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POLZONOFF Posts

Canários

  Largue a metafísica, Paulo! Vai lavar a louça, bater uma laje. Experimente a dor do cartorário, que não é dor, é só ritmo, é o carimbo tocando o samba cotidiano da vida. Se lhe sobra sofrimento pelo que não sabe e pelo que insiste em sonhar no quarto escuro e pela esperança que escorre entre os dejetos do que um dia antes foi um banquete feliz, vai ver o sofrimento da cancerosa e nela admira o débil sorriso de quem ainda espera, de quem olha para o céu azul e não pensa que é alma enclausura em corpo frágil, de quem tem fé em coisas simples e óbvias, de quem acredita em rosadas frases feitas, de que vai dormir sem atinar para a metástase…

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“Aspismo”

A inteligência brasileira sofre do que Carlos Drummond de Andrade chamou de “aspismo” e Otto Lara Resende chamou de “nomismo”. Há tempos constato, como disse Clarice Lispector, “isso”. Os intelectuais, profissionais e diletantes, não conseguem organizar qualquer tipo de raciocínio sem recorrer à “validação patética das aspas”, como já dizia José Saramago. Talvez seja consequência do que José Paulo Paes, em seu elogiado e desconhecido ensaio “Aqui Não, Mermão”, definiu como “cultura do fichamento”. Sabe como é: neguinho perdeu o prazer da leitura pela leitura e, página após página, incapaz de formular uma ideia original, “vai colecionando frases e mais frases que, entre aspas, cabem em qualquer texto banal sobre assunto igualmente banal e dá a eles, texto e autor, respectivamente substância, ainda que falsa,…

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Um humilde estudo da arrogância

Existem palavras simples que a gente usa sem atentar para o significado exato dela. “Arrogância”, por exemplo. Hoje me chamaram de arrogante (não pela primeira vez) e lá fui eu, num exercício humilde de autocrítica, pesquisar o significado de “arrogância” para entender o que sou. O que li me surpreendeu. Me informa um dicionário qualquer aí (Google) que arrogância é a “qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez”. São muitos os problemas dessa definição. Para começar, há a questão da suposta superioridade. Suposta aos olhos de quem? Do Outro, claro. Que, por motivos óbvios (alguém arrogante diria que “por suposta inferioridade moral, social, intelectual, etc”),…

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Meu Walden

Comprei uma caixa de abelhas. Linda, toda branquinha, cheia daqueles compartimentos que em breve estarão pululando de vida. No momento ela está no meio da sala, desmontada, e assim permanecerá até que alguém com mais destreza no manejo de uma chave de fenda me ajude. Ainda hoje pretendo comprar um traje próprio para apicultura. Daqueles que fazem você parecer um astronauta. Custa baratinho nas Americanas. Minha única dúvida é quanto ao tamanho. Meu otimismo me leva a cogitar um traje pequeno; a prudência me faz pensar num traje médio; mas a realidade me impõe um traje grande mesmo. Extra grande está fora de cogitação – por enquanto. Ontem mesmo mandei várias cartas – cartas, meus amigos, aquela coisa velha com envelope e selo e a…

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Tipo agora, digamos assim

A ironia é um verdadeiro milagre. É o mais próximo que chegamos da telepatia. E, como todo milagre, há os abençoados e os desgraçados, tanto emissores quanto receptores – ou, no caso, não-receptores. Para que uma ironia seja produzida numa ponta e decodificada na outra, é necessário um encadeamento específico de elementos. Primeiro, é preciso que tanto emissor quanto receptor esteja numa mesma “frequência de inteligência”. A ironia raramente se realiza entre inteligências muito díspares. Tipo agora, digamos assim. E, aqui, já se nota o dedo de Deus: repare que os envolvidos da tal “dinâmica irônica” não precisam nem estar no mesmo limite do segmento espaço-tempo para que a ironia se realize. Um intelecto que virou pó há duzentos anos ainda é capaz de gerar…

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