Polzonoff

Entendo nada. Opino tudo.

John Hughes e a década que insiste em não terminar

clubedoscinco

Fazia tempo que eu não assistia a um filme de John Hughes – um dos meus diretores preferidos, cujos filmes formaram o caráter, por assim dizer, de toda uma geração. Até que u amigo mencionou no Twitter Namorada de Aluguel. Foi um dos primeiros filmes que aluguei no velho e bom videocassete. Empolgado e sem dar bola para o adiantado da hora, entrei na “locadora sueca” e em quinze minutos estava me deleitando com a comédia românica adolescente.

E, de cara, fiquei um tanto quanto espantado. Namorada de Aluguel é, inegavelmente, um filme libertário e, para os padrões de hoje, ousado. Muito mais ousado do que pornochanchadas como American Pie! Não só porque o filme sugere que a prostituição não é algo tão ruim assim (e nem é preciso ser rothbarthiano para concordar que não é mesmo), mas sobretudo pelos diálogos ríspidos. Numa época em que atores têm de ir a público pedir desculpas por ter usado a palavra faggot (viado, bicha), assistir a um filme adolescente de trinta anos sem este tipo de barreira é surpreendente.

Mas não quero falar de Namorada de Aluguel nem do clássico absoluto Curtindo a Vida Adoidado (outro dia, quem sabe). Empolgado, na mesma madrugada baixei toda a filmografia de Hughes como roteirista. E no dia seguinte estava diante da televisão para assistir a O Clube dos Cinco, do qual eu não me lembrava.

Ao saber de minhas intenções, um bom amigo me alertou: prepare-se para chorar. Foi exatamente o que fiz: preparei um gin-tônica, trouxe a coberta do quarto, ajeitei as duas gatinhas ao meu lado e comecei a assistir ao filme.

As lágrimas não rolaram. Seria melhor se tivessem rolado. No lugar das lágrimas, instalou-se um nó na minha garganta que dura até hoje, duas semanas mais tarde. Se você tem mais de trinta anos, O Clube dos Cinco é um filme que se vende como comédia adolescente, mas que na verdade é quase um drama sueco. Um filme duro e claustrofóbico (para os padrões atuais) que vale por alguns anos de análise.

O Clube dos Cinco tem um quê de O Senhor das Moscas: cinco adolescentes muito diferentes são obrigados a ficar de castigo na biblioteca da escola num sábado, durante algumas horas. No romance de William Golding, esse isolamento termina em tragédia. No filme de Hughes… também. Mas a tragédia, no caso do filme, não envolve os personagens, e sim o espectador. Arrasado, naquela noite tive de me arrastar para a cama, onde foi muito difícil dormir.

Hughes é um exímio compositor de personagens. Com um nerd, uma menina popular, um atleta, um valentão desajustado e uma menina, digamos, complexa, ele praticamente resume os dramas da vida adolescente nos anos 1980. Mas não só. Pode-se muito bem transpor os diálogos daqueles meninos e meninas para a vida adulta de hoje em dia, sem que o resultado se altere muito.

Isso é o mais assustador em O Clube dos Cinco. Assistimos ao filme hoje na esperança de encontrarmos um drama digno de riso e escárnio, problemas que foram naturalmente resolvidos com o tempo, e nos deparamos com questões ainda muito presentes. É pavoroso. Será que minha geração (tecnicamente, uma geração anterior à minha) jamais conseguiu superar os dilemas juvenis? E pior: será que nossa vida, incluindo nossas interações sociais, são tão determinadas assim pela geração dos nossos pais e por nossa necessidade natural de agradá-los?

São questões que cabem bem num divã. Eu, que já me submeti a centenas de horas de terapia, percebi que esse é um caldo no qual não vale a pena remexer. É uma molécula emocional instável, por assim dizer. Pois fica o aviso: O Clube dos Cinco provoca agira o caldo e desestabiliza a molécula. Você é uma pessoa de sorte se ficar apenas no choro sobre o balde de pipoca.

Orfandade, sedução e desencanto

pastorrebanho

[NÃO REVISADO]

Em 2002, aos 24 anos, se não me falha a contabilidade, eu me sentia intelectualmente órfão. Havia acabado de passar quatro anos numa universidade pública, supostamente reduto de certa “elite intelectual”, sem aprender rigorosamente nada. E foi no meio deste deserto de ideias que me deparei com as frases de efeito de Olavo de Carvalho. Era o início de uma história de sedução, desencanto e, agora, preocupação.

Passados mais de dez anos, quem busca meu nome no Todo-Poderoso Google ainda se depara com demonstrações inequívocas de devoção ao homem. Não me envergonho. Afinal, eu era apenas um jovem curioso e ansioso por orientação intelectual. É dessa época uma entrevista que fiz com Olavo de Carvalho por e-mail, na qual afirmo ridiculamente que “a inteligência não morreu”.

(Ah, como sinto falta daquele entusiasmo juvenil).

Aqui posso e devo refletir sobre o porquê de ter me deixado seduzir por Olavo de Carvalho e não, digamos, Mino Carta. Na verdade é algo bem simples. Em 1997, prestes a começar o segundo ano de  jornalismo na UFPR, recebi a notícia de que Paulo Francis morreu. Francis era minha principal referência cultural na época. Fiquei órfão. Tentei encontrar um substituto na faculdade, mas meus professores eram patéticos comunistas fracassados mamando nas esmilinguidas tetas acadêmicas. Cinco anos mais tarde, pois, quando me deparei com o nome de Olavo de Carvalho, e ainda mais com um “selo de garantia Paulo Francis” (se bem me lembro, Francis elogiou um livro de Olavo), achei que havia descoberto uma nova referência.

E mais: descobri que não estava sozinho. Naqueles tempos pré-redes sociais, levei um tempo, mas logo percebi que havia outras pessoas que orbitavam Olavo de Carvalho. Finalmente eu não estava mais sozinho. Rapidamente fiz amizades entre aqueles que viriam a ser chamados zombeteiramente de “olavetes” e, sem titubear, me tornei um “olavete” também.

Olavo de Carvalho tem o tom da sedução. Isso é inegável. Há algo de messiânico em seu discurso. Em 2002, eu me deixei levar pela ideia de pertencer a um grupo de pessoas especiais que viam o mundo por um prisma também especial. No meu caso, a palavra que me seduziu foi “indivíduo”. Aquilo me fascinou tanto que, querendo me aproximar ainda mais do “mestre”, fui até mesmo a uma igreja a fim de resgatar meu catolicismo.

Mas logo aconteceria a cisão. Gostaria de dizer hoje que discordei das ideias de Olavo de Carvalho depois de uma espécie de Revelação. Não foi o caso. Comecei a me afastar dos queridos amigos simplesmente porque devo ser uma espécie de desajustado e não gosto do pensamento em grupo. Na época, cheguei até mesmo a debater isso com alguém: como era possível exaltar o indivíduo quando se forma um consenso em torno de Olavo de Carvalho? Aquilo me parecia uma contradição – e era mesmo!

E ainda havia a questão do conservadorismo. Eu não podia continuar me enganando: não era um conservador. Nunca fui e jamais seria.

Foi bem difícil romper com os amigos. Bem difícil mesmo. Eram pessoas que eu admirava profundamente e com as quais aprendia muito. Mas houve um momento em que as diferenças se tornaram muito evidentes. Ingenuamente, compartilhei minhas ideias “heréticas” com uma pessoa durante uma gostosa caminhada pela pista Claudio Coutinho. Eu não sabia, mas aquele diálogo marcava não só minha exclusão de um grupo como também o início de um período de conflito.

Mas o tempo passa. O tempo cura. O tempo ensina.

Menos de uma década mais tarde, eis que me vejo cercado novamente por aquelas pessoas admiráveis. Noto que compartilhamos uma história semelhante de orfandade, sedução e desencanto. Prezo muito minha amizade com estas pessoas, apesar da distância física que nos separa. Se não exponho o nome delas é porque respeito à privacidade.

Hoje, cada qual lida com Olavo de Carvalho do seu jeito. Alguns lhe dão o benefício do desprezo – atitude que acho a mais louvável e sábia. Outros recorrem ao humor e escárnio para desacreditar o ex-Mestre.

No que me diz respeito, lidei com a “experiência” Olavo de Carvalho com a bipolaridade que me é característica. Primeiro tentei o humor no célebre (entre os “iniciados”) texto O Roqueiro Improvável, mas, diante da reação raivosa, acho que virei bicho também. Isto é, mostrei os dentes e voltei correndo para a toca, porque não era nada bobo e sabia que não tinha capacidade de argumentar com Olavo e seu séquito.

A esta altura, talvez você esteja se perguntando por que estou escrevendo isso? Um pouco por nostalgia, confesso agora, depois de reler os parágrafos acima. Era bom ter alguém que servisse como norte intelectual. E era bom estar cercado por pessoas com ideias semelhantes. To belong.

O verdadeiro motivo deste texto, contudo, é oferecer um depoimento sobre o poder de sedução de Olavo de Carvalho ou qualquer outro guru ideológico, seja ele de esquerda ou direita, aristotélico ou platônico, católico ou xamanista. E ressaltar a importância do distanciamento crítico. Sempre, sempre, sempre. Falta-me, no entanto, a pretensão para dar lição de moral em quem quer que seja. Há muito tempo, aliás, alguém me disse que meus textos eram “dogmáticos demais”. Desde esse dia tomo o cuidado para não parecer que estou dogmando.

Todo mundo tem direito a seus faróis, sejam eles filósofos, líderes religiosos ou políticos. Olavo de Carvalho se presta a esse papel, assim como, para outros, Reinaldo Azevedo, Lula ou Mino Carta. O importante, penso, é tentar manter viva sempre a chama da dúvida. Não existem discursos perfeitos. Frases de efeito geralmente apenas escondem a superficialidade do autor (como essa, por sinal). E, quando alguém se diz detentor de um conhecimento especial, de uma visão de mundo única e, claro, sempre correta, sugiro que se recorra ao velho e bom ponto de interrogação.

É pretensão de minha parte, reconheço, mas me preocupa ver pessoas inegavelmente inteligentes caindo na mesma armadilha em que já caí, e pelos mesmos motivos, isto é, orfandade intelectual e, em muitos casos, emocional. Na dúvida, paradoxalmente sugiro que se recorra àquela mesma palavra que me seduziu há mais de uma década. Afinal, o indivíduo é sempre mais complexo do que o grupo, qualquer grupo, inclusive o de indivíduos que, por vias tortas, perderam sua preciosa individualidade.

 

_____________________________________________

* Um bom amigo me adverte para uma incorreção ou omissão neste texto. Enquanto minha geração de olavetes se aproximou do Guia mais por afinidades filosóficas, a nova geração parece ter se aproximado dele por conta de um sentimento comum de antipetismo, isto é, por conta dos posicionamentos políticos dele.

De fato Olavo de Carvalho se tornou uma figura até mesmo caricata por causa de sua paranoia política (“É o Foro de São Paulo, PORRA!”). Mas optei por não tocar nesse assunto por enquanto. Até porque a paranoia política de Olavo de Carvalho, bem como a sedução de jovens expoentes culturais, têm razões bem menos “nobres” do que se supõe.

Semicalado, por assim dizer, resta-me o consolo de constatar que, num intervalo de uma década, praticamente todos os olavetes se afastaram do Mestre. Não se pode ignorar esse dado. E duvido que uma mente minimamente aguçada não se dê ao trabalho de questionar ao menos o porquê de tal afastamento em massa.

Nestas estrelas, nada é por acaso

The_Fault_in_Our_Stars

[CONTÉM MUITOS SPOILERS. NÃO REVISADO]

Para @lisandro e Aline

Li The Fault In Our Stars (A Culpa é das Estrelas) e escrevi um texto conclamando os amigos sensíveis ao choro. O tempo passou e o normal seria que livros deste tipo caíssem no esquecimento daquelas experiências tão marcantes quanto passageiras. Mas não foi o que aconteceu. Levado a repensar o livro depois de assistir à adaptação cinematográfica, ocorreu-me que The Fault In Our Star é melhor do que eu supunha.

O romance de John Green, contudo e entretanto (sic), parece ser vítima de um fenômeno muito comum entre leitores de grandes obras e/ou intelectuais: o sucesso comercial dele serviria como prova inequívoca de que é um livro ruim. Afinal, algo escrito para as massas não pode ter qualidades que só nós (eu não; eles!), espíritos elevados, somos capazes de compreender.

Besteira, claro. Que o diga a própria biografia do autor, John Green. Ora, quem me conhece um pouquinho sabe que defendo o desprezo quase total ao autor de qualquer livro. Evito ao máximo que a obra seja contaminada pelo autor. Eu não tinha ideia de quem era John Green até que, há alguns dias, uma amiga me disse que ele era um dos responsáveis por um canal educativo no Youtube. Fui conferir e fiquei abismado – mas não muito. John Green “leciona” literatura para jovens em vídeos curtos. E, ali, comprova minha teoria instintiva: há muito mais em The Fault In Our Stars do que você supõe.

A começar pelo título, que eu insisto em mencionar no original em inglês. Não, não estou querendo bancar o fodão poliglota (até porque não sou). Cito o título em inglês porque na tradução algo bastante interessante se perde. Numa tradução literal, o título do romance deveria ser “a culpa em nossas estrelas”, e não “a culpa é das estrelas”. Não entendo o motivo da adaptação.

O título faz referência à peça Júlio Cesar, de Shakespeare. Nela, Cássio diz:

“The fault, dear Brutus, is not in our stars,

But in ourselves, that we are underlings.”

 

O detalhe é que esses versos parecem sugerir justamente o contrário do que diz o título em português. Isto é, a culpa não é das estrelas, e sim da própria condição humana. Nossa vida, com seus amores e dissabores, não tem a ver, portanto, de algo determinado pela disposição das estrelas (astrologia); a felicidade e o sofrimento são coisas inerentes à nossa mortalidade.

O título também pode fazer referência ao peso que o acaso tem sobre nossas vidas. Somos feitos de matéria estelar e, assim como as estrelas, também temos um ciclo de vida marcado pela inevitável mortalidade e por “acidentes celestes”. É por acaso que as estrelas nascem, crescem, se chocam, se fundem, são abduzidas por buracos negros, etc. Da mesma forma, é por puro acaso que as células do nosso corpo (matéria estelar, vale insistir) se reproduzem de alguma forma equivocada, dando origem ao câncer – tema tangencial do romance.

 

*

 

Ora, muito se falou sobre a inverossimilhança de personagens adolescentes que falam como adultos sábios. Besteira. Verossimilhança por verossimilhança, qualquer livro com personagens adolescentes seria ilegível e vazio, simplesmente porque a confusão é uma das características desta fase. John Green, pois, se utiliza de um artifício bastante eficiente para compor personagens que têm não só carisma como personalidade.

O que vale a pena destacar aqui é a postura estoica da protagonista, Hazel. A postura dela diante do câncer, do que resta da vida e do amor beira ao budismo, por assim dizer. Hazel contempla a vida, a morte e o amor como nenhuma adolescente seria capaz de contemplar. John Green retrata muito bem esta postura ao narrar a experiência de quase morte de Hazel, quando a mãe dela, aos prantos (da personagem, leitores e espectadores), lhe diz para “descansar”, isto é, morrer.

Se aceitar a própria morte é algo complicado, imagine aceitar a morte da filha única! O estoicismo de Hazel, pois, parece ter origem familiar – o que é apenas especulação da minha parte e nada acrescenta ao romance. O importante, isto sim, é dar atenção à postura dela em relação a todos os acontecimentos do livro. A alguns pode parecer que Hazel assume uma postura blasé. Besteira. Hazel sabe que vai morrer e, mais do que qualquer um, sabe que tudo é efêmero.

Daí a incrível passagem, no livro (no filme a cena perde força), da experiência sexual de Hazel e Augustus. Não se trata de algo arrebatador, como seria de se esperar de um escritor menor, propenso aos lugares-comuns. John Green, contudo, sabe que aquele momento é (como tudo!) transitório e efêmero. Sob uma perspectiva estoica, apenas uma experiência a mais para Hazel, diminuta em relação ao assustador gozo da morte.

Os exemplos de desapego se sucedem. Por que você acha que o autor dá tanta ênfase à venda do balanço, por exemplo? E, na narrativa, qual a função do menino cego que leva um pé na bunda da namorada se não a de criar um contraponto ao estoicismo de Hazel?

 

*

 

Por fim, um detalhe para o qual atentei somente depois de assistir à adaptação cinematográfica: o revoltante escritor Van Houten, fonte de muito ódio durante a leitura do romance. Afinal, qual a função dele no livro? Claramente não é oferecer uma visão “nua e crua” do câncer; a própria Hazel se encarrega disso. Ela nunca se faz de vítima.

Numa leitura superficial, pode-se pensar que Van Houten personifica a autodestruição, isto é, alguém que escolheu uma vida de sofrimento, em oposição a Hazel e Augustus, jovens aos quais o sofrimento teria sido imposto pelo câncer. Pode ser, mas… surpresa! Não é.

Quem, então, é Van Houter?

Prepare-se porque a resposta não é muito fácil de engolir.

Van Houten é, no romance, ninguém mais ninguém menos do que Deus. Não à toa Hazel se refere a Uma Aflição Imperial, livro de Houten, como uma espécie de Bíblia que norteia seus passos. Houten é, a princípio, a “Voz Que Tudo Sabe”. Mas também é o “Mistério”, já que escreveu um livro que termina aparentemente sem mais nem menos, dando origem a um enigma que, para Hazel, é maior do que a própria morte que se aproxima.

A dúvida “o que aconteceu com os personagens de Uma Aflição Imperial” é a própria dúvida do que existe depois da morte. Daí porque o encontro dos jovens com o escritor nos parece tão frustrante. John Green não responde à dúvida de Hazel, simplesmente porque é impossível respondê-la.

(E, se você é um leitor esperto, deve agora estar dando gargalhadas do fato de Van Housen ouvir rap sueco! Ora, como poderia ser diferente se Deus se comunica com a gente por meio de sinais muitas vezes ininteligíveis?)

No fim do romance, Van Housen reaparece no funeral de Augustus (nada mau para um ser Onipresente). Ele tenta estabelecer um diálogo com Hazel, mas é repelido. É o golpe de mestre de John Green: o estoicismo de Hazel se sobrepõe aos devaneios infantis de alguém que quer descobrir o que há depois do ponto final de um livro qualquer. Ela despreza Deus, digo, Van Housen, para dar atenção à única Graça terrena de que dispõe, isto é, às palavras finais de Augustus.

E a eulogia de Augustus é aquilo que se traduz em lágrimas (no meio caso, muitas lágrimas, soluços e até gritos desesperados): Hazel é abençoada o suficiente para ter, em vida, o reconhecimento que a maioria das pessoas só obtém depois de mortas.

Arght

reurei

Passaram-se semanas. Ainda bem. Se eu escrevesse este texto há vinte dias, logo depois de concluir a leitura de O Réu e o Rei, de Paulo César de Araújo, teria começado o texto com impropérios. Muitos impropérios, aliás. Dirigidos, claro, contra aquela que considero a personalidade mais abominável da nossa música: Roberto Arght Carlos.

Mais do que um relato simples, direto e revoltante do abominável caso de censura envolvendo o cantor fanho e perneta e o biógrafo, O Réu e o Rei é uma história de deslumbramento, superação, descoberta e decepção. No livro, o cantor imbecil é personagem secundário; o protagonista é mesmo Paulo César de Araújo, que narra décadas de adoração que foram jogadas no lixo dentro de uma salinha num tribunal de São Paulo.

Aí reside a maior qualidade e o pior defeito de O Réu e o Rei. Paulo César de Araújo pinta para si mesmo um “retrato sócio-cultural” que por vezes cansa o leitor. Em certo momento, fica-se com a impressão de que a violência de que Paulo foi vítima se deveu mais à sua origem humilde, o que evidentemente não é o caso. Ao mesmo tempo, trata-se de uma abordagem corajosa, emotiva e intelectualmente honesta – o que sempre é bom exaltar.

Roberto Arght Carlos e seu comportamento abjeto são dignos de estudos sobre psicopatias. Trata-se de um ego que se considera acima do bem e do mal. E que, infelizmente, encontra respaldo jurídico (e cultural) para tanto. O episódio da audiência em São Paulo, aquela na qual o excelentíssimo juiz pediu autógrafo a uma das partes, é revoltante. Sem exagero, ao ler estas passagens eu virava as páginas e gritava obscenidades para o quarto vazio. É, com o perdão do termo (o mais ameno possível), escroto.

Aliás, talvez sem querer Paulo César de Araújo acabe por criar um retrato bastante preocupante do nosso sistema jurídico. Não apenas por conta do juiz/compositor evidentemente ansioso por entregar seu trabalho ao reizinho e, quem sabe, ter uma música gravada na voz famosamente fanha do ídolo, como também por conta do caráter gelatinoso dos advogados envolvidos no caso, dos argumentos baseados em manipulações grotescas e do mais preocupante: a consciência que se vende por qualquer trocado.

Digno de menção é também o relato direto e nada diplomático (como seria de esperar no complexo mercado editorial brasileiro) que Paulo César de Araújo faz da subserviência da poderosa editora Planeta diante das ameaças daquele Cujo Nome Me Provoca Ânsia de Vômito. A opção editorial e política por não brigar com o censurador é vergonhosa e incompreensível, em se tratando de um dos maiores conglomerados editoriais do… planeta.

Ao narrar toda a saga de entrevistas que o levou a escrever a biografia de Roberto “Arght” Carlos, Paulo César de Araújo também mostra um pouco do caráter esquizofrênico do mundo artístico brasileiro: “jênios” louvados por lutarem contra a ditadura que, uma vez expostos à liberdade própria e alheia, não hesitam em assumir uma postura autoritária e proibir textos biográficos. Isso sem falar na mesquinharia de intelectos limítrofes como o de Djavan, para os quais a questão é meramente financeira.

Mas atenção: a leitura de O Réu e o Rei tem um perigoso efeito colateral: é praticamente impossível continuar ouvindo as músicas do Néscio Real. Para mim, o efeito colateral foi potencializado: não consigo ouvir nenhum dos “jênios” da chamada Máfia do Dendê (apud Cláudio Tognoli) sem sentir nojo.

Por último, vale a pena notar que O Réu e o Rei é também um livro “malandrinho”. Aqui e ali, o livro dribla a censura e cita e comenta todas as passagens que poderiam ter motivado a proibição da famigerada biografia do Monarca Abjeto, como as orgias da Jovem Guarda e a amputação da perna. Paulo César de Araújo menciona até mesmo piadas deliciosas do fictício jornalista Agamenon, que não poupa críticas pesadas – e muito engraçadas – ao Reitardado.

É o humor que consola. Até que, claro, resolvam proibi-lo também. O que, infelizmente, é uma possibilidade.

 

_______________________________

* Em certo momento do livro, Paulo César de Araújo gentilmente menciona o perfil biográfico de Manuel Bandeira que escrevi e que também foi censurado pela família do poeta. Mas o caso do meu livro é bem diferente. Em breve, pretendo contá-lo em mais detalhes. Nada muito dramático; só para esclarecer algumas coisas.

Já volto

Oi.

Estou um tanto ocupado com trabalhos e escrevendo nada menos do que dois livros ao mesmo tempo, por isso está difícil aparecer por aqui.

Mas eu volto, ah, se volto.

Permita-se chorar, cara

The_Fault_in_Our_Stars

[CONTÉM SPOILERS, acho]

Segunda-feira, fui dormir chorando. Na verdade, estava exausto de tanto chorar. Tudo por causa de um livro que resolvi ler de uma hora para a outra: The Fault In Our Stars (A Culpa é das Estrelas), de John Green. Ainda agora, passados dois dias, não consigo deixar de me lembrar da última frase do romance sem sentir um nó na garganta.

É por causa de livros como este que ignoro e desprezo exegeses literárias. O intelequitual aí ao seu lado vai torcer a boca, dizendo que se trata de um best-seller melodramático indigno do seu precioso tempo. Vai dizer que os personagens são inverossímeis, que o enredo é óbvio (não é) e que o estilo é primário.

Besteira. Leia o livro. E permita-se chorar, cara.

Desde segunda, aliás, tenho pensado muito no que leva as pessoas a terem uma abordagem exageradamente racional quanto à literatura (e qualquer outra manifestação artística). Mais importante: por que é que algumas pessoas se recusam tanto a chorar diante de um livro, uma música, um quadro, um filme?

Claro que há pessoas que não se emocionam facilmente. Mas reparo também que há pessoas que contém o choro a qualquer custo, como uma prova de “superioridade intelectual”. É como se chorar fosse algo incompatível com a inteligência. Quando é justamente o contrário!

Se você está aí bancando o Intelectual Que Nunca Chora (Nem Ri!), fique atento: investigar a própria alma é trabalho intelectual dos mais difíceis e nobres. Estudar a própria experiência, as emoções ocultas e também aquelas que estão prestes a aflorar é atividade que exige extrema coragem e honestidade intelectual.

Além disso, abordar livros como The Fault In Our Stars como se você fosse um Harold Bloom só pode ser descrito como estupidez. O romance não é livro destinado à exegese fria deste tipo de gente emocionalmente deficiente. Estilo, construção dos personagens e sutilezas (ou a ausência delas) do enredo estão fora de questão. Sinto ter de lhe dizer isso, mas, se você é incapaz de se deixar envolver por uma história bem contada, é porque você perdeu algo de essencial no meio do caminho.

Em The Fault In Our Stars, tudo o que importa é a emoção que o livro consegue despertar em você. Emoção que ultrapassa o tema óbvio do câncer na adolescência. Se você for razoavelmente inteligente e corajoso o bastante para derrubar este muro de pedra que construiu em torno do seu coração, vai perceber na narrativa questões bastantes interessantes sobre Deus (ou deus, seu chato!), a reação das pessoas diante da proximidade da morte e, acredite ou não, sobre a própria literatura e a influência da arte sobre, neste caso, os leitores.

Há algum tempo escrevi que a literatura é um exercício de generosidade tanto de quem escreve quanto de quem lê. Sem esta troca de generosidade, não há possibilidade de comunicação. O que descubro só agora, contudo, é que é preciso muito mais generosidade para se deixar tocar por uma narrativa simples do que para se deixar impressionar por exercícios de linguagem.

Seja, pois, um leitor generoso. Sempre. Diante de qualquer livro. E ria, quando for o caso. E chore, chore muito, chore sem vergonha.

Introdução à Comunhão Literária

hostia

Taí algo que sempre me incomodou quando eu escrevia profissionalmente sobre livros: a necessidade de expor pontos de vista e ideias sobre livros que simplesmente não me despertavam nenhum ponto de vista ou ideia. E o pior: muitas vezes ter de fazer isso em mais de dez mil caracteres.

Eu me sentia uma fraude. Muitos vão dizer que eu era mesmo uma fraude. Concordo, ainda que provavelmente por motivos diversos. Eu não era uma fraude porque fosse desonesto em minhas observações. Ah, quantas noites eu não passei em claro lendo livros absolutamente estéreis e tentando extrair deles uma gotinha de emoção que fosse?! Era dessa gotinha que eu extraía às vezes teses longuíssimas sobre o que quer que fosse.

A fraude não estava no conteúdo das minhas esforçadas análises, e sim na própria atividade de crítico literário (ou resenhista, chame como quiser). Há algo de incrivelmente mentiroso em avaliar racionalmente uma obra de arte, seja ela literária, musical ou plástica. O filtro “lógico” imposto pelos críticos de arte é o próprio embuste que denuncia a mentira da atividade.

Simplesmente porque não há nem pode haver nada de lógico, de racional, de cerebral na apreciação de uma obra de arte. Arte é emoção. Sempre. Uma emoção que atinge as pessoas em níveis diferentes (ou não atinge, e a ausência de impacto não deixa de ser uma forma de impacto), dependendo de inúmeros fatores sobre os quais os exegetas não têm qualquer controle e aos quais não têm nenhum acesso.

Isso sempre foi algo que me incomodou. Talvez por isso mesmo eu tenha me esforçado tanto em criar uma espécie de “atmosfera biográfica” para contextualizar e individualizar minhas análises. Um livro nunca é apenas um livro; um livro é o leitor e suas referências. Tentar criar um ambiente estéril para analisar livros (ou quadros ou músicas) é coisa de deficientes emocionais.

Hoje me causa certa ânsia de vômito perceber, no meio de um livro que não consegue estabelecer qualquer conexão mais profunda comigo, que estou analisando o estilo, a construção dos personagens e a própria estrutura do livro em busca de algo com que construir uma análise crítica ou coisa que o valha. Pensar que há pessoas que fazem disso meio de vida abala meus frágeis aneurismas.

Questiono até mesmo ex-ídolos do passado ou do presente, como Otto Maria Carpeaux e Harold Bloom. Aliás, todos sabem que Bloom sempre foi um autor pelo qual nutri especial afeto. Hoje, porém, só consigo nutrir pena por alguém que, diante de Hamlet, se detém em coisas como pentâmetro iâmbico. E, cá com meus botões, questiono se esse temor em entrar em águas emocionalmente mais profundas é apenas covardia ou falha de caráter mesmo.

Sobre essa coisa de analisar “racionalmente” os livros que se lê, nenhum exemplo é mais digno de piedade do que Wilson Martins. Durante décadas, WM foi um crítico temido por autores e editores. Suas análises eram supostamente precisas. Uma precisão alcançada, como me explicou certa vez o próprio WM, pela distância com que ele lia a obra a ser analisada.

Pois eu nunca consegui ler um só texto de WM até o fim. Quando tentava, logo depois tinha de lavar as mãos por perceber que estivera tocando em algo intelectualmente falso (intelectualmente falso porque destituído de qualquer forma de humanidade). A distância da qual WM tanto se vangloriava (e que tantos críticos e aspirantes a críticos infelizmente almejam) era justamente a prova da inutilidade de suas (dele) palavras.

Falo aqui a respeito da literatura, mas o mesmo se aplicada à música, cinema ou artes plásticas. Qualquer pessoa que se diga capaz de ouvir um disco ou assistir a um filme “com a devida distância” é (i) um imbecil, (ii) um mentiroso e (iii) os dois. Nas artes plásticas, aliás, a vitória do “discurso racional” levou justamente ao afastamento cada vez maior entre a obra e o público, que hoje precisa de verdadeiros manuais para compreender conceitos complicadíssimos por trás de, sei lá!, esculturas feitas com sacos de lixo.

Mas tergiverso. Convém voltar aqui à questão que me motivou a escrever esse texto: por que os leitores profissionais (e muitos amadores também) insistem em praticar ou consumir análises fraudulentamente racionais em vez de se voltar a uma abordagem mais emocional? As respostas são muitas. Aqui, me divirto especulando.

Primeiro, a facilidade do discurso racional sobre o emotivo. Ora, uma análise emotiva exigiria um texto igualmente emotivo, e críticos em geral não são artistas capazes de expressar suas emoções. Daí porque se ater ao pentâmetro iâmbico em vez de se aprofundar no inesquecível conselho de Polônio ao filho, por exemplo.

Depois, algo a ver com pudor. O texto racional fraudulento (com o perdão pelo pleonasmo) é naturalmente contido, uma característica que muitos confundem com elegância. Para escrever uma análise minimamente sincera e emotiva é preciso se expor. E são raros o que estão dispostos a isso.

Entre os motivos que levam os críticos a optarem pelo discurso racional mentiroso eu citaria ainda o medo. É preciso coragem para explorar a própria alma em buscas de referências que deem suporte à apreciação da obra de arte. Este medo gera uma atmosfera de vaidosa imunidade emocional. Trata-se de uma lógica totalmente distorcida, na qual o leitor ideal seria exatamente aquele que não se mostrasse abalado de nenhuma forma pela obra de arte.

Por fim, outro motivo que leva os críticos, resenhistas, leitores profissionais, exegetas e entusiastas a exercerem com esmero a atividade de “analista racional” é… a estupidez pura e simples. Ao longo dos últimos séculos, desenvolvemos (eu não; vocês!) uma série de artimanhas de discurso para ocultar falhas graves de caráter e cognição. Dentre elas, eu daria especial destaque à sintaxe da crítica, com seu jargão empolado e vazio. Bom exemplo disso é o já citado Wilson Martins, que escrevia laudas e mais laudas sobre determinados livros, sem dizer rigorosamente nada relevante.

[A verdade é que, se você souber colocar meia dúzia de conjunções num texto e se, por milagre, não separar sujeito do predicado com uma vírgula, são grandes as chances de você ser considerado um gênio.]

De minha parte, fica a certeza de que a vida de um amante dos livros é feita de muitíssimos títulos que se dividem em três grupos. Quase a totalidade é composta por “livros que se lê” – aqueles livros que você consta como lidos numa tabela do Excel, mas que não acrescentam ou tiram nada da sua vida. São livros cuja “apreciação racional” é tão fácil quanto mentirosa. Basta usar uns lugares-comuns aqui, defecar um ou outro conhecimento de análise sintática ali – e pronto.

Outro grupo, de uns dez títulos, se tanto, é composto por “livros que se admira” – se você for um leitor razoavelmente experiente, notará as qualidades do livro, por mais que ele não toque seu coração. São também livros que muitas vezes vêm com uma grande história por trás (foi proibido em determinado país ou época, foi escrito por um autor que se destacou por outras coisas que não apenas a literatura, etc.). Escrever sobre eles é muito fácil porque são livros que, independentemente do conteúdo, contém muitos elementos externos e internos para nos distrair. Um exemplo que me ocorre agora é Grande Sertão: Veredas.

Por fim, há o precioso e extremamente seleto grupo dos “livros que se ama”. São livros que podem ou não ser canônicos, mas que o tocaram profundamente e que jamais, em hipótese alguma, serão esquecidos. A análise destes livros é especial, admirável e cada vez mais rara, porque requer de quem escreve e lê um grande comprometimento emocional. Para mim, só me interessa escrever e ler sobre os livros deste último grupo.

Recomendação emotiva

Leiam The Fault In Our Stars, do John Green. Estou chorando desgraçadamente há meia hora, sem exagero.

 

You don’t get to choose if you get hurt in this world, old man, but you do have some say in who hurts you. I like my choices. I hope she likes hers.

Tatiana

tatiana

Tatiana foi me receber no aeroporto.  Eu não tive dúvidas: tasquei-lhe um beijo de língua no meio do saguão de desembarque. Ela titubeou a princípio, mas logo entreabriu a boca e cedeu. Confesso: fazia algum tempo que eu não beijava ninguém. Por isso mesmo me detive naquela boca até o limite do aceitável.

E havia muitos limites sendo questionados naquele momento. Um deles, a idade. Tatiana tinha dezenove anos recém-completados. Eu era um senhor de mais de trinta, numa evidente e precoce crise de meia-idade. Minha roupa exageradamente juvenil denunciava meu estado de espírito.

Pegamos um táxi e eu fui rápido: vamos para o hotel e depois, talvez, um cinema. Eu era um homem mais pudico do que gostava de admitir. Em chegando à recepção, virei-me para Tatiana e pedi que ela esperasse ali enquanto eu trocava de roupa.

Mas Tatiana tinha dezenove anos, o que era maravilhoso. Ela me olhou e sorriu. Naquele sorriso percebi que meus sonhos seriam realizados. Ela entrou comigo no elevador e nossos olhos se fixaram uns nos outros. Eu estava prestes a ser um menino novamente.

À porta do quarto, a timidez tomou conta de mim. Inesperadamente. Senti uma vergonha súbita dos meus pelos, minha barriga e minha calva. Senti-me patético, como se quisesse provar alguma coisa para mim mesmo. E queria mesmo: queria provar que ainda era capaz de amar como um adolescente.

Tatiana me deu a mão e entramos no quarto como velhos namorados. Ela se jogou na cama e me convidou a conhecer seu corpo. Tatiana usava uma saia florida e uma blusinha simples. Ela tinha um sorriso perfeito, emoldurado por óculos que lhe conferiam um ar de superioridade. De repente eu me dei conta de algo que me era muito caro: aquela menina me desejava. Eu não sabia ao certo por quê, mas ela me desejava.

Nada mais natural, portanto, que eu cedesse àquele desejo mútuo. Que se danassem as certidões de nascimento!

Pus uma das mãos na coxa muito branca de Tatiana. Insinuando-me por debaixo da saia, disse que queria vê-la vestida, mas sem calcinha. Ela apenas sorriu. Tatiana tinha todo um vocabulário de sorrisos que me encantavam. Com uma habilidade que eu desconhecia ter, tirei a calcinha dela, admirando o olhar de falsa surpresa em seu rosto.

Não havia retorno. Ainda bem. Tatiana disse que queria saber como era ter um homem mais experiente, o que levei como elogio. Confessei que queria me lembrar de como era tocar uma mulher mais nova. Ela se entregou com uma facilidade que achei meio intimidante. Eu a possui com uma vontade que considerava já extinta.

Perdemos a hora do cinema e do jantar. Ignoramos o pôr do Sol e os sons sedutores da madrugadas. Naquele dia, existimos apenas um para o outro. E, entregues ao desejo, fizemos sinceras e mentirosas juras de amor eterno.

Na manhã seguinte, Tatiana subiu em mim e, num gesto de pura generosidade, colocou o seio muito branco na minha boca. Eu o abocanhei com fome. De alguma forma, sabíamos que nosso tempo era curto. Com aquele seio na boca, senti-me revigorado. Como era boa a ilusão da eternidade!

 

[Este texto é fictício. Sobre as implicações de escrevê-lo, sugiro a leitura de Pudores e Pudores II. Qualquer semelhança é uma traquinagem do destino – ou do inconsciente, sei lá. O texto faz parte de uma série de crônicas chamada 100 Mulheres.]

De sfumatos e Madonas

oprofessortezza

Para Tina Lopes

O Professor, mais recente romance de Cristóvão Tezza, é impecável. Mas, em sendo impecável, é também um livro ruim. Contradição? Nenhuma. O livro apenas dá sequência a esta estranha tradição literária brasileira: livros que a olho nu são ruins, mas que sob a lente de um microscópio são dignos dos maiores elogios.

Como assim?!, você me pergunta com cara de indignação. Não estou querendo complicar. Tudo é muito simples. O Professor (como a maior parte da obra de Tezza, aliás) é gramaticalmente perfeito. É admirável o esmero lexical, as frases todas costuradinhas e até mesmo uma ou outra traquinagem com a língua. Meu lado Bechara tem espasmos de alegria.

Mas falta alguma coisa. A coisa. Algo, mas que os autores brasileiros insistem em ignorar: narrativa. O Professor está longe da pasmaceira de O Fotógrafo, do mesmo autor. Mas lhe falta a emoção meio crua de trabalhos como Trapo e O Filho Eterno. Falta-lhe espontaneidade! Falta-lhe, ainda, certo senso de narrativa – aquele suspense imprescindível que mantém o leitor preso ao livro.

Não me entendam mal. Sou admirador da obra de Tezza desde que abri Trapo pela primeira vez, na minha pré-adolescência. Mas há algum tempo venho notando, nele e em seus contemporâneos, esta tendência ao exercício de estilo, à literatice em detrimento da narrativa simples, sincera e… emocionante. Talvez seja uma questão de temperamento. Definitivamente não sou um homem capaz de admirar obras de arte mais exatas (?) e racionais (?).

Gosto de narrativas que extrapolam os limites da sintaxe. É como admiro um quadro: menos pelas pinceladas e mais pela imagem como um todo. Neste sentido, O Professor é como uma obra renascentista que os especialistas elogiarão pelo sfumato, enquanto eu, espectador, darei meio de ombros, simplesmente porque a Madona não me emociona ou eleva.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
%d bloggers like this: