Aos amigos que perdi

Caros e caras (eu me recuso a usar o moderno x para designar o gênero, embora saiba que vocês gostariam muito que eu também me rendesse a este recurso da novilíngua),

 

Tentei. Juro que tentei. Nos últimos meses, tirei paciência e tolerância do fundo da minha alma, recorri à generosidade mais absurda e, em algumas noites, ousei até pedir a um Deus em que não acredito que me fizesse ver tudo por outro ângulo, um ângulo banhado pela luz da mais brilhante condescendência. Mas não deu. E é assim, com pesar, que encerro nossa amizade por um motivo que parece tolo e passageiro, mas que não é.

Parece política partidária, petismo e antipetismo, golpe e não-golpe, estas palhaçadas todas. Infelizmente você, amigo e amiga, é tolo demais para cair nestes reducionismos. Não vê que o conflito aqui é muito mais profundo. E assustador. Não se trata de ser contra ou a favor de Bolsa Família, Pronatec ou qualquer outro programa governamental; não se trata de respeitar um visão de mundo diferente, mas que talvez tivesse como ponto de convergência o objetivo pelo bem comum. Não. Vai muito além disso.

Trata-se de um choque de valores. Você admira políticos, você defende governos, você usa com orgulho símbolos de agremiações de bandidos, você encontra justificativas para os atos criminosos destes bandidos, você vê teorias conspiratórias em tudo. E o pior: seu narcisismo é tal que você se acha superior por ver a Verdade onde ninguém vê; você se considera especial e membro de uma “casta” capaz de guiar o mundo. Você, sinto lhe informar, é tão-somente uma criança daquelas que se acha predestinada. E é justamente nesta soberba que se revela sua pequenez.

Um dia eu disse que você era inteligente? Me enganei. Não é. Você é culto, em que pese o sentido hoje esvaziado da palavra. Você leu determinados autores, ouve aqui e ali músicas boas, talvez saiba até admirar arte renascentista; você assistiu a bons filmes e talvez até tenha rido sinceramente de uma ou outra piada high brow do Woody Allen. Mas isso não faz de você inteligente. Porque nenhuma pessoa verdadeiramente inteligente se submete à estética do coitadismo e do ressentimento. Nenhuma pessoa verdadeiramente inteligente sai por aí repetindo slogans mentirosos. Nenhuma pessoa verdadeiramente inteligente tem adoração por líderes políticos de qualquer matiz.

Se você é mau-caráter? Tenho minhas dúvidas. Na verdade, preciso acreditar que não. Acho mais que você se expõe assim ao ridículo por uma necessidade social. Você quer ser aceito pelas pessoas próximas. Só não entendo como alguém como você foi se cercar de pessoas tão desprezíveis. Por gente que explora a miséria alheia em troca de verbas publicitárias ou incentivos fiscais ou qualquer outra forma de cooptação criada por esta corja. Quero crer, amigo, que você se deixou contaminar pela sordidez, mas que um bom banho, no futuro, haverá de torná-lo respeitável novamente.

Não dá mais, amigo. Não dá. Eu tentei, juro que tentei. Parte-me o coração vê-lo partir com um chute no traseiro. Parafraseando todos os pais do mundo depois de uma bela cintada: dói mais em mim do que em você. E é verdade. Dói em mim. Uma dor que chega a ser física. Tenho vontade de chorar porque você é importante para mim. Mas, novamente, é uma questão de princípios: você defende uma cleptocracia – e isso é inaceitável. Pior: você faz malabarismos morais os mais toscos para justificar para si mesmo sua posição. Amigo, você é ridículo.

Vou guardar com carinho nossas melhores lembranças. E vou sentir falta de nossas risadas. O que não vou é esperar que você entenda meu afastamento. Afinal, amigo, sei que a autocrítica não é o forte do seu grupelho. Sei que, ao terminar de ler esta carta, você vai estufar o peito e dizer que sou um idiota. Talvez você diga até que sou um idiota tucano, um idiota de direita, um idiota neoliberal, um idiota a serviço do imperialismo, um idiota…

Dói muito dizer adeus. Mas é isso. Alguns chamam de danação, de fado. Eu chamo de sina. E, como já disse várias vezes, sinto que minha sina é esta: continuar lutando pela liberdade – inclusive daqueles que, como você, estão à vontade com a escravidão.

É sofrendo que me despeço,

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