ser um filho perfeito, ainda que, para compra-lo, eu tenha pegado dinheiro sem permissão da carteira do meu pai. Ele nunca reclamou.

Além de me dar as tirinhas do Garfield, as fotos-legendas de lugares peculiares de um mundo pré-Internet e as brincadeiras da Gazetinha (sem falar em um ou outro encarte das Lojas Americanas, Pernambucanas ou Mesbla com as mulheres trajando deliciosas, digo, lindas lingeries), a Gazeta do Povo foi a responsável por parte da minha formação intelectual, com as colunas de Paulo Francis, aquela seção de fotos antigas do Cid Destefani e matérias e críticas do Caderno G.

Quando passei no vestibular, corri para a sede do jornal para pegar o exemplar com meu nomezinho orgulhosamente estampado. Foi como um primeiro beijo. Até que, logo depois, acontecesse a ruptura que, hoje sei, foi uma falsa ruptura: entrei para a faculdade de jornalismo e nela descobri que não era de bom tom ler a Gazeta. Muito menos declarar qualquer amor pela Gazeta. Meus professores diziam que tudo ali era manipulado e aprendi a ver os jornalistas como seres maquiavélicos, destinados a, numa galé de máquinas-de-escrever, criar um mundo dividido entre oprimidos e opressores. Essa bobajada toda que a gente “aprende” na faculdade.

(Mas que, com sorte, esquece logo depois).

Tive uma carreira profissional bastante interessante. Rápida. Meteórica, como se diz. Trabalhei nos vários lugares onde meu currículo diz que trabalhei. Mas nunca trabalhei na Gazeta do Povo. E esta é uma ferida que o fechamento do jornal escancara. Para minha própria surpresa, aliás. Fecho os olhos e me lembro das boas casas que me acolheram, mas nesta imagem falta sempre meu lugar ali na sede da praça Carlos Gomes. No final das contas, percebi recentemente que não fiz faculdade para ser jornalista; fiz faculdade para trabalhar na Gazeta.

Se me permito, pois, flertar com a nostalgia e me demorar num inútil momento de autocomiseração, é porque ela, a Gazeta da minha infância, adolescência e parte da vida adulta, acabou sem jamais me dar a mão. Sinto-me como aqueles personagens de romances de aventura que vivem milhares de coisas em todos os lugares possíveis para descobrirem que a felicidade simples estava ali perto, em casa mesmo. Só que, neste caso, a minha casa um tornado digital derrubou.

A descoberta da burrice

por Paulo Polzonoff Jr. em 6 April 2017

 

 

Até meus vinte e dois anos, mais ou menos, não conhecia a burrice. Digo, sempre houve burros na sala de aula. Aquelas pessoas que conseguiam a proeza de tirar zero em prova de história. Mas, para mim, essas pessoas eram seres exóticos, quase pertencentes a uma espécie diferente. Eram pessoas da qual eu sentia pena, até porque elas sentiam pena de si mesmas quando a professora entregava os boletins.

A burrice que descobri tardiamente é a burrice entre meus semelhantes. Entre as pessoas com as quais eu gostava de conversar, tomar café, beber cerveja. Pessoas que aqui e ali tinham também suas glórias e de cuja felicidade tive a honra de participar. Burros e burras do peito, diria eu na época (mas nunca disse).

Não sei quem foi o primeiro burro ou burra que tive o desprazer de conhecer. E jamais teria a indelicadeza de dizer o nome dele, se soubesse. Mas acho (acho!) que foi um escritor. Ou um poeta. Ou qualquer pessoa assim que eu tinha em alta conta por causa da obra, mas que ao vivo era… burro.

Ah, agora estou lembrando! Sei muito bem de quem estou falando. Claro, ele mesmo.

A sensação de descobrir a burrice alheia (mais tarde falarei da própria, não se preocupe) é atordoante (como este clichê que acabei de usar). Passei dias, meses, anos confuso. Ainda estou. Como é que alguém pode escrever um livro ou compor uma música e ainda assim ser inequivocamente burro? Como é que alguém expressa assim a burrice sem nenhuma vergonha, nenhum senso de ridículo?

Burro que também sou (não nego), nunca obtive respostas para essas e tantas outras perguntas. Ao longo dos anos, tentei formular hipóteses: falta de formação adequada, necessidade de autoafirmação, desejo de ser amado, ausência do pai e de uma boa vara de marmelo. Até hoje, nenhuma das explicações possíveis me satisfez. Ou serei eu um burro incapaz de entender a burrice?

Nos últimos tempos, e provavelmente por causa das redes sociais, descobri que os burros não só existem como são muitos. E se casam e têm filhos. E têm empregos mais rentáveis do que o meu. E viajam e frequentam museus. E obtêm diploma de mestrado e doutorado. E, claro, opinam sobre tudo. Sempre alheios à própria burrice.

Alguns, noto com certa compaixão, esforçam-se para esconder a burrice como se fossem os leprosos intelectuais que de fato são. Sim, dá para ver o diploma na parede. Este cavanhaque ficou ótimo. Aquela citação de um escritor nepalês obscuro vale até uma tatuagem. Quer dizer que você assiste à novela sempre com olhar crítico?

Mas, por mais que se esmerem na maquiagem, a burrice está ali, em toda a sua majestosa soberba, contaminando todos que por ela passam com o inconfundível cheiro da mediocridade com muito empenho alcançada. Tá sentindo?

A burrice (alheia e própria) ainda me surpreende. Porque eu vejo esta opção pela ignorância como algo consciente. Como um sintoma de uma preguiça que vai muito além do pecado capital. O que é, aos olhos da minha porção mais narcisista, imperdoável. Como burrólogo amador, sou um desastre e não consigo compreender os mais básicos fundamentos desta filosofia de vida. Afinal, como pode alguém passar pela curta existência sem usar ao máximo suas faculdades mentais?

Sobre minha própria burrice, bom, eu a descobri cedo. E morri de vergonha. E passei todos os anos de formação tentando curá-la. Na maturidade, insisti no tratamento, mas meus detratores dirão que não tive sucesso. Eu mesmo digo que não tive sucesso. E todos os dias é a mesma luta para me curar dessa deformidade. Até morrer, pretendo passar nas feridas da ignorância o unguento da curiosidade. Com alguma sorte, morrerei curado disso.

Um Outro e Desprezível Paulo

por Paulo Polzonoff Jr. em 5 April 2017

 

Para CG, meu “algoz” nesta história

 

Era 1998 ou 1999. (Ou até mesmo 2000 ou 2001. Sinceramente, que diferença faz?) Eu estudava pela manhã (quando a universidade não estava em greve) e passava as tardes escrevendo e mandando rudimentares e-mails e jogando SimCity ou coisa assim. Numa destas tardes, abro meu paleontológico e-mail do Yahoo! para nele descobrir uma mensagem de alguém que, para mim, até então era um conhecido cordial com que tive discordâncias muito superficiais sobre qualquer coisa idiota. A missiva era violenta, ou pelo menos é assim que me lembro dela. E culminava com uma “acusação” incisiva: “Você não tem cacife para ser um Paulo Francis”.

Sim, na época queria mesmo ser Paulo Francis. Mais por ingenuidade do que por temperamento. Gostava da ideia de falar das coisas que considerava boas e ruins com liberdade e humor. De cunhar expressões que se tornassem assim bordões intelectuais. De escrever frases curtas, de ter um estilo quase telegráfico. Gostava de muitas coisas em Paulo Francis e sonhava, sim, em ser como ele. Era o Norte de que dispunha na época. Não me envergonho.

A mensagem se perdeu, mas a frase ficou. A vida seguiu e eu fui lá tentar ser o Paulo Francis. A meu modo. Acertei no varejo e errei no atacado. Tive lá meus momentos de pequena glória. E experimentei algumas das maiores decepções da minha vida. Disse o que queria sobre as coisas que queria. Ri muito. Mas acho que chorei mais.

“Você não tem cacife” ficou na minha cabeça este tempo todo. Como um alerta. Ou melhor, como uma maldição. Certa vez, numa mesa redonda com outros escritores e críticos, passei a maior parte do tempo calado ou respondendo a tudo com monossílabos. Não era timidez; era a frase ecoando na minha mente. Me chicoteando. Depois do debate, um amigo se aproximou e disse que eu estava irreconhecível. Me senti um covarde e vi a profecia se realizar: eu não tinha mesmo cacife.

Não tinha. Nunca tive. E hoje sei que nunca pretendi ter. Paulo Francis era somente um personagem idealizado por aquele imberbe aspirante a qualquer coisa que precisava desesperadamente ser aceito. Era um papel que sonhei interpretar somente até vivenciar a realidade daquele palco sujo e escorregadio.

Mas o que ainda hoje me pergunto é outra coisa: por que dizer uma coisa dessas a um estudante de jornalismo evidentemente empolgado? Por que destruir um sonho, por mais ridículo que seja? Por que esfregar na cara de outra pessoa toda a sua fragilidade e insegurança? Por que marcar tão negativamente a vida de alguém?

Concedo que meu interlocutor era também ele jovem e impetuoso e que as palavras são mesmo umas diabinhas. Além disso, há na minha fixação pelo ocorrido um bocado de sensibilidade exacerbada, aquilo que um bom amigo chamava de polzonofite. Fica, porém, a dúvida: a perversidade permanece ou seria hoje motivo de risadas e de um abraço afetuoso numa mesa de bar?

Seja qual for a resposta, tenho de dizer aqui que, se um dia quis ser como Paulo Francis, de certa forma consegui. Estando “tecnicamente morto”, como ele dizia. E ouvindo Wagner. E rindo de comédias tolas. E lendo Shakespeare num dia e tramas policiais noutro. E tirando sarro daquilo que achava digno de riso (tudo?). E sobretudo tentando ignorar minha evidente e majestosa irrelevância.

Ou seja, tendo cacife para ser apenas quem sou: um outro e desprezível Paulo.

Andrajos curitibanos

por Paulo Polzonoff Jr. em 20 March 2017

 

Eu aqui neste primeiro dia de outono, me lembrando do amigo e das coisas que conversava com o amigo. E sofrendo porque, passados tantos meses, ainda não me entra na cabeça que o amigo tenha morrido. Não pela morte em si, que eu sei que chega para todos, até para mim um dia – e minto ao dizer que espero que logo. Mas por tudo o que o amigo era e almejava e sonhava e dividia comigo.

Me lembro dos telefonemas às vezes ansiosos do amigo, a alegria na voz que contava o projeto mais recente de livro ou a entrevista com a personalidade mais deslumbrante ou ainda a pesquisa que resultou numa descoberta sempre ela mágica. A tudo isso eu ouvia com um sorriso infantil e esperançoso que desapareceu porque o amigo morreu. Porque eu simplesmente não vejo mais sentido algum em escrever e entrevistar e pesquisar.

No íntimo, sempre me perguntei por que o amigo se dava ao trabalho de me ligar para contar o que contava, para discutir o que discutia, para rir do que ria. Eu, um mendigo intelectual usando estes andrajos curitibanos… Sem me intimidar, porém, respirava fundo para absorver do amigo a fé. E os sonhos dele eu temperava com minha vontade à força contida de também descobrir, também escrever, também compartilhar essa coisa maravilhosa que é o conhecimento – por mais inútil que ele seja.

Mas, caralho, o amigo morreu e me deixou sozinho aqui com meus planos e devaneios, esse amontoado de vontade ao qual ninguém dá ouvidos. Ao qual só ele, o amigo, dava ouvidos. Ao qual nem eu dou ouvidos.

Eu não aguento mais a solidão, amigo. E o silêncio. E os homens muito sérios que me falam platitudes. Eu não suporto mais, amigo, a falta que me faz sua crença.

Foi cremado, o amigo, e me pergunto se tudo o que ele era virou cinza. A imensa cruz na igreja aqui perto me diz que não. Mas a tela em branco do computador berra que sim, fazendo coro com a estupidez e a mesquinharia daqueles que um dia tive como irmãos. Daria tudo, hoje, para ouvir aquela risada e a conclusão fatídica de quase toda a nossa correspondência: bola pra frente.

Agora é noite e eu aqui, com a bola nos pés, sem saber se a chuto para longe ou se corro com ela até a linha de fundo. Amigo, se de algum modo você me lê, me dá a mão, me diz por onde andar e me perdoa pela pequenez da minha angústia. Porque no fundo, amigo, continuo querendo desesperadamente agradar você.

Polzo Show by Adlai

por Paulo Polzonoff Jr. em 22 February 2017

Agora os maravilhosos desenhos do generoso Adlai têm casa própria.

http://www.polzonoff.com.br/polzo-show-by-adlai/