Polzo Show by Adlai

por Paulo Polzonoff Jr. em 22 February 2017

Agora os maravilhosos desenhos do generoso Adlai têm casa própria.

http://www.polzonoff.com.br/polzo-show-by-adlai/

Você não vai com a minha cara

por Paulo Polzonoff Jr. em 6 December 2016

 

Você não vai com a minha cara. Eu sei, você sabe. Nós sabemos. O que é uma pena. Para mim e para você. Imagino quantas coisas poderíamos fazer juntos, quantas conversas agradáveis, quantas risadas, quantas coisas aprendidas e ensinadas. Mas você não vai com a minha cara – e aparentemente não há nada o que eu possa fazer a respeito.

Como sei? Não é preciso distintivo de detetive particular para perceber os sinais. Faço piada e você não ri. Comento algo e você discretamente revira os olhos. Ou então emposta a voz ameaçadoramente, como seu eu fosse seu inimigo. Não sou.

Por que me importo? Não sei direito. É bem verdade que em outros tempos não me importaria. Muita gente não foi, não vai e nunca irá com a minha cara. Muita gente que nunca falou comigo, mas que “ouviu dizer” que sou assim e assado, mais assado do que assim. E eu sempre dei de ombros. Porque é normal e, se não for, acho que em algum momento da vida me acostumei com a ideia de as pessoas não irem com a minha cara.

Mas, em relação a você, me importo, já disse. Talvez porque tenha me esforçado ao máximo, nos últimos tempos, para ser uma pessoa agradável. Para não cometer a gafe de falar alguma bobagem ultrajante. E sobretudo para não ceder à tentação do chiste.

E também porque é simplesmente injusto.

Mas a vida é assim mesmo. A gente se desfaz em mesuras diante de alguém que nem conhece, por pura gentileza, e para nada. A pessoa não vai com a sua cara e cria toda uma imagem monstruosa de você como alguém que lhe causa repulsa. Não há o que fazer.

Eu era assim também. Não ia com a cara dos outros. Por nada. Fulano falava comigo com um tom de voz desagradável e eu já não ia com a cara. Sicrano usava óculos, eu não ia com a cara. Beltrano usava sapatênis e eu não ia com a cara. Arranjar desculpas é fácil. Se bem que nem sempre é necessário. Não vou com a cara porque não vou com a cara. Acredito ter dito isso um bocado.

Hoje em dia, porém, penso em quantas pessoas boas passaram pela minha vida sem que eu prestasse atenção porque não ia com a cara delas. Porque revirava os olhos diante de comentários bobos. Porque não ria de piadas sem graça, mas esforçadas. Porque não era capaz de admirar a simpatia – nada mais do que uma expressão, ainda que mais pobre, da generosidade.

Você não vai com a minha cara. Só me resta esperar que você desarme essa fortaleza de tolices aí, que se deixe seduzir. Não só por mim, claro, mas por todo um Universo de pessoas que não conseguem causar uma boa impressão, por mais que tentem.

Mas, se isso não acontecer, espero ao menos que um dia você perceba que não vai com a minha cara simplesmente porque de alguma forma eu ressalto algum aspecto negativo seu. É sempre assim. E vovô Freud nunca se engana.

Um texto também ele nublado

por Paulo Polzonoff Jr. em 15 October 2016

 

Cabe a mim, neste espaço, resenhar ou criticar, como queiram, livros de autores paranaenses. À procura de um livro que se enquadrasse nesse critério simples, me deparei com Dias Nublados (Arte & Letra), de Luis Felipe Leprevost. Me encontrei por acaso com ele numa livraria e, conversa vai, conversa vem, recebi o livro autografado “ao meu irmãozinho”, com total liberdade para escrever a respeito.

Foi uma conversa agradável, como sempre é com Leprevost. Conheço-o desde que ele era um estagiário no Jornal do Estado. Sempre fomos amigos, apesar das nossas diferenças quanto à arte. Resenhei um livro dele para o Jornal do Brasil, dizendo que era um poeta com potencial. Hospedei-o em minha casa quando morava no Rio e até consegui para ele uma ponta num seriado da Globo. É alguém a quem estimo. E alguém a quem não quero mal nenhum – até porque não desejo mal para ninguém.

Foi com esse espírito que escrevi a crítica de Dias Nublados. Era uma crítica negativa – não porque o considere um escritor incapaz; era uma crítica negativa só porque não houve comunicação entre mim e o livro. Na crítica eu tentava, como sempre, usar um pouco de humor para falar das coisas que não me agradaram. E ressaltava, já no título, que era uma infelicidade o fato de não ter gostado do livro.

Leprevost nunca leu a crítica. Mandei-a para meu editor e, no mesmo dia, pedi ao escritor uma entrevista, avisando que seria algo leve, pedindo que ele abusasse do humor nas respostas. Estava diante do computador, pensando em perguntas absurdas que fugissem do lugar-comum, quando recebi uma enorme mensagem de Leprevost dizendo que não responderia a nenhuma pergunta minha e me pintando como um monstro repugnante por ser amigo dele e não ter gostado de nenhum de seus livros.

A mensagem me destruiu. Principalmente por ter vindo de um amigo, mas não só. Me destruiu porque serviu para confirmar meus maiores temores: (i) o de que os escritores ainda se levam a sério demais e (ii) o de que as pessoas acham que sou mau-caráter ou, para usar uma terminologia psicanalítica que me é cara, perverso ao escrever sobre livros de que não gostei. Como se eu causasse dor aos escritores por mim resenhados – e sentisse um prazer sádico com isso.

O primeiro destes temores é, como não poderia deixar de ser, uma imensa decepção. Realmente esperava que escritores ou poetas, sejam eles curitibanos, acreanos ou nigerianos, não se levassem tão a sério.  Sei que escrever um livro é algo mágico e muitas vezes sofrido, sei que alguns escritores se expõem demais e pagam caro por isso, sei que outros depositam naquele objeto toda a sua esperança de reconhecimento e autoafirmação. Mas no meu mundo nada é assim. No meu mundo, que é um mundo essencialmente infantil, sempre imagino o escritor lendo uma crítica, principalmente uma crítica negativa, como uma possibilidade de aprendizado ou, melhor ainda!, uma reafirmação das opções estéticas do autor. Porque minha palavra nunca teve pretensões absolutistas – nem nunca terá.

O segundo temor é mais complicado. Já perdi muitas noites de sono pensando nas escolhas erradas que fiz na vida – e não foram poucas. Eu poderia ter sido mais “político” – e hoje talvez não vivesse num melancólico ostracismo. Poderia ter optado pela crítica “científica”, sem adjetivos ou humor, aquela crítica que considero inútil e enfadonha. Poderia muitas coisas, mas resolvi ser fiel a mim mesmo e, pior, resolvi apostar na maturidade dos meus interlocutores. Mais uma das muitas escolhas erradas que fiz na vida.

Não. Eu não quero o mal de ninguém ao escrever uma crítica negativa. No meu mundo, que já reconheci ser infantil, o autor que se deparar com um texto meu vai, na melhor das hipóteses, rir aqui e ali de alguma imagem que construí, concordar com algo ou não concordar com nada, deixar a revista ou jornal de lado e seguir com a vida feliz. Confesso-me patologicamente incapaz de imaginar alguém se sentindo magoado com palavras que certamente não foram escritas para magoar.

Foi assim que pedi ao editor que não publicasse a crítica que escrevi a Dias Nublados. Sei que é tarde demais para reparar danos pretéritos, mas que ao menos se estanque aqui a hemorragia. Porque não, não sou cruel, mau-caráter ou sádico; sou, no máximo, um idiota (e chato) que tenta fazer o certo escrevendo textos é são apenas uma forma de diálogo entre almas leves. E sobretudo alguém que tem consciência da própria insignificância.

É (foi) um privilégio

por Paulo Polzonoff Jr. em 13 October 2016

 

Antes de morrer, o neurologista e escritor Oliver Sacks publicou um belo artigo no New York Times. Lembro-me de ler os últimos parágrafos em meio a lágrimas. Porque Sacks fugiu à autopiedade e desespero de um Ivan Ilytch e se rendeu à gratidão. A frase mais emblemática do texto é “foi um privilégio”. Algo que nos últimos dias não me sai da cabeça.

Às vezes me atolo em melancolia e nostalgia e me percebo espiritualmente febril, balbuciando delírios de outros tempos, com outras pessoas e circunstâncias, sempre maldizendo o presente e temendo o futuro. Ah, se eu vivesse no Século das Luzes! Ah, se eu tivesse na Europa do pós-guerra! Ah isso e ah aquilo. Quando, na verdade, sei que é (foi) um privilégio viver agora, em pleno início do século XXI, com você e você (e talvez você aí no fundo), nestas circunstâncias, nesta cidade e nesta merda de país – por mais contraditório que isso possa parecer.

Mas, para além desses privilégios, digamos, metafísicos, há privilégios muito palpáveis. Amigos que fiz, jantares memoráveis com risadas que ainda ecoam em meus ouvidos, baile do Waldorf Astoria e, claro, os diálogos que tenho com um gigante de um metro e trinta chamado Davi. A simples possibilidade de ouvir qualquer música ou assistir a qualquer filme ou ler qualquer livre ao toque de um botão – um milagre do nosso tempo ao qual poucos dão o devido valor.

Não, não fecho os olhos para as mazelas cotidianas: a estupidez que me cerca, a solidão, a conta bancária minguante, as perversidades familiares e o corpo que insiste em definhar. Mas até as mazelas são um privilégio à luz da morte próxima (e aqui vale notar que a “proximidade” é um conceito elástico, que vai de dias a muitas décadas). Afinal, para o guerreiro o campo de batalha é o cenário de sua realização, na vitória ou na derrota.

É um privilégio escrever e ser lido, ser admirado aqui, mal interpretado ali, solenemente ignorado acolá. Meu Deus, é um privilégio absurdo conseguir alinhavar substantivos, verbos e adjetivos de forma inteligível e talvez até bela, marcar com tinta minha passagem por este mundo – por mais que as traças um dia irão se alimentar tanto dos meus textos quanto do meu corpo. É um privilégio sobretudo ter consciência do privilégio.

Sacks estava morrendo de câncer. Eu não estou morrendo, pelo menos não que eu saiba. Mas quero deixar aqui registrado que é, foi e será para sempre um privilégio comungar com esta Humanidade que, como diz Shakespeare num de seus sonetos mais sombrios, triunfa na maldade.

Vírgula mas infelizmente

por Paulo Polzonoff Jr. em 13 October 2016

 

Quando o crítico começa um texto com uma afirmação positiva, pode acreditar que a ela se seguirá uma vírgula e um “mas” que funcionam como comportas abertas para uma torrente de defeitos e problemas encontrados no livro (ou filme ou peça ou música) analisado. É uma estrutura de pensamento comum e que alguns podem ter por preguiçosa, mas que, para mim, expressa uma profunda cordialidade e respeito pelo autor e pela obra.

Luis Felipe Leprevost é um autor que sabe escrever [vírgula] mas que escorrega no Zeitgeist. Escorrega, perde o equilíbrio e cai de bunda no chão. Se você está presente à cena, tem duas opções: correr para ajudá-lo ou rir da trapalhada. Ou, como no meu caso, ajudar rindo.

O maior elogio que posso fazer a Dias Nublados (Arte & Letra) é que se trata de um romance em consonância com seu tempo. Tá, não é exatamente um elogio. Porque o tempo a que me refiro é, para a literatura brasileira, de trevas. Textos obtusos e bizantinos, sem qualquer aspiração à grandeza, destinados, na melhor das hipóteses, a conquistar uma menininha no Largo da Ordem. Há quem veja nisso um propósito nobre. Que seja.

Ao terminar o livro de apenas 111 páginas que me consumiram um bom mês de vida, fiquei me perguntando que tipo de pessoa leria Dias Nublados. A menininha querendo impressionar o autor, talvez. Um adolescente, ainda que tardio, tentando entrar para a turma da literatura curitibana. Mas nunca, em hipótese alguma, um leitor comum minimamente intelectualizado em busca de alimento para a alma, daqueles que não precisam provar nada para ninguém.

Leprevost, que já foi poeta com algum potencial, ao enveredar pela prosa cai na armadilha das firulas estéticas que servem apenas para camuflar a falta do que dizer. Neste sentido, Dias Nublados parece até mesmo uma caricatura. Estão presentes ali as frases de efeitos, a pontuação caótica (caos proposital, quero crer, porque a alternativa é o desconhecimento das mais básicas regras de pontuação), as referências pequenas e, claro, a autorreferência narcisista mais adequada à sala de uma psicanalista freudiana ortodoxa.

A história o leva do nada ao lugar nenhum, os personagens falam platitudes, e a narrativa dialoga (num arroubo de generosidade do leitor) com o tédio do romantismo oitocentista, numa espécie de spleen curitibano. Sinceramente, não tenho mais idade para isso.

O fato é que livros como Dias Nublados contribuem apenas para a construção da literatura brasileira como uma torre de marfim acessível tão-somente a seres especiais, iluminados cujas almas, contrariando Bandeira, se comunicam num dialeto lá só delas. É um movimento suicida que reproduz o que aconteceu com as artes plásticas na segunda metade do século XX. Leprevost, com sua prosa poética críptica e com as dores minúsculas de seus personagens planos, compôs uma instalação literária destas que atraem intelectualóides a bienais em cidades do Terceiro Mundo. Há artistas para os quais este tipo de aplauso provinciano basta. Fazer o quê?

Abri Dias Nublados assim que o recebi das mãos do autor, com dedicatória querida e tudo. Queria – ah, como queria! – encontrar ali algo além de uma emulação de Faulkner ou Antônio Lobo Antunes, com pitadinhas daqueles poetas marginais que nos importunam nos bares. Mas a vírgula ameaçadora e a implacável conjunção adversativa prevaleceram, dando lugar, como sempre, ao mais triste dos advérbios de movo: infelizmente.