Dossiê Geneton

 

Estou há sete horas tentando escrever algo sobre meu querido amigo Geneton. Na verdade, sete horas só hoje, porque há duas semanas penso que deveria escrever algo para homenageá-lo. Um texto que só poderia receber o título de “Dossiê Geneton”.

Mas não consigo. Já pensei em falar um pouco do amigo que me ligava todos os meses para jogar conversa fora e até, pasmem!, para me pedir conselhos. Já pensei em contar nossas aventuras pela noite fria de Curitiba, há não muito tempo. Já pensei em simplesmente descrever a última conversa que tive com ele, a conversa que torna tudo absolutamente mais difícil. Mas não consigo.

Há quinze anos esse amigo improvável entrou na minha vida e se fez presente em todos os momentos, bons e ruins. Em meus delírios e angústias profissionais, na minha doença, que ele chamava carinhosamente de “polzonoffite”, na adoção do Davi, na minha separação. Geneton sempre tinha algo para dizer que me fazia rir ao telefone, algo que tangencialmente me fazia acreditar que todas as dificuldades valiam a pena quando se tem amigos.

Hoje, o eco da risada do meu amigo é o que dói mais. O que mais me assusta na morte é a impossibilidade do riso. A eternidade é insuportavelmente séria.

Um dia talvez eu consiga escrever o “Dossiê Geneton”, nem que seja para fazer jus à coisa mais linda que ele me disse naquela nossa última conversa. Mas não hoje. Talvez um dia eu consiga explicar que Geneton não foi apenas um profissional incrível, um jornalista dono de uma curiosidade infantil que fazia meus olhos brilharem. Talvez um dia eu consiga explicar que só não me sentia um completo desgraçado porque tive a graça de conhecer um ser humano como ele.