Ainda assim, ainda assim

por Paulo Polzonoff Jr. em 23 May 2017

Outro dia fui a um enterro no Cemitério Municipal. Quero dizer, parecia um enterro. Bem verdade que tinha um caixãoe um corpo cercado por flores e rendas, coroas de vários tamanhos e em número nunca suficiente, e os devidos enlutados sentados em cadeiras precárias. Quando caiu a noite, apareceu um tal de Crisóstomo, que um amigo meu disse ser o agente funerário. Ele chegou, fez uma cara feia, sacou do bolso um isqueiro Zippo e, sem hesitar, acendeu os quatro sírios que cercavam o defunto.

Imediatamente me virei para a pessoa ao meu lado. Era uma mulher linda e eu bem que estava precisando de uma desculpa qualquer para puxar conversa com ela. E, se você está se perguntando que tipo de pessoa tenta arranjar uma transa no meio de um velório, sinto lhe informar: este alguém sou eu.

– Você está pensando o mesmo que eu? – perguntei.

– Depende. Estou pensando várias coisas no momento – foi a resposta dela. Sem malícia. Ela estava mesmo pensando em muitas coisas ao mesmo tempo.

Ficamos ali de bate-papo por uma boa hora, até que, cansada, ela (saudades de você, Michele) disse que ia sair para tomar um ar e nunca voltou. Paciência. Até porque eu estava certo e aquilo que parecia ser um enterro não era nada disso. Era uma experiência do tal Crisóstomo, o homem que tinha acendido os sírios e que, no exato momento em que registro as notas deste texto no meu caderninho, está ali no canto, um semissorriso no rosto, observando todos com a apreensão típica dos cientistas.

Sei que deveria ter ficado calado. Mas quem me conhece também sabe que, nestas horas, sou tomado por um impulso incontrolável de saber a verdade. Talvez por ter sido jornalista um dia. Talvez por ser apenas um chato. Fato é que fui até o sr. Crisóstomo. Que, para minha surpresa, parecia estar esperando por minha abordagem.

– Eu sei o que você está pensando e você tem razão.

– Sabe?! Tenho?!

– Sim. Isso daqui não é um velório de verdade; é uma experiência.

– Ah, o círio com “s”, não é? Eu bem tinha percebido.

– Esta é só uma das experiências. Não espalhe, mas quero ver quantas pessoas aparecerão por aqui me corrigindo, dizendo que círio é com “c”, não com “s”. Quero ver quantas pessoas lerão só o primeiro parágrafo e dirão que sou um analfabeto. Ou coisa assim – explicou ele.

– Interessante. Mas o senhor já parou para pensar que há outros dois resultados possíveis para esta sua experiência? – perguntei.

– Quais?

– Eu, por exemplo, jamais cogitei que pudesse haver um erro de ortografia de sua parte. Dá para ver que o senhor é muito inteligente. Na verdade, vim aqui lhe dizer que estou muito incomodado com a presença destes quatro sírios em chamas ao redor do caixão. O senhor não tem pena dos homens, não? E ainda por cima imigrantes!

– Mas e se eles fossem terroristas confessos? – tentou Crisóstomo.

– Ainda assim. Ainda assim.

Rimos os dois. Crisóstomo pediu licença e saiu para pegar um cafezinho. No caminho, deu a volta no caixão e, com gestos hábeis, apagou os círios que, no final das contas, nunca foram sírios. Aproximou-se, me deu uma xícara de café e finalmente perguntou:

– E qual seria a terceira possibilidade para isso tudo, meu astuto enlutado anônimo?

– A terceira possibilidade, meu caro, é também a mais assustadora: a de que as pessoas notarão o erro e se calarão, por timidez, educação ou… Como é mesmo aquela palavra em alemão que tá na moda?

– Schadenfreude.

– Isso mesmo. Perceberão o erro no primeiro parágrafo, desistirão de ler o restante do texto e passarão a vida toda achando que você não passa de um analfabeto. E rirão disso por dentro. E, sempre que virem seu nome por aí, se lembrarão dos sírios que não eram sírios, e sim círios.

Crisóstomo ficou ali mais um tempo. Eu, que nem conhecia o morto, ainda tentei abordar mais duas moças tristíssimas antes de pedir um Uber. Estava na porta do velório acompanhando o trajeto do carro pelo celular quando Crisóstomo pôs a mão no meu ombro – algo que não se deve fazer quando se tem tantos fantasmas por perto. Assustado, me virei para encontrar o novo amigo com uma risadinha perversa nos lábios.

– Você se esqueceu de uma quarta e quinta possibilidades, meu caro. Essas, sim, muitíssimo assustadoras!

– Quais? – perguntei. E, sinceramente, eu já estava de saco cheio daquela história.

– A possibilidade de não perceberem erro algum e de acharem que este é tão-somente um texto muito, muito retardado.

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Melena Contra o Mundo

por Paulo Polzonoff Jr. em 28 April 2017

Para Adlai Lustosa

 

No campo de quadribol da Academia Brasileira de Letras, Reri Potternilson dos Santos sobe ao púlpito para fazer seu discurso de posse. Ele assumia cheio de orgulho a cadeira número 291, anteriormente ocupada pelo dramaturgo e rapper XPTO – que, num gesto de rebeldia, deu um tiro na cabeça para provar que não era imortal coisa nenhuma. Reri, além de campeão mundial de quadribol, era um poeta celebrado pelo uso inovador de emojis, sobretudo a conturbada berinjela.

A plateia, formada essencialmente por octo e nonagenários, aplaude com toda a força que lhes é possível. Orgulham-se, aqueles senhores, de terem liderado a revolução tecnológica e cultural que possibilitou a chegada de um Reri (e, antes dele, do revolucionário XPTO) ao inegável posto de Maior Escritor do Brasil e Adjacências. Sobretudo das Adjacências.

Lá no fundo, porém, um homem não aplaude. Romulindo de Araújo & Costa & Silva & Alcântara & Etc. é inimigo mortal de Reri Potternilson. Mortal mesmo. Se ele chegasse a menos de dois metros do novo acadêmico, sentia falta de ar, o coração disparava e a glote fechava. O problema é que Romulindo está escrevendo um romance (também chamado de “textãozão”) sobre um homem que tem alergia a outro homem e que busca se matar simplesmente se aproximando da fonte alergênica. Romance autobiográfico (autoficção) mesmo.

Reri Potternilson agradesse a prezença di todoz e dá início a um discurso que mistura longos e constrangedores silêncios (artísticos), palavrões, gírias de um passado glorioso, quando as pessoas todas ouviam sertanejo universitário pós-graduado, e um pouco de baba. Certo, muita baba. Já no final do palavrório, ele faz o que todos esperam: tira uma varinha mágica do bolso do fardão, aponta-a na direção de uma coruja branca e recita as palavras mágicas. Aquelas que não se deve pronunciar nunca. De jeito nenhum.

Faz-se um silêncio evidentemente sepulcral entre os convivas. Dá para sentir a tensão no ar. Até Romulindo prende a respiração (ou talvez a glote dele tenha se fechado – jamais saberemos). O tempo parece parar.

Depois de uns quinze minutos sem que nada aconteça, a plateia irrompe num aplauso estrondoso. Reri Potternilson sorri diante da materialização de sua obra de arte. Ele queria apenas que houvesse um emoji para descrever aquela sensação que é de vitória. Bom, outro emoji que não aquele da bandeirinha quadriculada. Ou o da mãozinha fazendo “V”.

A alegria de Reri Potternilson, porém, acaba quando, do meio da plateia intelectual, surge ela, Melena di Melena & Melena. Alta, metade branca e metade negra, 51% do cabelo crespo e 49% liso e, reza a lenda, detentora de um astronômico QI (70), Melena di Melena & Melena (procurem no Google) ganhou notoriedade nos últimos tempos (dias) por seus poemas neo-ultraconcretos-ortodoxos feitos com o mais refinado pelo axilar. Verdadeiras obras-primas, como observou o renomado crítico Genyal Fecalis.

Num movimento mais lânguido do que lascivo (e vice-versa), Melena enfia a mão nodosa dentro do sutiã e de lá tira um pedaço de papel e um aparelhinho que parece um detonador. Mas que bem podia ser apenas um pez dispenser – nunca se sabe! Com a voz rouca que lhe é característica (e que arrepiou os pelinhos da nuca de Reri Potternilson, vale acrescentar), Melena lê as palavras que a imortalizariam (mas que críticos ranhetas como Genyal Fecalis diriam ter sido tiradas de um biscoito da sorte, veja só!): “Oito, dezessete, vinte e três, vinte e sete, trinta e nove, cinquenta”. E aperta o botão.

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Gazeta, mon amour (também uma confissão)

por Paulo Polzonoff Jr. em 26 April 2017

 

A Gazeta do Povo vai encerrar suas atividades. Tá, eles vão manter a edição eletrônica, mas, para mim, o fim do jornal impresso, soltando tinta, é a morte do jornal. O que nunca confessei a ninguém, mas confesso agora, é que a Gazeta do Povo foi o grande amor não-realizado da minha vida profissional. Por consequência, o fim do periódico meio que consolida a morte de uma parte importante de mim.

A Gazeta do Povo sempre esteve presente na minha vida. Lembro-me de me levantar bem cedo no domingo, o gramado coberto pela geada, e subir uma baita ladeira no Bairro Alto a fim de comprar o jornal numa mercearia do bairro. E voltar para casa com aquele volumão, todo orgulhoso de ser um filho perfeito, ainda que, para compra-lo, eu tenha pegado dinheiro sem permissão da carteira do meu pai. Ele nunca reclamou.

Além de me dar as tirinhas do Garfield, as fotos-legendas de lugares peculiares de um mundo pré-Internet e as brincadeiras da Gazetinha (sem falar em um ou outro encarte das Lojas Americanas, Pernambucanas ou Mesbla com as mulheres trajando deliciosas, digo, lindas lingeries), a Gazeta do Povo foi a responsável por parte da minha formação intelectual, com as colunas de Paulo Francis, aquela seção de fotos antigas do Cid Destefani e matérias e críticas do Caderno G.

Quando passei no vestibular, corri para a sede do jornal para pegar o exemplar com meu nomezinho orgulhosamente estampado. Foi como um primeiro beijo. Até que, logo depois, acontecesse a ruptura que, hoje sei, foi uma falsa ruptura: entrei para a faculdade de jornalismo e nela descobri que não era de bom tom ler a Gazeta. Muito menos declarar qualquer amor pela Gazeta. Meus professores diziam que tudo ali era manipulado e aprendi a ver os jornalistas como seres maquiavélicos, destinados a, numa galé de máquinas-de-escrever, criar um mundo dividido entre oprimidos e opressores. Essa bobajada toda que a gente “aprende” na faculdade.

(Mas que, com sorte, esquece logo depois).

Tive uma carreira profissional bastante interessante. Rápida. Meteórica, como se diz. Trabalhei nos vários lugares onde meu currículo diz que trabalhei. Mas nunca trabalhei na Gazeta do Povo. E esta é uma ferida que o fechamento do jornal escancara. Para minha própria surpresa, aliás. Fecho os olhos e me lembro das boas casas que me acolheram, mas nesta imagem falta sempre meu lugar ali na sede da praça Carlos Gomes. No final das contas, percebi recentemente que não fiz faculdade para ser jornalista; fiz faculdade para trabalhar na Gazeta.

Se me permito, pois, flertar com a nostalgia e me demorar num inútil momento de autocomiseração, é porque ela, a Gazeta da minha infância, adolescência e parte da vida adulta, acabou sem jamais me dar a mão. Sinto-me como aqueles personagens de romances de aventura que vivem milhares de coisas em todos os lugares possíveis para descobrirem que a felicidade simples estava ali perto, em casa mesmo. Só que, neste caso, a minha casa um tornado digital derrubou.

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D.

por Paulo Polzonoff Jr. em 16 September 2016

Na faculdade, eu era completamente apaixonado por uma menina muito magra e loira, a despeito da boca fina demais e do nariz estranhamente rechonchudo naquele rosto anguloso. Hoje sei que, a despeito do clichê, ou melhor, justamente por causa do clichê, o que me encantou nela foi a boina que usava numa aula do Hélio Puglielli.

Passei quatro anos atrás da moça, sem sucesso. Depois da faculdade, ela se mudou para a Itália. Insistente ou persistente, não sei, continuei tentando conquistá-la por e-mail, que era como os homens das cavernas se comunicavam. Deu certo. Assim que ela voltou ao Brasil, começamos a namorar.

Mas era um relacionamento fadado ao fracasso. Ela era evangélica atuante; eu… Bom, eu sempre fui uma confusão espiritual e naquela época não era diferente. Para um menino de 22 anos, porém, a diferença religiosa não tem nada a ver com um conflito espiritual. É a parte moral que entra em conflito com os hormônios em ebulição.

A moça, entre beijos mais ardentes, entre lençóis amarrotados, insistia em me evangelizar. Havia um estranho componente erótico nisso. Ela falava de céu e inferno bem reais depois do amor e eu me sentia deliciosamente pecador (com o perdão da rima) – um pecador abençoado pela presença dela.

Um dia, ela me convidou para uma festa com os amigos da igreja. Fui, claro. Gente chata, mas havia bebida e, naquela época, bebida resolvia praticamente todos os meus problemas de sociabilidade. Bebi e conversei e bebi e conversei e não me lembro de ter feito absolutamente nada de errado além de beber e conversar.

O problema é que o simples fato de eu estar bebendo parecia incomodar alguns. Ou melhor, algum. Em certo momento, um menino com cara de idiota (mentira, nem lembro da aparência dele na época) me puxou pelo braço, diante de todo mundo, e começou a falar alto demais sobre Deus e Jesus e bebida e inferno. Eu, que sou uma pessoa calma, fiquei ouvindo. Até o momento em que deixei de ouvir.

Uma das mãos segurava o copo de uísque; a outra se fechava num soco improvável. O menino (imberbe até hoje) soltando perdigotos cheios lá da virtude dele, enquanto eu estudava o cenário. Um soco naquela cara seria dramaticamente lindo, mas romanticamente desastroso. Meu namoro com a moça não era dos melhores, mas naquele momento eu queria que ela fosse a mãe dos meus filhos. Acho.

Não bati no sujeitinho. Deixei que ele terminasse a ladainha, voltei para o sofá e fiquei ali, admirando a moça que era infinitamente melhor quando habitava só meus sonhos, não a realidade.

Lembro do episódio e do menino (a quem chamarei apenas de “D.”) sempre que o vejo na televisão, o sotaque carregado demais, o narcisismo messiânico, o rosto imberbe, o humor sem graça, os olhinhos encantados com a própria virtude, guiando a turba em sua cruzada contra a corrupção.

E, com algum arrependimento, concluo: aquele soco que nunca dei e ele nunca levou teria feito bem a ambos. Quem sabe ele não estaria tão certo de si mesmo. Quem sabe a moça, aquela, estaria aqui ao meu lado agora: gorda e chata e amargurada. Mas ainda usando aquela boina.

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Dossiê Geneton

por Paulo Polzonoff Jr. em 5 September 2016

 

Estou há sete horas tentando escrever algo sobre meu querido amigo Geneton. Na verdade, sete horas só hoje, porque há duas semanas penso que deveria escrever algo para homenageá-lo. Um texto que só poderia receber o título de “Dossiê Geneton”.

Mas não consigo. Já pensei em falar um pouco do amigo que me ligava todos os meses para jogar conversa fora e até, pasmem!, para me pedir conselhos. Já pensei em contar nossas aventuras pela noite fria de Curitiba, há não muito tempo. Já pensei em simplesmente descrever a última conversa que tive com ele, a conversa que torna tudo absolutamente mais difícil. Mas não consigo.

Há quinze anos esse amigo improvável entrou na minha vida e se fez presente em todos os momentos, bons e ruins. Em meus delírios e angústias profissionais, na minha doença, que ele chamava carinhosamente de “polzonoffite”, na adoção do Davi, na minha separação. Geneton sempre tinha algo para dizer que me fazia rir ao telefone, algo que tangencialmente me fazia acreditar que todas as dificuldades valiam a pena quando se tem amigos.

Hoje, o eco da risada do meu amigo é o que dói mais. O que mais me assusta na morte é a impossibilidade do riso. A eternidade é insuportavelmente séria.

Um dia talvez eu consiga escrever o “Dossiê Geneton”, nem que seja para fazer jus à coisa mais linda que ele me disse naquela nossa última conversa. Mas não hoje. Talvez um dia eu consiga explicar que Geneton não foi apenas um profissional incrível, um jornalista dono de uma curiosidade infantil que fazia meus olhos brilharem. Talvez um dia eu consiga explicar que só não me sentia um completo desgraçado porque tive a graça de conhecer um ser humano como ele.

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